Famílias preparam boas-vindas para reféns

Operação para libertar cativos das Farc começou ontem em Manaus

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Os presentes foram finalmente levados para a sala - são mais de 20, um para cada Natal, aniversário e dia dos pais que o ex-deputado Sigifredo López passou longe de casa, em cativeiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Após sete anos de uma espera angustiante, sua família e a de outro refém da guerrilha, o ex-governador do Departamento de Meta, Alan Jara, se preparam para recebê-los na próxima semana, quando uma operação que conta com o apoio logístico do Exército brasileiro deve resgatá-los da selva colombiana.   Conheça cotidiano das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc"Será o fim desses anos de espera em que o tempo parou para nós", disse ao Estado Patrícia Nieto, mulher de López. Ela faz questão de agradecer ao Brasil por ajudar na operação, que começa amanhã com o resgate de três policiais e um militar cujos nomes não foram divulgados. Jara deve ser solto na segunda-feira e López, na quarta. "Preparei uma festa de Natal para receber meu marido com meus dois filhos e minha sogra, Nelly, porque neste fim de ano decidimos só comemorar quando ele estivesse conosco", diz Nieto. "Todos os presentes antigos já estão ao pé da árvore."López foi sequestrado em 2002 com outros 11 deputados num ousado ataque das Farc contra a Assembleia Legislativa de Valle del Cauca. Após explodir uma bomba no edifício, em Cali, guerrilheiros fizeram-se passar por peritos antiexplosivos e aproveitaram a confusão para fazer os deputados subir em duas vans. Em julho de 2007, um comunicado das Farc pôs um ponto final trágico na espera dos parentes dos outros 11 colegas de López. Segundo a guerrilha, eles morreram "no fogo cruzado" quando um grupo militar não identificado atacou o acampamento onde estavam, mas há indícios de que foram executados. López só se salvou porque não estava com o grupo no momento do conflito. "Foi um choque. Só acreditei que ele estava vivo meses depois, quando recebi fotos e cartas suas", lembra Patrícia, que convidou os parentes dos 11 deputados para receber seu marido. Alan Jara também esteve perto da morte. Segundo a senadora Piedad Córdoba, que lidera a comissão de mediadores colombianos que participam da operação de resgate, ele quase foi atingido por disparos há quatro dias. "Estamos ansiosos para que tudo acabe logo e ele volte para casa em segurança", diz Claudia Rugeles, mulher do ex-governador. Jara foi sequestrado em agosto de 2001, quando estava num carro da ONU. O filho do casal, Alan Felipe, de 15 anos, cresceu sem ver o pai e se comunicando com ele por meio de programas de rádio em que os parentes dos sequestrados enviam mensagens para a selva. Preocupado com sua educação, Jara enviou em uma carta que conseguiu fazer chegar à família por reféns libertados uma lista de livros "bem grossos" que o filho devia ler. "Alguns são bem densos - A Peste (de Albert Camus) ou O Velho e o Mar (de Ernest Hemingway) -, mas meu filho se esforçou bastante porque queria ler todos antes de o pai chegar", diz Rugeles. "Ele ficava intrigado, imaginando qual a mensagem que Alan queria que ele captasse em cada um dos livros." As Farc prometeram entregar os seis reféns em dezembro. A operação para o resgate começou ontem, com a saída de dois helicópteros de Manaus levando cinco militares brasileiros, quatro mediadores colombianos e 3 funcionários da Cruz Vermelha Internacional. A comitiva deveria passar a noite em São Gabriel da Cachoeira (ainda no Brasil) e sair hoje para Villavicenzio, capital do Departamento de Meta. É de lá que os helicópteros partirão no domingo para os resgates.

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