Família de engenheiro morto no Iraque trava disputa com Odebrecht

Ela busca reparação financeira, mas alega que, após confirmação da morte, empresa começou a criar dificuldades

Alexandre Rodrigues, RIO, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Cinco meses após o engenheiro João José Vasconcellos Jr. ter sido sepultado no Brasil, a família do funcionário da Construtora Norberto Odebrecht, que foi seqüestrado e morto no Iraque em janeiro de 2005, ainda não recebeu qualquer reparação financeira. Rodrigo Vasconcellos, filho do engenheiro, reclama que até agora a construtora não repassou à família nem mesmo o seguro de vida do pai. Ele revelou ao Estado que a empresa condiciona o repasse à assinatura de um termo de quitação total, que a família não concorda. Na prática, o documento inviabilizaria a reivindicação posterior de qualquer outro tipo de indenização, que os Vasconcellos acreditam ter direito.A aparente harmonia entre a família e a empresa - que enviou o engenheiro para uma das zonas mais perigosas do mundo para conduzir a reforma de uma usina termelétrica - deu lugar ao estranhamento desde o funeral de Vasconcellos, em junho, em Juiz de Fora (MG), sua cidade natal, que contou com a presença do presidente da construtora, Marcelo Odebrecht. Dois meses depois, Rodrigo teve de recorrer ao executivo, num tom duro, para conseguir reuniões e ter acesso a documentos sobre a situação trabalhista do pai.Depois da localização do corpo e da emissão do atestado de óbito de Vasconcellos, em junho, a Odebrecht suspendeu o pagamento à família do salário integral do engenheiro, que havia sido mantido desde o seqüestro. Também não foi feito o resgate de seu fundo de garantia. A empresa tampouco ofereceu assistência para protocolar no INSS o pedido de pensão da viúva, Tereza Vasconcellos, medida que ela acabou tomando sozinha. Nos últimos meses, a família vive de economias. Apenas o plano de saúde foi mantido pela Odebrecht.Durante os dois anos e meio do desaparecimento do engenheiro, Rodrigo e o tio Luiz Henrique Vasconcellos foram os principais interlocutores da família com a Odebrecht e o Itamaraty. Nos contatos com a imprensa, sempre evitaram criar polêmica com a construtora, com medo de que ela abandonasse os esforços nas buscas. No sepultamento, os dois negaram-se a fazer qualquer declaração sobre um eventual pedido de indenização, acreditando que seria fácil selar um acordo com a empresa. Apesar de alguns desentendimentos, o relacionamento era considerado bom. Por isso Rodrigo se diz surpreso com a mudança de posição.O desacordo sobre dinheiro começou ainda em julho de 2005, pouco depois do seqüestro, quando a Odebrecht reduziu em 1/3 o salário do engenheiro repassado à família, como se ele já tivesse voltado à base da construtora em Miami. Para atuar no Iraque, Vasconcellos teve um acréscimo de 50% ao seu salário de diretor de contrato da Odebrecht Internacional, cujo valor a família não revela. A empresa acabou desistindo da redução diante da resistência de Rodrigo."Eles alegaram que as obras no Iraque tinham acabado e não havia mais funcionários lá. Eu disse: ?Isso é mentira. Meu pai não está aqui em casa. Ele está no escritório de Miami com vocês? Meu pai está no Iraque, representando a empresa 24 horas por dia. Vocês têm de pagar o salário dele no Iraque, sim?. Eles levaram meses para entender que não abriríamos mão disso", contou.Ainda em 2005, antes de saber o paradeiro de Vasconcellos, a Odebrecht comunicou à família que o seguro coletivo da construtora não tinha validade em países de risco como o Iraque, mas que havia uma outra apólice, específica para áreas de conflito, cujo pagamento a empresa já havia recebido e teria de repassar à família. Apesar da insistência de diretores para que recebessem o dinheiro, os Vasconcellos decidiram que só aceitariam após a certeza da morte.Os Vasconcellos procuraram um advogado somente após o enterro do engenheiro, mas não entraram com processo na Justiça. Com a ajuda do profissional, formularam uma proposta de reparação financeira, da qual a Odebrecht poderia descontar o valor do seguro. Rodrigo não revela cifras, mas diz que o valor do seguro oferecido é menos de 50% do que a família quer. "Foi feito um cálculo simples, realista, com base nos rendimentos de meu pai e do ocorrido no Iraque. Não pedimos nada exorbitante, é muito menos do que as pessoas imaginam. A empresa gastará mais com a festa de fim de ano na Costa do Sauípe", disse Rodrigo.A família ainda tem dúvidas sobre a validade do contrato de trabalho de Vasconcellos no Iraque. O engenheiro era oficialmente licenciado da Odebrecht brasileira, mas o contrato de 94 páginas com a Odebrecht Internacional tem várias lacunas em branco, como o salário e a data da vigência. Além disso, diz Rodrigo, a data é posterior à ida do engenheiro para o Iraque, no início de 2004. "Meu tio até disse a eles: ?Se o problema é esse, deixa que a gente preenche o salário?", contou Rodrigo. Para o filho mais velho do engenheiro, a Odebrecht insistiu para que a família recebesse o seguro antes do desfecho do caso na tentativa de evitar um futuro acordo financeiro e, agora, numa contradição, adia o pagamento para que a família entre em dificuldades econômicas e aceite apenas o benefício e os recursos da rescisão de contrato do pai. Apesar do impasse, Rodrigo ainda não pensa em ir à Justiça. Diz que ainda acredita em um acordo. O Estado procurou a Odebrecht por três dias, mas a empresa não retornou os vários telefonemas.

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