Família morta em ataque torna-se rosto da causa palestina

Grande parte da cerimônia fúnebre pretendeu ser uma mensagem para a mídia e para o mundo

CIDADE DE GAZA, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h02

O suor escorria pelas barbas de três homens que seguravam o corpo de Jamal Dalu, de 7 anos, enquanto percorriam as ruas até o lugar do seu descanso final, entre disparos para o ar e gritos de "Deus é grande". Vez por outra, curvavam-se para beijar a cabeça nua da criança ou seus pés envoltos num lençol. Precisavam andar rápido para se manter na frente do corpo do pai do menino que jazia num grande caixão, enquanto milhares de pessoas se acotovelavam por toda partes.

Na segunda-feira, praticamente não se viam lágrimas no intenso, caótico e demorado funeral de Jamal e seus parentes, as 12 pessoas mortas no dia anterior, no mais sangrento ataque desde o início das recentes hostilidades entre Israel e militantes do Hamas. Em vez disso, as pessoas gritavam "Alá é o único Deus", slogans de resistência e pedidos de vingança, enquanto agitavam as bandeiras verdes do Hamas com o branco das Brigadas Al-Qassam.

Na casa destruída da família Dalu, um homem que tinha subido na pilha de escombros ergueu várias vezes o corpo de uma das quatro crianças. Na mesquita, a cerimônia fúnebre foi interrompida pelo zunido dos foguetes lançados sobre Israel de pontos próximos. No cemitério, um comandante das Brigadas Ezzedine al-Qassam dirigindo-se ao premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, advertiu: "Ainda temos muitos destes guardados; mostraremos para você, se preciso".

Grande parte da cerimônia provavelmente pretendeu ser uma mensagem para a mídia e o mundo, pois a família Dalu se tornou imediatamente o rosto da causa palestina.

Mas o tom, muito mais fundamentalista do que fúnebre, foi também um forte sinal da cultura do martírio que está impregnada neste lugar, e da insensibilidade que muitos adquiriram em relação à morte e à destruição depois de anos de conflito. "O sangue que foi derramado por sua família não será em vão", disse um ministro do Hamas aos parentes na mesquita. "Os direitos dessas crianças não serão esquecidos. Todos morreremos um dia, mas os que morreram ontem são mártires, não mortos", declarou.

A coronel Avital Leibovich, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, disse que "ainda estava averiguando" o ataque da tarde de domingo contra a casa dos Dalus, que ela definiu como um acidente. Segundo ela, o alvo era um homem "encarregado de disparar os foguetes", nas proximidades. Ela acrescentou que, nos últimos dias, foram disparados contra Israel de 200 a 300 foguetes sob seu comando, mas não soube dizer ao certo se ele morava ali perto.

A construção de dois andares destruída era o lar de 15 pessoas de três gerações. O patriarca, também chamado Jamal, tinha uma loja no mercado de Al-Zawya onde vendia sementes, açúcar, chá e outros produtos alimentícios.

Ele sobreviveu porque estava no mercado na hora em que a bomba caiu. O filho de Jamal, Mohammed, era um policial, funcionário do Hamas; vizinhos e parentes insistiram que ele não era um combatente nem líder político, embora o número de militantes presentes no enterro suscitasse dúvidas. / NYT

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