Fernanda Simas / Estadão
Fernanda Simas / Estadão

‘Faltou ao governo dialogar com a campanha do ‘não’’

Parlamentar que foi sequestrada com Ingrid Betancourt afirma que ainda é possível salvar acordo de paz

Entrevista com

Clara Rojas, deputada colombiana e ex-refém das Farc

Fernanda Simas Enviada Especial / Bogotá , O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2016 | 05h00

A deputada pelo Partido Liberal e ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Clara Rojas, acredita que mudar pontos do acordo de paz feito entre a guerrilha e o governo de Juan Manuel Santos é a única forma de conseguir superar os 52 anos de conflito. “As vozes são válidas. Acho que em algum momento o que faltou aos negociadores foi se reunir com os representantes do ‘não’”, afirmou a parlamentar em entrevista ao Estado. Durante os quase seis anos sob poder das Farc, Clara engravidou, teve um filho, Emmanuel, foi separada do bebê quando ele tinha 8 meses, mas mudou a visão que tinha da guerrilha e não vê um problema em ter o grupo atuando na política. A seguir, a entrevista. 

A senhora acredita em um acordo de paz com as Farc?

Sim, sempre achei que essa era a solução, mas depois do plebiscito iniciou-se uma grande discussão na Colômbia para saber se retomarão as negociações e farão modificações em alguns pontos ou vão descartar totalmente esse acordo e iniciar do zero. Estamos em uma situação muito crítica. Estamos sob cessar-fogo e as coisas começaram a mudar, não estamos no meio do fogo cruzado e notamos que as Farc estão mais tranquilas, mas a situação precisa de solução, não pode ficar em aberto.

A senhora acha que é preciso mudar pontos do acordo?

De imediato, sim. As vozes são válidas. Acho que em algum momento o que faltou aos negociadores foi se reunir com os representantes do ‘não’ e dizer ‘bom, dos dez pontos que vocês apresentam isso pode ser feito, isso não, porque estamos focados em outro aspecto’. Eles têm críticas grandes, principalmente no tema de justiça e prisão, e pedem uma grande anistia para os guerrilheiros da base, mas e o que acontecerá com os altos comandantes? É uma coisa contraditória, pois a condição deles (Farc) para largar as armas é participar da política. Então, até que ponto vão aceitar ficar presos por determinados anos? É complexo. Essa é a maior guerrilha do país e está na luta armada há muito tempo, então precisamos ver até que ponto as Farc estarão dispostas a renegociar.

 

O que a senhora pensa sobre as Farc atuarem na política?

Eu já havia digerido isso como algo que poderia ser feito. Nesse aspecto, há bons argumentos na campanha do ‘não’. Para essas pessoas, as concessões do governo foram muitas e para as Farc conseguirem os assentos no Congresso elas devem primeiro buscar os votos. Outra questão é que as Farc terão acesso a recursos, o que não ocorre com nenhum outro partido, então eles sentem que há uma desvantagem grande e precisamos ver como isso será equilibrado.

O que a senhora pensava das Farc antes do sequestro?

Bom, eu só sabia delas por meio da televisão, em matérias investigativas ou acadêmicas. Depois disso, com o sequestro, que foi muito difícil, passei a ver a estrutura militar do grupo organizado, com forte liderança. Passa-se a entender a dimensão dessa organização. O treinamento, a maneira como lidam com os integrantes é muito forte.

Essa visão mudou?

Foi mudando, mas entendi que não eram invencíveis, que eles tinham medo da morte, eram picados por mosquitos, também ficavam doentes. Passei a vê-los como pessoas normais e, nesse sentido, já não eram como guerrilheiros fortes e valentões que nos falavam, como se fossem quase invencíveis. Eles começaram a perceber que o governo podia derrotá-los, muitos morreram em operações de segurança. 

Como a complexidade das Farc dificulta um acordo?

Eles estão em um processo de reinvenção política, conquistar a confiança. Eles também têm um desafio. Seu chefe máximo disse que segue com a vontade de obter a paz, e isso significa abrir novamente o acordo e entender o ponto de vista dos outros para chegar a um cenário bom para todos. 

Em que a sra. pensou quando foi libertada em 2008?

Eu me sentia muito feliz, encontrar a liberdade é algo muito valioso. Tive a sorte de ter minha família, minha mãe, meu filhinho. Era uma grande motivação para seguir em frente além do apoio popular.

Pensou em desistir da política?

Não. O que sempre questionei foi qual era o momento de se estar na política. As coisas foram acontecendo e hoje estou nesse gabinete.

Seu filho se interessa pelo que acontece na Colômbia agora?

Sim, mas é uma criança. Ele me faz perguntas, mas não sobre o conflito e o sequestro. Eu sempre optei por ser sincera com ele, disse que estivemos sequestrados, que ele ficou um tempo em lar temporário, ele sabe disso. Então, ele já assumiu sua história, o que é um grande ganho, mas hoje vivemos outra realidade. 

O que mudou na sua vida depois do sequestro?

Muitas coisas mudam. Você passa a ter uma visão diferentes. Você passa a não dar tanta importância a coisas que antes pareciam importantes depois de pensar que vai morrer e ser privada de tantas coisas. Antes eu sofria e me chateava com algumas coisas e depois de uma experiência tão dura passei a me importar com coisas simples da vida.

Após sua libertação, houve muita especulação sobre o período em que foi refém e sua relação com (a ex-candidata presidencial) Ingrid Betancourt. Como lidar com isso?

Quando as pessoas começaram a perguntar sobre a minha vida particular lhes disse ‘aqui há um limite, minha vida particular é só minha, eu posso dizer o que aconteceu durante o sequestro, tenho vontade de informar e ajudar, mas minha vida particular é minha’. E as pessoas começaram a respeitar isso.

Há uma polarização na Colômbia entre seguidores de Álvaro Uribe e do presidente Juan manuel Santos?

Acho que não. Pensar que estamos divididos entre Santos e Uribe é um erro. No domingo, mais de 12 milhões de colombianos votaram e vieram de muitos setores. Se conseguirmos superar esse momento, com ajustes no processo de paz, sairemos fortalecidos como país. São posições diferentes e por isso vivemos uma crise. 

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