KATYA LETOVA / MEDUZA
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Família curda acampa em aeroporto de Moscou para aguardar burocracia russa

Hassan Abdo Ahmed Mohammed, sua mulher e seus quatro filhos estão dormindo há 50 dias em um canto de um dos terminais pois autoridades russas acreditam que os vistos deles são falsos

O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2015 | 09h39

MOSCOU - Uma família curda que fugiu da guerra civil na Síria está agora em um purgatório burocrático: o aeroporto de Moscou. Hassan Abdo Ahmed Mohammed, sua mulher e seus quatro filhos querem ficar na Rússia, mas o governo diz que seus vistos são falsos. Voltar para casa está fora de questão, pois o território curdo está muito perigoso.

Sem contar com muitas opções, a família montou um acampamento dentro do Aeroporto Sheremetyevo de Moscou e espera enquanto o advogado da família tenta resolver o problema.

Nos últimos 50 dias, segundo informações da CNN, a casa deles tem sido um canto de um dos terminais do aeroporto com vista para a pista de voo. Colchões de ar estão espalhados pelo chão para Mohammed e a família poderem dormir, e malas de viagem foram empurradas contra as paredes. Eles não podem cozinhar, então a Unicef fornece alimentos, e usam os banheiros do local.

Sem portas para manter afastadas as pessoas que circulam pelos corredores, a família esticou um cordão para demarcar o seu espaço, com um sinal escrito a mão em que se lê: “Por favor, não toquem em nossas coisas, pois estamos morando aqui”.

Recentemente, a situação melhorou um pouco. A Organização das Nações Unidas (ONU) e uma organização não-governamental convenceram as autoridades russas a deixarem a família passar algumas noites em um hotel localizado dentro do terminal do aeroporto.

“Depois de 44 dias dormindo no chão, no frio, eles decidiram nos colocar em um hotel”, disse Mohammed. “A condição do quarto não é boa, e eles ainda nos colocaram na área para fumantes.” O local não é um bom lugar para os filhos do casal, três garotos de idades entre 8 e 13 anos, e uma garota de 3 anos. “Não vemos o sol há 49 dias”, afirmou Mohammed.

Para entender
Cinema
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A situação da família de Mohammed é semelhante à vivida pelo personagem Viktor Navorski em “O Terminal” (2004) de Steven Spielberg. O filme, estrelado por Tom Hanks, conta a história de um homem do Leste Europeu que fica preso no Aeroporto Internacional JKF, em Nova York, pois uma revolução em sua terra-natal faz com que seu passaporte fique inválido. Ele então é forçado a ficar no aeroporto até que acabe o conflito.

As condições estavam tão ruins que a mulher de Mohammed ficou doente e teve que passar duas semanas em um hospital, disse ele. “Não tínhamos permissão de vê-la, nem mesmo nossos filhos podiam. Ela já voltou, mas ainda não se sente bem.”

Enquanto centenas de refugiados da Síria, Iraque e outros países do Oriente Médio viajam para a Europa, Mohammed e sua família seguiram para a Rússia. Ele explica que o país foi escolhido é onde moram a irmã e o primo de sua mulher.

Após deixar a Síria, eles foram para Ibril, cidade curda ao norte do Iraque, onde deram entrada no pedido para obtenção de vistos russos. Depois, foram para Istambul e finalmente para Moscou.

“Chegamos no aeroporto e nos disseram que teríamos que esperar uma verificação de segurança”, disse Mohammed. “Após alguns dias, nos disseram que nossos vistos eram falsos.”

A Rússia quer deportar a família de volta para a Síria, mas a família reitera: “se voltarmos, o regime nos matará”. Mohammed ainda pediu permissão para ao menos voltar para Istambul ou Ibril, mas as autoridades russas negaram o pedido.

“Os funcionários do aeroporto me trataram como um terrorista”, afirmou Mohammed. “Pareço com um terrorista? É assim que eles tratam um pai acompanhado por sua mulher e filhos, desesperados para viver uma vida normal?”

O refugiado acredita que os laços estreitos entre a Rússia e o governo sírio estão interferindo em seus planos de entrar no território russo. “Eles (russos) não querem encorajar os sírios a deixarem o país”, disse.

O advogado de Mohammed disse que o governo da Síria conferiu os passaportes e garantiu que eles eram autênticos. Autoridades russas estão agora investigando os documentos e devem chegar a uma solução em breve, explicou.

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