Famílias procuram retomar a rotina

Um mês de tristeza, lembrança, confusão e dor. É assim que as famílias das vítimas do World Trade Center têm passado as últimas quatro semanas, desde a manhã do atentado. Poucas usam verbos no passado quando se referem aos desaparecidos. E apesar do tempo, algumas ainda têm esperança de encontrar seus familiares vivos e "acordar" do que mais parece um pesadelo sem fim. A brasileira Heloíza Asaro, mãe de seis filhos, ainda não teve notícias do seu marido, Carl, um bombeiro norte-americano que trabalhava na Divisão 3 - Batalhão 9, do Corpo de Bombeiros de Nova York. Sete bombeiros daquela divisão estão desaparecidos. De acordo com Heloíza, seus filhos, com idades entre 7 e 13 anos, não querem conversar sobre a possibilidade de o pai não voltar para casa. "O mais novo sai correndo quando ouve um barulho de carro e grita ´papai chegou!´, e os gêmeos (de 13 anos) dizem que ele está perdido e que perdido não significa morto", contou. Agora, o maior desafio da família Asaro é retomar a rotina. Com a ajuda de vizinhos e amigos, Heloíza tem incentivado as crianças a voltarem para a escola e serem fortes para "deixar o pai orgulhoso". Nesta segunda-feira, a família teve sua segunda sessão com uma terapeuta familiar. "Mas as crianças não falam nada", disse Heloíza. A brasileira recebeu auxílio financeiro do Corpo de Bombeiros e tem procurado manter-se forte para amparar seus filhos. "Se eu parar para pensar, entro em crise", desabafou. Como consolo, a família tenta lembrar de Carl com alegria e música, pela qual ele era apaixonado. Para a missa em memória de Carl, que está sendo planejada para o dia 26, Heloíza e os filhos estão preparando uma montagem de fotos da família e uma caixa de guitarra, que será usada no lugar do caixão. Heloíza tenta ainda conseguir permissão para trazer seu filho mais velho, de 20 anos, para Nova York para participar do memorial. O rapaz, que é professor de inglês em São Paulo, foi deportado no ano passado por problemas com a lei norte-americana e está proibido de entrar nos Estados Unidos por cinco anos. Britney Lopez, de 9 anos, é outra criança tentando lidar com a dor de perder um pai. Danny, de 39 anos, era funcionário da Carr Futures e trabalhava no 78º andar do World Trade Center há oito anos. Desde o atentado, Britney não consegue falar sobre o que está sentindo. "Ela se tranca no quarto, liga o som alto e não quer conversar", contou sua tia Evelyn. Segundo Evelyn, a viúva Liz, também "tem seus momentos". "Às vezes ela consegue passar o dia bem, mas hoje ela me ligou chorando dizendo que não sabia como ia continuar vivendo sem Danny", disse. O aposentado Reuben Schafer, de 87 anos, passou a tarde de domingo marchando com milhares de manifestantes pelas ruas de Manhattan. Em luto depois de perder seu neto Gregory Rodriguez, funcionário da Cantor & Fitzgerald, Schafer fez de questão de ir às ruas para passar a sua mensagem de paz. "Nossa perda é imensa", afirmou. "Mas não admitimos que usem o nome do meu neto para derramar mais sangue. Vingança só vai resultar na perda da vida de mais filhos, filhas e pais." Leia o especial

Agencia Estado,

08 Outubro 2001 | 21h43

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