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Família de dissidente chinês rejeita que ele seja submetido a respiração artificial

Liu Xiaobo está internado para tratar um câncer de fígado em fase terminal; hospital disse que ele sofreu uma múltipla falência de órgãos

O Estado de S.Paulo

12 Julho 2017 | 12h01

PEQUIM - A família do dissidente chinês e vencedor do prêmio Nobel da Paz, Liu Xiaobo, rejeitou que ele seja submetido a uma respiração artificial, anunciou nesta quarta-feira, 12, o Hospital Universitário Nº. 1 de Shenyang, onde ele está internado em razão de um câncer de fígado em fase terminal.

Após três dias de tratamento intensivo, "o paciente está em insuficiência respiratória". "O hospital explicou à família a necessidade de realizar uma intubação traqueal" para submetê-lo à respiração artificial, mas a família rejeitou, informou o centro médico.

O hospital, que algumas horas antes informou que Liu, de 61 anos, sofreu uma falência múltipla de órgãos, afirmou que o funcionamento do fígado se deteriorou apesar de três dias de tratamentos para combater a infecção.

"Não temos nenhum modo de receber notícias diretamente dele ou de sua família, mas segundo o comunicado do hospital (...), é possível que Liu Xiaobo não sobreviva às próximas 24 horas", declarou o dissidente chinês Ye Du.

O governo alemão solicitou que a China permita que o dissidente deixe o país e se prontificou em tratá-lo. "Liu e sua mulher expressaram claramente o desejo de deixar a China. A Alemanha está pronta para acolher e fornecer a ele o tratamento médico", declarou o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert.

"A situação de Liu e de sua família só pode ser descrita como dramática, razão pela qual o governo alemão pede aos líderes chineses que priorizem o aspecto humanitário deste caso e autorizem sem demora sua partida" ao exterior, acrescentou.

Em caso de morte na China, Liu Xiaobo se tornará o primeiro Nobel da Paz a morrer privado da liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que morreu em 1938 em um hospital quando estava detido pelos nazistas. O opositor está hospitalizado em liberdade condicional, depois de passar oito anos na prisão para cumprir sentença por "subversão".

A China se opõe à ideia de Liu viajar ao exterior para receber tratamento, alegando que seu estado de saúde impede sua saída. Na semana passada, dois médicos ocidentais que visitaram o paciente avaliaram que ele teria condições de deixar o país.

Na terça-feira, o governo americano apresentou uma proposta à China para receber o dissidente e lhe oferecer tratamento médico. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, respondeu que os outros países devem respeitar a soberania judicial chinesa e "não interferir nos assuntos internos da China sob pretexto de um caso individual".

Na segunda-feira, o Hospital Universitário N.º1 de Shenyang informou que Liu se encontrava "em estado crítico". De acordo com a instituição, o paciente sofreu um choque séptico, uma infecção abdominal e foi submetido à diálise.

Direitos humanos

Antes do último boletim médico, grupos de defesa dos direitos humanos questionaram as razões para os relatórios diários, considerando a possibilidade de as autoridades estarem manipulando as informações.

"Como as autoridades controlam todas as informações relativas ao estado de saúde de Liu Xiaobo, é difícil verificar a veracidade dos comunicados publicados pelo hospital na internet", disse o diretor chinês da Anistia Internacional, Patrick Poon. "Alguém poderia perguntar de maneira legítima se as autoridades não publicam essas informações para justificar sua recusa a permitir que ele deixe o país", completou.

"Não sabemos em que medida são boletins médicos profissionais ou informações manipuladas com fins políticos", declarou Maya Wang, da ONG Human Rights Watch.

Em um vídeo divulgado no início da semana, Liu aparece muito magro, cercado por médicos que conversam com sua mulher e colegas. Nas imagens, o médico alemão Markus Buchler diz à mulher do dissidente, Liu Xia, que seus colegas chineses estão "plenamente dedicados" aos cuidados de seu marido.

Ativistas dos direitos humanos também criticaram a difusão dessas imagens. "É evidente que a China tem interesse em fazer crer que Liu Xiaobo está sendo bem tratado, quando, na realidade, se porta de maneira desumana", declarou a diretora da Human Rights Watch na China, Sophie Richardson, que denunciou "uma grotesca propaganda". / AFP

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