Leo La Valle/Efe-29/10/2010
Leo La Valle/Efe-29/10/2010

Fantasma de Kirchner atuará em 2011

Ex-presidente e a comoção causada por sua morte, na quarta-feira, devem exercer influência na estratégia para a eleição de outubro

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

O ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007) morreu na quarta-feira e foi enterrado na sexta, depois de um funeral que reuniu dezenas de milhares de pessoas. Mas a trajetória do kirchnerismo não será interrompida e ele deve "voltar" a interferir no cenário político.

"Kirchner já ganhou seu espaço na cultura necromaníaca nacional", diz Claudio Negrete, autor de Necromania: História de Uma Paixão Argentina. "Ele acaba de entrar para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo. Líderes mortos, carregando a saudade pelo passado, voltarão com força na campanha eleitoral do ano que vem". A súbita morte de Kirchner, aos 60 anos, e o choque que ela causou podem impulsionar a candidatura de sua mulher, a presidente Cristina Kirchner, à reeleição em outubro do ano que vem.

Negrete diz que "o ex-presidente terá direito a santuários, homenagens permanentes, grupos políticos que ostentarão seu nome e continuará liderando atos políticos e marchas".

O historiador Daniel Balmaceda, autor de Histórias Insólitas da História Argentina, concorda. "Os argentinos costumam ser muito dedicados à necromania, à veneração e utilização política dos mortos", disse ao Estado.

"Esse é um costume iniciado no século 19, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que iniciou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. A data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral, 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante. No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira", conta o historiador.

Como se estivesse vivo, as frases do presidente Juan Domingo Perón são citadas diariamente pelos políticos argentinos. Peronistas neoliberais e peronistas esquerdistas usam as mesmas frases - com diferentes interpretações - para justificar medidas políticas. Além disso, a imagem de Perón está presente em comícios e nos cartazes eleitorais, como se o próprio general, morto em 1974, fosse o candidato.

O uso político dos funerais, embora tenha tido mais destaque entre os integrantes do Partido Justicialista (peronista), também foi aplicado por outros partidos políticos argentinos.

Balmaceda destaca que o funeral do ex-presidente Raúl Alfonsín, que no ano passado mobilizou mais de 180 mil pessoas (o maior funeral desde a volta da democracia) serviu para resgatar a imagem do ex-presidente, além da popularidade de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), que aproveitou a ocasião para superar suas divergências internas. O funeral também lançou seu filho, Ricardo, no cenário político. De quase desconhecido, virou um dos principais presidenciáveis para 2011.

Mãos e tapas. Numa manhã de julho de 1987, o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o mausoléu onde estava enterrado Perón tinha sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do peronismo jazia em seu uniforme de gala. Mas as mãos de Perón não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também se ignora o autor da profanação.

Mas, de 1987 para cá, Perón não descansou em paz. Em 2006, líderes peronistas decidiram transferi-lo para um novo e grande mausoléu em San Vicente, na Grande Buenos Aires.

Em 17 de outubro - a data máxima peronista - o corpo foi removido da Chacarita. Milhares de velhos militantes acotovelaram-se para, pela segunda vez, dar adeus a Perón. Mas, sete horas depois o funeral terminava abruptamente. Ao chegar a San Vicente, grupos sindicalistas rivais disputaram a honra de levar o caixão com um violento tiroteio. Às pressas, a guarda conseguiu colocar o caixão no mausoléu.

Ao longo dos últimos 150 anos, os governos ocuparam-se em trazer de volta à Argentina os restos de ilustres exilados. Um dos casos mais polêmicos ocorreu em 1990, quando o então presidente Carlos Menem decidiu trazer o corpo do ditador Juan Manuel de Rosas, que havia deixado o país em 1852.

Tirano para uns, grande nacionalista para outros, mesmo morto 113 anos antes, sua figura causou debates na TV, nos quais historiadores de lados opostos chegaram a trocar socos.

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