Fama é o maior trunfo da secretária Hillary

Status de celebridade ajudará trabalho da futura chefe da diplomacia, que tem pouca experiência internacional

Helene Cooper, The New York Times, Washington, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Hillary Clinton não fala outro idioma, mas já esteve em 90 países. Ela jamais negociou um acordo entre dois lados em conflito, mas um discurso feito por ela em Pequim, em 1995, ainda é citado pelas defensoras dos direitos das mulheres em todo o mundo. Escolha do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, para ocupar o cargo de secretária de Estado, Hillary tem um currículo que, sob muitos aspectos, impressiona menos do que o de seus antecessores. Ela não tem as décadas de experiência acadêmica e prática de Condoleezza Rice nem o know-how militar de Colin Powell. Veja formação do gabinete de Obama e compare com o de BushHillary também não é tão próxima de Obama como o ex-secretário de Estado James Baker era de George Bush pai. E nem possui a credibilidade de uma Madeleine Albright ou de um Henry Kissinger - ela nascida na República Checa, ele na Alemanha, o que conferia uma aura de cosmopolitismo e esplendor às suas credenciais diplomáticas. Ainda assim, a escolha de Hillary eletrizou muitos no mundo diplomático, que agora aguardam a chance de se sentarem numa mesa de reuniões com uma ex-primeira-dama e ex-candidata à presidência dos EUA, integrante de uma das famílias mais tradicionais da política americana."Quando ela chegar a uma cidade, todas as atenções estarão voltadas para ela", diz George Friedman, diretor executivo da Stratfor, empresa de análise de risco geopolítico. "Hillary certamente receberá a atenção exclusiva de qualquer líder estrangeiro com quem esteja debatendo."Além do poder de atração conferido a ela pelo status de celebridade, os partidários de Hillary dizem que seu passado pouco ortodoxo esconde habilidades diplomáticas que muitos de seus predecessores no cargo não possuíam. E eles descartam a idéia de que, por não ser capaz de fazer um pedido num restaurante em francês, ela não consiga convencer a União Européia a enviar mais soldados ao Afeganistão.INTIMIDADE"Há muitos funcionários bem-sucedidos do serviço diplomático disponíveis, mas, antes de tudo, um secretário de Estado precisa ser alguém que compreenda a complexidade do mundo", diz Liz Schrayer, diretora do Centro de Engajamento Global Americano. "Os antigos critérios para a escolha de um secretário de Estado não fazem mais tanto sentido."Hillary não tem, no momento, um relacionamento tão próximo com Obama quanto os que tiveram dois dos mais reconhecidos secretários de Estado americanos, Dean Acheson e George Marshall, íntimos do presidente Harry Truman. Acheson e Marshall, porém, não eram amigos de Truman quando foram apontados para o cargo. "Eles foram, pouco a pouco, desenvolvendo um relacionamento profissional mais sólido e se aproximando de Truman", diz Richard Holbrooke, ex-embaixador americano na ONU. "Mas nunca foram companheiros de drinques ou de jogos de pôquer do presidente." Segundo ele, "Hillary entende os problemas globais e os mecanismos da diplomacia porque viu o marido tomar decisões de guerra e paz".Essa idéia de que Hillary obteve experiência em política externa por osmose nos oito anos em que foi primeira-dama foi contestada nas primárias democratas por Obama e seus assessores. Na sua entrevista coletiva de segunda-feira, porém, o presidente eleito fez pouco de suas próprias palavras, tratando-as como "coisa do passado".EXPERIÊNCIAHillary viajou para 82 países quando era primeira-dama. Antes de embarcar, com freqüência entrevistava funcionários do departamento de segurança nacional da Casa Branca. Não participou de reuniões do Conselho de Segurança Nacional, mas conversava com diplomatas e especialistas estrangeiros, segundo seus assessores.Ela fez pressão para comparecer a uma conferência da ONU sobre direitos da mulher realizada em Pequim, em 1995, num momento em que muitos críticos em Washington, dentro e fora da Casa Branca, argumentavam que a presença dela era inoportuna num momento em que a China mantinha detidos muitos ativistas de direitos humanos - Bill Clinton, por exemplo, só visitou a China depois de 1998.O discurso de Hillary foi marcante. "Se uma mensagem deve ecoar a partir desta conferência, que seja a admissão, de uma vez por todas, de que os direitos da mulher são os direitos humanos", disse ela. Mais de uma década depois, os defensores dos direitos da mulher ainda fazem referência a essas palavras.Hillary dispõe de uma extensa rede de contatos estrangeiros construída por meio de seu marido e no período em que passou a serviço do Comitê de Serviços Armados do Senado, durante o qual ela viajou ao Iraque e ao Afeganistão três vezes.No Senado, ela utilizou esses contatos. Certa vez, chegou a telefonar para o então primeiro-ministro britânico Tony Blair para que ele apoiasse um contrato de defesa que beneficiaria o Estado de Nova York.A maior incógnita do currículo de Hillary diz respeito a sua capacidade de negociar um acordo de paz, pré-requisito para qualquer bom secretário de Estado. Hillary nunca teve de trancar dois líderes estrangeiros beligerantes numa sala e obrigá-los a chegar a um acordo. Também não teve de pressionar diplomatas estrangeiros a assinar um documento.Hillary elogiou o general Wesley Clark, ex-comandante da Otan, e Holbrooke, enviado da administração Clinton aos Bálcãs, que se socializaram e beberam com o líder sérvio Slobodan Milosevic durante a guerra para avaliar sua força. "Não se aprende algo sobre o sujeito só apontando para ele do outro lado do oceano", disse ela na época. Philippe Reines, porta-voz de Hillary, lembra que, quando era senadora, ela convenceu empreendedores de Manhattan a investir no desenvolvimento econômico do interior do Estado de Nova York.

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