Família Pinochet é presa por desfalque

Víuva do ex-ditador, os cinco filhos e outros 17 aliados são detidos pelo suposto desvio de US$ 27 milhões

O Estadao de S.Paulo

05 de outubro de 2007 | 00h00

A Justiça chilena ordenou ontem a prisão de 23 pessoas ligadas ao ex-ditador Augusto Pinochet (que governou entre 1973 e 1990) por suposto envolvimento no desvio de fundos públicos durante o governo do ex-líder chileno. Entre os detidos estão a viúva de Pinochet, Lucía Hiriart, e os cinco filhos do casal: Augusto, Lucía, Verónica, Jacqueline e Marco Antonio. Também foram processados quatro funcionários civis de Pinochet e 13 militares - 3 deles generais da reserva.Segundo a investigação judicial, existem indícios de que os processados tiveram participação no desvio de uma quantia superior a US$ 27 milhões dos fundos reservados que ficavam sob o controle da Casa Militar, um organismo mantido por Pinochet nos últimos anos de seu regime para suas contas pessoais (leia mais ao lado). ''''A origem do dinheiro não tem justificativa razoável e tudo leva a crer que sua origem está nos fundos de despesas reservados à Presidência da República, à Casa Militar e ao Alto Comando do Exército do Chile'''', explicou o juiz responsável pelo caso, Carlos Cerda.Ao ser notificada da ordem de prisão, a viúva de Pinochet passou mal e foi internada no Hospital Militar, onde está sob custódia. As mulheres processadas foram levadas para o Centro de Orientação Feminino e os homens civis, para duas prisões em Santiago. Os militares ficarão detidos num quartel da polícia. Ontem, o advogado de Lucía entrou com pedido de habeas-corpus para sua cliente e para Marco Antonio.Para o analista chileno Robert Funk, diretor do departamento de Ciências Políticas da Universidade Diego Portales, em Santiago, a prisão dos envolvidos no esquema de corrupção de Pinochet é um passo importante para a Justiça do país. ''''Essa prisão significa que, mesmo após a morte de Pinochet, as acusações que ainda estão pendentes não foram esquecidas pelo sistema judicial'''', afirmou Funk ao Estado.O ex-ditador morreu em 10 de dezembro do ano passado, aos 91 anos, sem ter sido julgado pelos crimes de corrupção e violação de direitos humanos dos quais era acusado.O analista ressalta que a investigação foi um duro golpe para as pessoas que ainda apoiavam o ex-ditador. ''''A revelação das contas secretas no exterior fez com que muitos chilenos, até mesmo os que foram partidários da ditadura, ficassem ainda mais decepcionados com as ações do regime de Pinochet.''''O juiz Cerda retomou as investigações de corrupção contra Pinochet duas semanas atrás, após ter sido afastado do caso por mais de um ano por causa de recursos da defesa do ex-ditador, que o acusava de ser parcial. O processo foi iniciado em 2004, depois de o Senado dos EUA revelar que Pinochet chegou a ter cerca de 130 contas bancárias no exterior em seu nome e no de seus parentes e funcionários.A presidente chilena, Michelle Bachelet, afirmou ontem que a prisão dos envolvidos no caso foi uma decisão judicial.''''Ninguém no Chile pode achar que que está imune às ordens da Justiça'''', afirmou a presidente - que foi presa política durante a ditadura e cujo pai morreu depois de ser torturado na prisão meses após o golpe de 1973, liderado por Pinochet. Mais de 3 mil pessoas morreram em conseqüência da violência política durante a ditadura e outras 28 mil foram torturadas. RENATA MIRANDA, COM AGÊNCIASOS PRINCIPAIS ACUSADOS Augusto Osvaldo Pinochet Hiriart - Filho mais velho do ex-ditador, foi oficial do Exército nos anos 70, mas logo passou para a reserva. Estavam em nome dele os ''''pinocheques'''', cheques no valor de aproximadamente US$ 3 milhões pagos em 1989 pelo Exército em troca da aquisição da empresa de armamentos Valmoval, que estava em processo de falência. A investigação do escândalo por uma comissão do Congresso em 1990 foi seguida por um aquartelamento das Forças Armadas. O ato foi interpretado como uma demonstração de força do ex-ditador durante o governo de Patricio Aylwin, primeiro presidente da redemocratização. No atual processo, o filho que leva o nome de Pinochet é acusado de manter e movimentar com documentos falsos contas numeradas no exterior, nas quais estariam depositados recursos públicos desviados. Augusto Pinochet Hiriart já foi processado também por porte ilegal de armas, venda ilegal de veículos e uso de passaporte falso. É pai de Augusto Cristián Pinochet Molina, expulso do Exército depois de fazer uma defesa do regime militar durante o funeral do avô.Marco Antonio Pinochet Hiriart - Filho mais novo de Augusto Pinochet, é acusado de coordenar a formação de uma rede de empresas em nome de testas-de-ferro para ocultar fundos que teriam sido desviados durante a ditadura. Uma investigação do Senado americano identificou-o como beneficiário de uma conta aberta no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas e como proprietário de um fundo de investimentos em Santiago, no Chile.Verónica, Jacqueline e Inés Lucía Pinochet Hiriart - As três filhas de Augusto e Lucía Pinochet são consideradas cúmplices na evasão de divisas. Inés Lucía foi presa em 2006 nos Estados Unidos quando tentava movimentar uma das contas bancárias utilizando um passaporte falso. Na época, ela pediu asilo político, o que foi negado. As três respondem também pelo crime de uso de documentos falsos.Jorge Ballerino Sandford - General da reserva do Exército. Ocupou a chefia da Casa Militar entre 1981 e 1984. Manteve-se como um dos homens mais próximos de Pinochet no período de transição para a democracia. Era o candidato do ex-ditador para o vice-comando do Exército em 1993, o que não foi aceito pelo então presidente, Patricio Aylwin. No mesmo ano, participou da negociação secreta que pôs fim ao episódio do ''''boinaço'''', mobilização de militares de 1993 na frente do palácio presidencial contra a pressão por investigações sobre os ''''pinocheques''''.Guillermo Garín Aguirre - Ex-vice-comandante do Exército e porta-voz da família Pinochet. Assumiu a Casa Militar em janeiro de 1985. A Casa Militar era, na verdade, um comitê militar com orçamento próprio, que o regime manejava sem nenhum tipo controle fiscal. Garín é uma espécie de intermediário entre os seguidores de Pinochet e a família do ex-ditador.

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