Rochester Police via Roth and Roth LLP via AP
Rochester Police via Roth and Roth LLP via AP

Família divulga vídeo que mostra polícia encapuzando homem negro que é morto após abordagem

Sete policiais envolvidos no caso, que ocorreu em março, foram afastados; uso de capuz em suspeitos se tornou padrão para impedir que gotículas de saliva alcancem as autoridades

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 10h37
Atualizado 03 de setembro de 2020 | 19h01

ROCHESTER, EUA - A cidade de Rochester, no Estado de Nova York,  suspendeu nesta quinta-feira, 3, sete policiais após a família de Daniel Prude - homem negro morto em março  - divulgar na quarta-feira imagens da ação que resultou em sua morte. Durante a abordagem policial, Prude foi algemado, encapuzado e teve sua cabeça pressionada contra o asfalto por cerca de dois minutos. O Ministério Público do Estado de Nova York anunciou que está investigando o caso, a pedido do governador Andrew Cuomo

O homem, de 41 anos, morreu em 30 de março, depois de ter sido retirado do aparelho de suporte à vida, sete dias após a abordagem policial. Sua morte não recebeu atenção pública até quarta-feira, quando sua família concedeu uma entrevista coletiva e divulgou o vídeo de câmeras da polícia e relatórios escritos que obteve por meio de um pedido de registro público.

"Nosso departamento de polícia falhou com Daniel Prude, assim como nosso sistema de saúde mental, nossa sociedade e eu", disse a repórteres a prefeita de Rochester, Lovely Warren, que é negra. 

Ela disse que não tinha conhecimento das circunstâncias da morte de Prude até agosto e condenou o caso como um ato de racismo. "O racismo institucional e estrutural levou à morte de Daniel Prude. Não vou negar, estou diante dele e clamo por justiça", disse Warren.

Protestos estão planejados para a noite desta quinta-feira, 3. Ativistas que estavam organizando atos em Rochester e na Times Square, da cidade de Nova York, pediram que os agentes que detiveram Prude sejam presos e acusados por sua morte. 

Ainda na quarta-feira, após a divulgação do vídeo, protestos irromperam no centro de Rochester, uma cidade que fica próxima do Lago Ontário, situada a cerca de 480 km ao norte da cidade de Nova York. A polícia usou spray de pimenta contra os manifestantes e prendeu nove pessoas. 

As imagens divulgadas pela família mostram Prude nu, algemado e cooperando com a polícia, que pede para ele ficar no chão, com as mãos atrás das costas. Está nevando durante a ocorrência e ele pede para ser liberado pelos policiais. Então começa a se agitar e se contorcer.

A polícia foi chamada ao local pelo irmão de Daniel, Joe Prude, que alegou que ele tinha problemas mentais e precisava de ajuda para contê-lo. Na coletiva de imprensa de quarta-feira, durante a divulgação das imagens, Joe condenou a atuação dos policiais: "Eu fiz uma ligação para receber ajuda com meu irmão. Não para que ele fosse linchado."

Na continuação do vídeo, Prude grita para os policiais: "Me dê sua arma, eu preciso”. Em seguida, colocaram um capuz branco sobre sua cabeça. O dispositivo foi adotado pelas polícias americanas no início da pandemia do novo coronavírus para proteger os agentes da saliva dos detidos. Na época, Nova York estava nos primeiros dias da crise sanitária.

Prude exige que removam o capuz. Em reação, os policiais imobilizam o homem já algemado e batem a cabeça dele no chão. Um dos policiais segura a cabeça do homem contra o asfalto com as duas mãos, dizendo "acalme-se" e "pare de cuspir". Outro oficial coloca um joelho em suas costas.

"Está tentando me matar!" diz Prude.  A voz dele vai ficando abafada e angustiada na gravação. "Ok, pare. Eu preciso. Eu preciso", o homem prostrado implora antes que seus gritos se transformem em gemidos e grunhidos.

Os policiais parecem ficar preocupados quando Prude para de se mover, fica em silêncio e notam água saindo de sua boca. "Você está vomitando?", diz um dos policiais. Outro observa que ele está na rua, nu, há algum tempo. Outro comenta: "Ele está com muito frio". Sua cabeça foi mantida abaixada por um policial por pouco mais de dois minutos.

Ao fim do vídeo, é possível ver os policiais tirando as algemas do homem e médicos chegando em uma ambulância para atendê-lo.

Um legista concluiu que a morte de Prude foi um homicídio causado por "complicações de asfixia em ambiente de contenção física". O relatório lista também que a situação de delírio de Prude e uma intoxicação aguda por fenciclidina foram fatores que contribuíram para a morte.

Antes da abordagem

Prude era de Chicago e acabara de chegar a Rochester para uma visita com seu irmão. Ele foi expulso do trem no caminho, ainda em Depew, "devido ao seu comportamento indisciplinado", de acordo com o relatório de um investigador de assuntos internos.

Os policiais de Rochester levaram Prude sob custódia para uma avaliação de saúde mental por volta das 19h, em 22 de março, por pensamentos suicidas - cerca de oito horas antes do encontro que levou à sua morte. Mas seu irmão disse que ele ficou no hospital por apenas algumas horas. A polícia respondeu novamente depois que Joe Prude ligou para o 911 por volta das 3 da manhã para relatar que seu irmão havia deixado sua casa. /COM NYT, AFP e REUTERS 

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