Famílias afegãs querem reconstruir a vida no Brasil

Três famílias refugiadas do Afeganistão chegaram hoje ao Brasil com a esperança de reconstruir a vida, esquecer a fome e as tragédias de seus país. As treze pessoas - três casais e seis crianças - fugiram primeiro para a Índia. De lá, foram enviadas para São Paulo e, depois, iriam para Porto Alegre, onde haveria moradia e empregos a sua espera. "Antes da invasão (da ex-União Soviética), a vida era boa no Afeganistão, mas depois a vida ficou difícil e faltava até comida", disse hoje o professor voluntário e comerciante Abdul Mugim Atbai, de 36 anos. "No início, se não fossem os russos, muitos de nós iríamos morrer. Mas, depois, ficou muito ruim com eles." Segundo Atbai, a perspectiva de vida na Índia era também muito difícil. O secretário Nacional de Justiça, João Benedicto de Azevedo Marques, que receberia o grupo, não apareceu porque, segundo o seu chefe de gabinete, Claudio Tucci, ele estava com muita febre. No último dia 12, um primeiro grupo de refugiados afegãos que o Brasil prometeu chegou a Porto Alegre. A vinda de afegãos para a capital gaúcha foi viabilizado por um convênio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão vinculado ao ministério da Justiça, e com a Central de Orientação e Encaminhamento (Cenoe), a ONG que vai cuidar do atendimento local e da integração das famílias à comunidade. Apesar de pouco acostumados com o povo brasileiro e de estranharem a cultura local (principalmente as saias e calças jeans apertadas das mulheres, que eram observadas pelas afegãs com certa curiosidade e cautela), o grupo muçulmano disse que irá se acostumar rapidamente. Segundo a dona-de-casa Nabila Khazizadah, o sofrimento que passou em seu país fará com que se adapte rápido. "Vou estranhar um pouco a cultura", disse. Quando a reportagem questionou qual a lembrança que mais lhe agrada do Afeganistão, ela foi direta: "Não tenho nada de bom para comentar sobre o Afeganistão", disse secamente. Para o grupo, o Taleban usou a religião para conseguir o poder no país e disseminar a opressão contra o povo. "O Talebam foi uma praga para o Afeganistão. Eles usaram a religião para conseguir os seus meios", disse Atbai, que fugiu de lá há dez anos, na época da invasão soviética. Todos os integrantes do grupo não fazem parte do passado recente do país que, após os atentados de 11 setembro, foi considerado pelos EUA o centro nevrálgico do "eixo do mal". "O povo afegão é bom, mas isso não é mostrado" , afirmou o músico Abdul Vaseh Nabizada, de 34 anos, que fugiu há seis anos do Afeganistão e acompanhava, na Índia, os noticiários da BBC de Londres com a esperança de um dia virar jornalista. "Queria contribuir para a sociedade, contar as histórias do meu país, contar o que vi e poder voltar a Cabul e ver minhas primas irmãs e mãe que ainda estão lá." O mais tímido da turma era o pequeno Omar Atbai, de 10 anos. Ele não se lembra mais de como era o Afeganistão, terra onde nasceu, mas disse que quer estudar no Brasil e esquecer tudo o que sua família passou.

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