Kena Betancur/AFP
Kena Betancur/AFP

Famílias pobres de Nova York vivem dilema com volta às aulas presenciais

Retorno traz risco de contágio, mas manter filhos em casa impede pais de trabalhar

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 04h00

Enviar os filhos para a escola sob o risco de contágio de coronavírus, quando sequer têm plano de saúde? Ou mantê-los em casa, tendo aulas remotamente, embora isso signifique atraso escolar e impeça os pais de trabalhar?

Esse é o dilema das famílias mais carentes de Nova York, o maior distrito escolar do país, com 1,1 milhão de alunos. A metrópole é a única grande cidade americana que oferecerá aulas presenciais de uma a três vezes por semana a partir de 21 de setembro. A aposta arriscada é considerada fundamental para a recuperação econômica da Big Apple.

María R., uma empregada doméstica mexicana de 35 anos que mora no bairro do Queens e mantém seu sobrenome anônimo porque vive em situação ilegal nos Estados Unidos, decidiu que enviará seus filhos de 7 e 14 anos para as aulas, embora ainda tenha muitas perguntas.

"As escolas estão equipadas para receber as crianças com segurança? Em que dias elas vão? Como vou chegar ao trabalho? Eles falam sobre as aulas ao ar livre. O que vai acontecer quando chover, quando estiver frio?", questiona Maria durante uma distribuição semanal de comida gratuita no bairro.

A lacuna educacional

As famílias mais pobres, geralmente negras e imigrantes, não têm dinheiro para contratar um tutor para ajudar as crianças com o aprendizado on-line em casa, como muitas famílias ricas estão fazendo. E, como María, os pais que não perderam o emprego, devido à pandemia, em geral precisam sair de casa para trabalhar.

Elas também não têm um bom acesso à Internet e, às vezes, os pais não podem ajudar seus filhos com as aulas on-line e com os deveres de casa porque não têm a tecnologia necessária, não sabem inglês, ou não concluíram os estudos.

O filho mais velho, de 14 anos, foi quem mais ajudou o menor quando a escola fechou. Sem ele, teria sido impossível, afirma María.

Nos EUA, o país mais afetado pela pandemia no mundo em termos absolutos, com mais de 184 mil mortes e seis milhões de infecções, a questão se politizou neste ano eleitoral, desde que o presidente Donald Trump pediu a reabertura de todas as escolas, independentemente da taxa de contágio.

Estados governados por republicanos, como Mississippi, Geórgia, Tennessee e Indiana, fizeram avanços nesse sentido em agosto, mas surgiram surtos de covid-19, e alguns estabelecimentos tiveram de impor uma quarentena, ou fechar. Outras grandes cidades, como Chicago, Houston, Los Angeles, Filadélfia e Miami, optaram pelo modelo virtual.

Nova York é a única grande cidade do país que oferece um modelo híbrido desde que a taxa de contágio seja inferior a 3%. Atualmente, está em 0,9%, muito abaixo da média nacional.

Em acordo com o sindicato dos professores, que exigia mais medidas de segurança e ameaçava entrar em greve, a prefeitura adiou o início das aulas presenciais de 10 para 21 de setembro.

"Prefiro que perca o ano"

Muitos pais de baixa renda de Nova York, que sofreram desproporcionalmente com a pandemia, têm mais doenças crônicas do que o restante da população e muitas vezes não têm seguro de saúde, ainda não querem mandar seus filhos para a escola.

Mais de 365 mil alunos de escolas públicas de Nova York (37%) optaram por ter apenas aulas on-line, de acordo com a prefeitura.

"Sei que em casa eles não vão aprender do mesmo jeito, mas prefiro que percam o ano e tenham saúde. Em primeiro lugar está a saúde dos meus filhos", disse Marisa Machado, de 40 anos, uma cozinheira atualmente desempregada e mãe solteira do Brooklyn com três filhos em idade escolar.

O prefeito de Nova York e especialistas garantem que é essencial que as crianças de baixa renda frequentem a escola pessoalmente para evitar o aumento da lacuna educacional em relação a alunos brancos e de alta renda.

"Um ano de perda educacional se traduz diretamente em rendimentos mais baixos" como adulto, e os mais afetados são os alunos mais pobres, disse à Agência France Press Naomi Bardach, professora de pediatria e políticas de saúde pública da Universidade da Califórnia, em San Francisco. "Está documentado que isso os afeta negativamente, de maneira financeira e também do ponto de vista de sua saúde", explicou.

Ainda assim, nas comunidades mais afetadas pelo vírus, o medo permanece. "Temos medo, as crianças também. Temos que sobreviver", desabafa Miguel Hernández, um mexicano desempregado casado com uma agente penitenciária polonesa que ainda não quer mandar seus três filhos para o colégio. / AFP

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