Faltam programas de tratamento psicológico

Análise: David Brooks / NYT

O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h04

No início da manhã de 4 de setembro de 1913, Ernst Wagner assassinou sua mulher e quatro filhos na cidade de Degerloch, Alemanha. Em seguida, foi para Mühlhausen, onde achou que os cidadãos estavam zombando dele por ter feito sexo com um animal. Ele abriu fogo e atingiu 20 pessoas, matando pelo menos 9. Acredita-se que essa foi a primeira chacina espetacular do século 20.

Nos 60 anos seguintes, houve uma ou duas dessas matanças por década. Depois, a frequência desses episódios começou a aumentar. Houve pelo menos nove chacinas nos anos 1980, incluindo o caso de 1982 em que um policial na Coreia do Sul massacrou 57 pessoas.

Nos anos 90, houve pelo menos 26 chacinas. Elas incluem o assassinato de 16 pessoas na Alemanha por Robert Steinhäuser, o assassinato de 32 na Virginia Tech por Seung-Hui Cho, a matança em um acampamento de verão na Noruega por Anders Breivik que deixou 69 mortos, e a chacina dos 12 frequentadores de cinema em Aurora, Colorado, na semana passada.

Quando se investiga a mente dos matadores, mergulha-se fundo num mundo de ilusão, esquizofrenia não tratada e orgulho ferido. George Hennard, de Belton, Texas, ficou possesso porque as mulheres o rejeitavam. Ele atravessou a janela de um restaurante com seu carro e começou a disparar, matando 14 mulheres e oito homens.

Tim Kretschmer, de 17 anos, queria se tornar um jogador profissional de tênis de mesa, mas sentiu que o mundo não apreciava suas habilidades, nisso ou em qualquer coisa. Ele voltou à escola alemã onde havia se formado no ano anterior, foi até o laboratório de química no último andar, matou nove adolescentes e seis outras pessoas na fuga.

Razões. É provavelmente um erro pensar que jamais saberemos o que "causou" essas chacinas. Mas quando se leem as avaliações que foram feitas pelo FBI, o serviço secreto e vários psicólogos, notam-se alguns motivos comuns. Muitos assassinos tinham um senso exagerado da própria importância que, eles sentiam, não era devidamente reconhecida pelo mundo. Muitos haviam sofrido um golpe doloroso na autoestima - um emprego perdido, um divórcio ou um fracasso escolar - e decidiram contra-atacar de alguma maneira espetacular. Muitos haviam sofrido uma depressão severa ou tentado o suicídio. Muitos tinham vida solitárias, mas a maioria compartilhou suas fantasias violentas com pelo menos uma pessoa antes de cometer seus crimes.

Os matadores geralmente se sentiam tensos antes de agir, mas em paz e no controle durante a chacina. Alguns cometeram suicídio depois do feito. Mas um número surpreendente apenas se entregou. Eles fizeram a declaração que queriam fazer e não haviam pensado no que viria depois.

O ponto crucial é que as dinâmicas são internas, não externas. Esses assassinos são em grande parte o produto de distúrbios psicológicos, não sociológicos. Entretanto, depois de cada chacina não faltam pessoas querendo usar os fatos para indiciar tudo que não gostam na sociedade. Alguns anos atrás, alguns comentaristas tentaram culpar videogames violentos por uma matança. O problema é que matadores tendem a ser mais velhos que os assassinos normais e a não ser usuários contumazes de videogames. Há poucas evidências de que videogames violentos levam à violência na vida real.

Hoje, algumas pessoas estão tentando usar a chacina de Aurora como um pretexto para criticar a cultura das armas nos EUA ou pedir leis mais duras de controle de armas (isso nunca ocorre após chacinas europeias ou asiáticas). Pessoalmente, tenho apoiado leis mais duras para o controle de armas. Mas não está claro se essas leis melhorariam a segurança pública. Os pesquisadores que analisaram a literatura sobre controle de armas para o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, por exemplo, não conseguiam mostrar que as leis são eficazes.

E as leis de controle de armas são provavelmente ainda menos pertinentes nesses casos. Autores de chacinas tendem a ser planejadores meticulosos. Se não puderem encontrar um jeito fácil de conseguir uma arma nova, eles com certeza darão um jeito de conseguir uma dos 200 milhões de armas que já existem neste país. Usarão uma bomba, ou encontrarão outro jeito.

Considerar as armas, considerar os videogames é partir da perspectiva errada. As pessoas que cometem chacinas em geral estão sofrendo de distúrbios mentais graves. A resposta, e a maneira de prevenir episódios futuros, precisa começar com a psiquiatria também.

A melhor maneira de impedir chacinas é com relacionamentos - quando uma pessoa nota que um parente ou vizinho está fora do eixo e consegue tratamento antes de a barbárie se impor. Mas é preciso haver também um sistema mais agressivo de opções de tratamento, em especial para homens na faixa dos 20 anos. Os realmente perturbados sempre estiveram entre nós, mas agora seus surtos estão tomando formas mais malignas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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