EFE/ Fabio Frustaci
EFE/ Fabio Frustaci

Família de desaparecida pressiona Vaticano após descoberta de ossos na nunciatura de Roma

Ossada foi localizada por funcionários que trabalhavam na reforma da embaixada da Santa Sé em Roma e podem ser de jovem desaparecida há 35 anos

O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2018 | 20h08

ROMA - O Vaticano está novamente no olho do furacão por conta do anúncio da descoberta na nunciatura em Roma de ossos humanos que podem pertencer à filha de um funcionário da Santa Sé desaparecida há 35 anos.

A família de Emanuela Orlandi, a adolescente que desapareceu misteriosamente em 1983 em pleno centro de Roma, pediu, nesta quarta-feira, 31, esclarecimentos ao Vaticano depois do anúncio oficial feito na véspera pelo porta-voz do papa.

Os ossos foram localizados por funcionários que trabalhavam na reforma da embaixada da Santa Sé na Itália.

A macabra descoberta foi imediatamente relacionada pela imprensa com o desaparecimento de Emanuela Orlandi, de quem não se soube mais nenhuma informação desde 1983.

Esse desaparecimento havia sido relacionado com hierarcas da Igreja, com a máfia e também com o turco Ali Agca, autor do atentado contra João Paulo II em 1981.

"Pedimos com caráter oficial que sejamos informados sobre qualquer ato, situação ou descoberta. Queremos saber", declarou à rádio italiana a advogada da família Orlandi Annamaria Bernardini Pace.

O anúncio do Vaticano, mediante uma nota oficial do porta-voz do papa na noite de segunda-feira, gerou muita especulação e acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeças que é o caso Orlandi.

A Procuradoria italiana imediatamente abriu uma investigação e ordenou à polícia forense que estabeleça a idade e o sexo da ossada descoberta, assim como a data e o motivo da morte.

Em 1983, além de Emanuela, outra adolescente desapareceu misteriosamente em Roma, Mirella Gregori, e, por isso, também poderiam ser seus ossos. 

O Vaticano assinala que sempre colaborou com a Justiça e não relacionou a descoberta dos ossos com os nomes das meninas desaparecidas.

Pouco depois de sua eleição como pontífice em 2013, o papa Francisco apertou a mão durante uma audiência de Pietro Orlandi, que contou à imprensa que o papa lhe disse ao ouvido que Emanuela "estava no céu".

A nunciatura apostólica, rodeada por um vasto parque, foi doada à Santa Sé em 1949 por um empresário judeu como forma de agradecimento por ter salvado a vida de muitos judeus durante a 2ª Guerra.

Essa não é a primeira vez que a polícia italiana segue uma pista para encontrar o corpo de Emanuela. 

Em 2012, legistas exumaram o corpo do chefe da Banda della Magliana, a máfia de Roma durante os anos 70 e 80, que havia sido enterrado inexplicavelmente em uma igreja do Vaticano que ficava ao lado da escola de música frequentada por Emanuela.

Tratava-se de Enrico De Pedis, cuja amante, Sabrina Minardi, contou ao Ministério Público de Roma que ficou encarregada de colocar a jovem em seu automóvel e levá-la até o local onde seu companheiro tinha indicado.

Sabrina explicou que a menina foi sequestrada por indicação do arcebispo americano Paul Marcinkus, então diretor

do Instituto para as Obras Religiosas (IOR, mais conhecido como o Banco do Vaticano) "para dar um aviso a alguém".

Após essas revelações, também foi investigado o ex-reitor da basílica de Santo Apolinário, Piero Vergari, que autorizou o enterro de De Pedis nessa igreja e também trabalhou durante um período na Nunciatura do Vaticano em Roma, onde a ossada foi encontrada. / AFP e EFE

 

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