Saudi Press Agency/Handout via REUTERS
Saudi Press Agency/Handout via REUTERS

Família real saudita discute substituir príncipe herdeiro do trono

Pressionada pelo assassinato do jornalista Jamal Kashoggi, a família real pode tirar o príncipe Mohamed bin Salman da linha sucessória e colocar seu irmão, Khalid bin Salman

O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2018 | 19h39

RIAD - A família real saudita está considerando substituir o príncipe Mohammed bin Salman como herdeiro do trono e sucessor de seu pai, o rei Salman. A pressão e o escrutínio internacional diante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que acredita-se que tenha sido morto por ordens do próprio MBS, levaram a corte real saudita a se reunir em segredo para debater o assunto.

Segundo o jornal francês Le Figaro, uma fonte diplomática diz que o Conselho de Aliança, historicamente o órgão responsável por aprovar a ordem de sucessão ao trono, tem se reunido nos últimos três dias para debater o tema. “As reuniões estão acontecendo com a máxima discrição”, afirma a fonte dipolática do jornal. O Conselho de Aliança é composto por um delegado representando cada um dos cerca de 15 clãs da família real. 

O principal nome aventado para substituir MBS é o de seu irmão, Khalid bin Salman, de 30 anos, considerado pela maioria dos analistas “menos ambicioso e mais previsível do que MBS, de 33 anos. Seria uma quebra nas costumeiras regras sucessórias que regem o trono saudita, mas o conselho já fez isto antes. No ano passado, quando nomeou MBS como o novo príncipe herdeiro, tirando o direito de Mohammed bin Nayef, sobrinho de Salman e próximo na linhagem.

Segundo o Le Figaro, a transição não seria imediata, e que Khalid iria substituir seu irmão de maneira gradual. Khalid, que é ainda mais jovem que MbS, é considerado popular em casa e no exterior, e geralmente é visto como alguém que pode melhorar a imagem do reino no Ocidente. Ele é o embaixador da Arábia Saudita nos EUA, e foi chamado de volta a Riad na semana passada, depois do desaparecimento de Jamal Khashoggi.

Antes de se tornar um embaixador, o príncipe era conselheiro da embaixada da Arábia Saudita em Washington, bem como do Ministério da Defesa em Riad, de acordo com sua biografia no site da embaixada. Antes disso, ele serviu como piloto na força aérea do reino, pilotando caças F-15 e participando de mais de 50 missões de combate na Síria e no Iêmen.

Quando assumiu seu cargo em Washington, Marcelle M. Wahba, ex-embaixadora dos EUA nos Emirados Árabes Unidos e presidente do Arab Emirates States Institute em Washington, disse ao jornal árabe Arabia, da Arábia Saudita, que o maior desafio do príncipe Khalid “seria melhorar a imagem do reino”.

Segundo o portal Middle East Eye, especializado na cobertura do Oriente Médio, o governo dos EUA quer ter “envolvimento direto” no processo de escolha. Segundo uma fonte diplomática do site, que falou sob condição de anonimato, os “sauditas estão em pânico” por causa da crescente pressão em Riad sobre o assassinato de Khashoggi. Segundo a fonte, a visita do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, nesta semana, foi parte de um plano para que o governo Trump se envolva em discussões sobre qualquer possível mudança na linha de sucessão. O presidente dos EUA, Donald Trump, quer que Bin Salman permaneça no poder, mas Pompeo o considera “volátil e perigoso”, e queria que ele fosse substituído, diz o Middle East Eye.

Uma fonte do Ministério do Exterior do Reino Unido disse a Reuters que Simon Collins, o embaixador britânico em Riad, não se encontrou com Bin Salman desde o desaparecimento de Khashoggi, no dia 2 de outubro, porque as “autoridades sauditas continuam confusas sobre como lidar com a situação”. Nesta semana, o rei Salman enviou seu assessor mais experiente, o príncipe Khalid al-Faisal, governador de Meca, para Istambul.

Analistas e dissidentes sauditas dizem que a probabilidade de Bin Salman ser removido completamente da sucessão é “pouco provável”. Um dissidente saudita que tem laços estreitos com a família real disse ao Middle East Eye que a família “se reuniria para evitar um conflito interno”. "A família real não vai ficar do lado de ninguém. Eles vão ficar juntos por duas razões. Em primeiro lugar, a família acredita que MBS será rei. Em segundo lugar, se eles começarem um conflito interno, o país inteiro entrará em colapso e nenhum dos membros da família real quer isso", afirmou o dissidente.

Andreas Krieg, professor assistente do King's College de Londres especializado em questões de segurança do Golfo, disse que muitos em Washington previam que o irmão de Bin Salman, Khalid bin Salman, embaixador da Arábia Saudita nos EUA, seria nomeado vice-príncipe herdeiro. Mas ele disse que seria necessário um "golpe de verdade" dentro do palácio para Mohammed bin Salman ser removido da linha de sucessão. “Haverá muita conversa na família sobre como lidar com MBS, já que ele se tornou agressivo. Mas não resta ninguém na velha guarda que possa realmente desafiá-lo”, disse Krieg ao Le Figaro. “Ele criou um regime que é um pouco à prova de balas da oposição fora da família do rei Salman. Só um golpe real dentro do palácio pode se se livrar dele."

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