AFP PHOTO / ATTILA KISBENEDEK
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Família síria levou 13 meses para chegar à Alemanha

O médico Hassam Hamadeh, que teve de apelar várias vezes aos traficantes para fazer trajeto, critica falta de humanidade da Europa

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL , O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2015 | 02h00

PASSAU - Hassan Hamadeh desembarcou com sua família de um caminhão na estrada 6h15 de ontem. Não sabia onde estava. O sol começava apenas a aparecer e ele decidiu andar até uma casa que podia avistar. Do lado de dentro, uma senhora o olhava desconfiada. Mas saiu quando viu que era uma família, com uma menina de meses no colo e outro garoto pequeno. 

Quando ela perguntou o que queriam, Hamadeh apenas perguntou: “Aqui é a Alemanha?”. A resposta positiva fez a família se abraçar e apenas perguntar para que direção era a cidade. Estava concluída uma viagem de 13 meses. 

A reportagem do Estado foi um dos primeiros contatos de Hamadeh depois de cruzar a fronteira, já na estação de trem de Passau. Seu relato coincide com centenas de outros e só foi interrompido pelas lágrimas ou por seu beijo em seu filho, Mohamed, dormindo de exaustão em seus braços.

Médico em Damasco, ele decidiu que não poderia deixar sua família “à mercê de uma guerra que não vai terminar”. A primeira etapa da viagem ocorreu 13 meses atrás. “Vendi tudo o que tinha para pagar os traficantes. Fomos levados para a Turquia. Ali, ocorreria o ponto mais importante da viagem – cruzar o mar até a Grécia”, explicou.

A travessia era de apenas 9 quilômetros e a família de 8 pessoas não achava que poderia ser um problema. “Mas, quando chegamos em plena noite e os traficantes nos disseram para ajudar a inflar o bote, entendi que era um grande risco. Tentei explicar que eu não sabia nadar e aquilo não era adequado para alguém que pagou 5 mil euros pela família”. A resposta foi clara: é isso ou nada, nem mesmo o dinheiro de volta. 

“Nossa sorte é que o mar estava calmo e o céu estrelado. Logo chegamos e eu achava que a viagem estava concluída. Mas estava enganado. Seguimos dias depois para Atenas e, uma vez mais, tive de pagar traficantes para nos levar até a Macedônia. Mas a fronteira estava fechada, perdemos o dinheiro e não conseguimos entrar”, contou.

Dias depois, estava na Sérvia e, finalmente, na Hungria. “Pela segunda vez, achei que o pior já tinha passado. Mas aí descobri que a humanidade perdeu o sentido do absurdo. Os húngaros nos trataram como cachorros.” 

Budapeste. Ele foi uma das centenas de pessoas que compraram bilhetes para o trem entre Budapeste e Viena, por mais de 100 euros, e foram proibidos de embarcar na capital húngara. “Nunca nos devolveram o dinheiro.” A única alternativa era apelar mais uma vez aos traficantes. O que Hamadeh não imaginava era que o preço havia subido muito depois de o governo húngaro impor a proibição. 

“Nas redondezas da estação de trem, os homens que organizam a viagem pediram 1,2 mil euros pela família, quando cobravam apenas 500 euros no dia anterior”, disse. “Combinei que aceitaria pagar, mas eles teriam de me levar até Munique. Para minha surpresa, recebemos ordem de sair do caminhão sem qualquer explicação, sem saber onde estávamos. Quando encontrei a primeira pessoa, minhas primeiras palavras foram: “Aqui é a Alemanha?”

O refugiado não poupou críticas aos governos europeus. “As autoridades estão usando os refugiados para barganhas políticas. Isso é uma vergonha para a Europa. Onde está a humanidade da Europa?”

Sem opções, os refugiados são colocados em ônibus especiais da polícia que os levam para os centros que ainda contam com lugar vago. A reportagem entrou num desses ônibus, que tinha a cidade de Munique como destino. Um jovem de 21 anos sentado na primeira fila, Khaled Koudiuime, assim que percebeu que se tratava de um repórter, se aproximou, entregou um papel com um endereço de e-mail e pediu um favor. “Preciso mandar um e-mail para o meu pai, em Damasco. Esse é o endereço. Apenas agradeça a ele por ter feito eu nascer de novo”.

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