Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
HANDOUT|REUTERS
HANDOUT|REUTERS

Família queria ver jihadista morto

Supostamente morto nesta quinta-feira, 18, Abaaoud recrutou o irmão de 13 anos para combater pelo EI

Andrew Higgins Kimiko de Freytas Tamura, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 06h23

Quando a família de Abdelhamid Abaaoud recebeu, no ano passado, a informação da Síria de que ele morrera em combate pelo Estado Islâmico, ficou feliz com a notícia, que considerou excelente sobre o filho rebelde que acabara desprezando. “Estamos rezando para que Abdelhamid tenha morrido de fato”, disse na época a irmã mais velha, Yasmina.

As orações da família – e as esperanças das autoridades ocidentais da área de segurança – não foram atendidas. Abaaoud, na época com 26 anos, estava na realidade voltando para a Europa para se encontrar secretamente com extremistas islâmicos determinados a espalhar o caos. Desde então, ele participou de uma série de operações terroristas que culminaram nos ataques em Paris, na sexta-feira.

“Evidentemente, não dá alegria derramar sangue. Mas, de tempos em tempos, é agradável ver o sangue dos descrentes escorrer”, declarou Abaaoud num vídeo em francês destinado ao recrutamento de militantes.

A constatação de que Abaaoud voltara à Europa levou as autoridades de segurança a empreenderem uma importante operação para interceptá-lo. Em janeiro, foi invadida uma casa destinada a abrigar militantes que ele ajudara a montar no leste da Bélgica. As autoridades belgas alardearam que a invasão havia frustrado “uma importante operação terrorista”. Mas ela falhou em seu alvo principal, Abaaoud, que então conseguiu voltar para a Síria.

Na qualidade de combatente de escalão inferior, é improvável que Abaaoud tenha se envolvido com figuras dos escalões mais altos da hierarquia do grupo militante, afirmaram especialistas na Bélgica. Mas ele tinha um bem valioso para os líderes do EI, ansiosos por levar sua luta à Europa: um grupo enorme de amigos e contatos no seu país dispostos a realizar os ataques.

Sua família não era pobre. Seu pai, Omar, era proprietário de uma loja de roupas na praça do mercado de Molenbeek, um bairro de Bruxelas, e a família vivia nas proximidades, numa casa espaçosa, embora mal conservada da Rue de l’Avenir – Rua do Futuro –, perto da delegacia local.

Apesar de suas posteriores denúncias das injustiças sofridas pelos muçulmanos na Europa, ele desfrutou de privilégios acessíveis a poucos imigrantes, como a admissão em uma escola católica exclusiva, o Collège Saint-Pierre d’Uccle, num bairro residencial de classe alta em Bruxelas.

Ele foi matriculado como aluno do primeiro ano do secundário, mas frequentou um ano. Uma assistente do diretor de Saint-Pierre, que não quis se identificar, disse que ele foi reprovado. Segundo outros, ele teria sido expulso por mau comportamento.

Então, ele acabou fazendo parte de um grupo de amigos em Molenbeek que se envolveram em vários crimes menores. Entre seus amigos estavam Ibrahim e Salah Abdeslam, dois irmãos que, como Abaaoud, moravam a poucas quadras e hoje estão no centro da investigação dos ataques de Paris.

Ibrahim Abdelslam foi um dos suicidas da sexta-feira e Salah Abdeslam, que alugou um carro em Bruxelas para transportar alguns dos terroristas dos ataques em Paris, é alvo de uma intensa caçada humana.

Abaaoud foi preso por crimes pequenos em 2010 e passou algum tempo na mesma prisão em Bruxelas onde Ibrahim Abdeslam ficou preso, segundo o porta-voz do procurador geral da Bélgica e ex-advogado de Ibrahim. Não se sabe se eles tiveram contato na prisão, mas não ficaram por lá muito tempo. Depois de serem soltos, voltaram para Molenbeek e frequentavam o barzinho sujo conhecido por ser frequentado por traficantes de droga.

Para consternação da família, que não percebera nele nenhum zelo religioso, Abaaoud, de repente, se mudou para a Síria no inicio de 2014, segundo especialistas em combatentes jihadistas, que seguem os movimentos dos militantes belgas.

Logo depois de sua chegada à Síria, onde morou por algum tempo num enorme palacete em Alepo, usado para abrigar os jihadistas de língua francesa, ele explicou sua escolha num vídeo. “Toda a minha vida vi escorrer sangue muçulmano. Peço a Deus que quebre as costas dos que se opõem a ele e os extermine”, falou.

Ele conseguiu também convencer seu irmão mais novo, Younes, que estava ainda em Molenbeek e tinha apenas 13 anos, a ir com ele para a Síria. O menino saiu da Bélgica por conta própria, sem despertar nenhuma suspeita das autoridades. O pai de Abaaoud moveu uma ação contra o filho em maio por ter recrutado Younes.

“Não aguento mais”, declarou Omar na época. “Estou tomando remédios”, afirmou, acrescentando que seu filho desonrara a família. “Ele destruiu nossas famílias. Não quero vê-lo nunca mais.” Agora, o pai mora no Marrocos e quer colocar à venda sua propriedade na Rue de l’Avenir, informou um amigo da família. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.