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Famílias de vítimas de ditaduras do Cone Sul pedem verdade sobre venenos

No Uruguai, o senador Heber; no Chile, o ex-presidente Frei: ambos vivem para esclarecer a morte dos pais, um capítulo das ditaduras

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h05

Montevidéu, setembro de 1978. Cecilia quis acompanhar o prato de comida com um cálice de vinho branco, enviado como um presente para seu marido, o senador uruguaio Mario Heber. Não conseguiu dar dois goles. Passou mal no primeiro e, em quinze minutos, estava morta.

Santiago, janeiro de 1982. O ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva, internado numa clínica renomada, pediu papel e escreveu com letra trêmula: "Levem-me daqui o quanto antes". Passou o bilhete para a neta. Não chegou a ter alta. Seu quadro evoluiu para uma septicemia, que o levou à morte.

Passados todos esses anos, as famílias Heber e Frei continuam remontando, em seus respectivos países, a trama em torno de dois casos já comprovados de homicídio por envenenamento. Querem punição aos culpados. Em entrevista exclusiva ao Estado, dias atrás, Luís Alberto Heber, hoje senador pelo Partido Nacional, que tinha 20 anos quando a mãe caiu fulminada, confessou: "Ainda é duro tocar nisso. Mas é a chance de dados novos virem à tona".

Falando de seu gabinete no Senado chileno, o também ex-presidente Eduardo Frei, filho de Frei Montalva e, como ele, democrata-cristão, manifestou-se ao jornal: "É preciso seguir investigando. Incluindo os elos que envolvem o Brasil na produção de toxinas que chegaram ao meu país, naqueles anos".

Os casos Heber e Frei, com décadas de tramitação nos Judiciários uruguaio e chileno, inscrevem-se num dos períodos mais sombrios das ditaduras sul-americanas: já denunciadas por prisões, mortes, desaparecimentos, atentados e a prática constante da tortura - sem falar na supressão das garantias democráticas, que afrontava sociedades como um todo - essas ditaduras optaram em meados dos anos 70 pelas sutilezas do "método científico", algo que já vinham ensaiando: graças ao empenho de bioquímicos e médicos a seu serviço, e por sua vez assessoradas pela CIA, passam a empregar substâncias tóxicas para eliminar opositores. Particularmente líderes políticos que pudessem encarnar o risco de uma abertura política.

Perícias já concluíram: Cecilia Fontana de Heber tombou aos 49 anos sob efeito de Fosdrin, um pesticida organofosforado introduzido na garrafa de vinho através da rolha, por uma seringa. Frei Montalva morreu aos 71, vítima de inoculação de um composto no qual identificaram-se traços de tálio e gás mostarda. Hoje análises estão em curso para tentar saber se o poeta e diplomata Pablo Neruda morreu envenenado em 1973, coincidentemente na mesma clínica por onde passaria Frei Montalva mais tarde. E, no Brasil, o corpo do presidente deposto João Goulart deve ser exumado para investigar o que há muito se cogita: terá morrido no exílio, aos 57 anos, depois de tomar remédios adulterados?

O caso Heber tem tanto de rocambolesco, quanto de macabro. Nos idos de 1978, já contabilizando pesadas baixas na esquerda, a oposição uruguaia avançava por meio do Partido Nacional, a agremiação dos blancos, que operava com direção clandestina. É também o tempo em que uma sucessão de mortes de líderes políticos, entre eles os parlamentares uruguaios Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruíz, dois amigos de Jango sequestrados e eliminados na Argentina, deixava entrever os tentáculos da Operação Condor. Jango, ele próprio, teria entrado na lista dos marcados para morrer, assim como o economista e diplomata chileno Orlando Letelier, assassinado em setembro de 1976, quando seu carro explodiu em Washington.

Cartão. É nesse contexto de mortes anunciadas que os vinhos chegaram à Rua Echevarriarza, número 3374, bairro Pocitos, em Montevidéu, residência do líder blanco Luís Alberto Lacalle, que viria presidir o país muitos anos depois. Acompanhavam as três garrafas, embrulhadas em papel azul, cartões com os seguintes dizeres: "Na quinta-feira, dia 31, ao meio-dia, brindemos pela Pátria em sua nova etapa". Assinado: M.D.N. Sigla que não remetia a nada. Uma das garrafas era para Lacalle, as outras para dois membros do partido - Carlos Julio Pereyra e Mario Heber. "Naquele momento, lendo o cartão, achei que se tratava de algo até positivo", conta Lacalle, ao Estado. "Poderia ser uma articulação para derrubar a ditadura". Chegou a se servir do vinho, mas sua mulher, Julia, convenceu-o a não beber de uma garrafa de procedência duvidosa. "Daí virei minha taça na pia. Foi a divina providência." Contudo, o casal já havia se encarregado de fazer chegar as outras garrafas a seus destinatários. Pereyra nem chegou a abrir a dele, diante da notícia estarrecedora da morte de Cecilia.

"Minha mãe mal tocou os lábios na bebida e já começou a passar mal. Dizia que estava queimando, não respirava... nossa empregada trouxe um copo de leite, mas ela não resistiu", rememora o senador Heber. A autópsia em Cecilia e a perícia do vinho acusaram o veneno (presente em todas as garrafas), em dosagem suficientemente forte para travar o sistema nervoso central. Quem teria feito aquilo? Há 35 anos esta é a pergunta. Lacalle, de vítima, chegou a ser tomado como suspeito. Sua empregada, à época, idem. Foi interrogada duramente. No cipoal das falsas pistas, o mistério arrastou-se por anos na Justiça. E ainda se arrasta.

Uma reviravolta no caso ocorre em 2002, quando o jornalista uruguaio Roger Rodríguez ouve, pela primeira vez, Mario Neira Barreiro, acusado de assalto a banco e preso no Rio Grande do Sul. Barreiro, ex-agente do serviço secreto no Uruguai, conta não só que monitorava Jango, mas que o suposto algoz do presidente brasileiro, o químico Carlos Miles, teria sido também o responsável pelo veneno aos líderes do Partido Nacional. Em 2005, sabendo de pessoas que possivelmente poderiam testemunhar, Pereyra, um dos destinatários do vinho, decide reabrir a investigação. Seu advogado, Javier Barrios Bove, deu novo impulso ao caso.

Sem resposta. "Em 1978, havia na embaixada americana em Montevidéu diplomatas alinhados ao então presidente Jimmy Carter, contrários às violações. Pensei: algum relatório devem ter mandado aos EUA. Peticionei a desclassificação de documentos sobre Cecilia e consegui respostas", conta Barrios Bove. Boas e más. Documentos foram liberados pelo Departamento de Estado e pela CIA, algo como 20 páginas. Mas com nomes e até parágrafos inteiros encobertos por tarjas. Diz a CIA: "Em resposta a seu pedido fizemos exaustiva busca em nossos registros, encontramos material que entendemos deva permanecer secreto e, por essa razão, negamos sua divulgação".

Miles, o manipulador de venenos, despencou do primeiro andar de um prédio em Buenos Aires, anos depois. Para Neira Barreiro, foi queima de arquivo.

Três perícias caligráficas foram realizadas com uma mulher suspeita de ter escrito o cartão que acompanhava os vinhos - a ex-policial María Iclea Lemos. Uma perícia feita ao longo de seis meses garante que ela escreveu os cartões. Outra, feita em 24 horas, nega. E a terceira, vinda da Espanha, diz que não se pode comparar uma caligrafia de hoje com a de 30 anos atrás. María segue apelando. E o senador Heber, afirmando que a letra é dela.

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