EFE/PRENSA MIRAFLORES
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FAO alerta que economia da Venezuela pode entrar em colapso em 2018

País chegou a ser elogiado pelo combate à desnutrição, mas crise reverteu o cenário

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2018 | 16h47

GENEBRA - Cinco anos depois de a FAO premiar o governo de Nicolás Maduro pelo combate contra a desnutrição, a Venezuela é considerada hoje como um dos locais de maior risco no mundo em termos de abastecimento. Um informe produzido pela entidade liderada pelo brasileiro José Graziano da Silva, ex-ministro e artífice do Fome Zero, alerta que a economia venezuelana pode entrar em "colapso" em 2018 e que, portanto, os problemas de abastecimento devem perdurar.

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Já em seu relatório de 2016, a Venezuela passou a fazer parte do radar da FAO, diante dos sinais claros de escassez de alimentos. Mas, no atual informe que apresenta a situação da fome no mundo em 2017, o alerta é claro de uma crise instalada. 

"A segurança alimentar é também uma preocupação na Eritreia, Mianmar, República Democrática da Coreia e Venezuela", indica o documento que mapeia as principais crises de abastecimento no planeta. Mas a FAO alerta que, diante da falta de dados sobre a situação nesses locais, "nenhuma estimativa sobre o número de pessoas que passam fome nesses países pode ser feita". Os dados, tradicionalmente, são fornecidos pelo governo, que tem se recusado a compartilhar informações sobre a real situação do país. 

A situação do país sul-americano ainda não seria a mesma de Iemen ou Síria. No informe, a FAO alerta para a existência de 124 milhões de pessoas que enfrentam níveis elevados de insegurança alimentar pelo mundo. 

Ainda assim, a FAO não deixa dúvidas de que a crise econômica tem sido o principal motivo da fome na Venezuela. "A situação econômica e política na Venezuela se deteriorou em 2017, minando o abastecimento de serviços básicos e afetando de forma severa a segurança alimentar e saúde", reconheceu a FAO. "O risco de um calote sobre a dívida externa, o impasse político e a insegurança provavelmente vão continuar em 2018 a gerar deslocados e aumentar as necessidades por alimentos e saúde", indicou a entidade.

Colapso

 As previsões da FAO não são otimistas. "As atuais dificuldades em repagar a dívida podem levar a sanções econômicas mais duras e levar a um calote completo, o que poderia levar a economia ao colapso", alertou. "Os desafios econômicos devem continuar a limitar a capacidade do governo de fornecer serviços básicos", reconheceu a entidade. 

Outra preocupação da FAO se refere aos refugiados e imigrantes venezuelanos na região. "A segurança alimentar dos venezuelanos que migram para a Colômbia, Aruba e Curaçao deve ser monitorado", defende. "A situação em La Guajira, na Colômbia, está se tornando complexa diante da chegada de venezuelanos ao longo dos últimos dois anos, o que está colocando pressão sobre a disponibilidade e acesso a alimentos", apontou. 

Se a Venezuela volta ao radar internacional da fome, a constatação das entidades é de que dados confiáveis sobre a crise passaram a ser de difícil acesso. No mês pasado, o governo de Caracas anunciou na ONU que "não existe crise humanitária" no país. 

Ao Estado, um grupo de diplomatas ainda ironizou os alertas sobre a fome, apontando que muitos dos representantes do país na missão diante da ONU estavam "gordos". 

No sistema de organismos que fazem parte da ONU, a falta de dados sobre a Venezuela se transformou em um problema crônico. No site da Organização Panamericana de Saúde, por exemplo, as últimas cifras sobre a mortalidade na Venezuela são de 2013. 

A falta de dados sobre a Venezuela chegou a levar o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Al Hussein, a questionar : "o que é que vocês estão escondendo ?"

Tanto na FAO como em outras entidades da ONU, os raros dados são obtidos por meio de entidades regionais ou ongs. 

Um estudo realizado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), por exemplo, indicou que entre cinco a seis crianças morreram por semana na Venezuela por falta de comida em 2017. Ao menos 33% da população infantil apresentou atraso no crescimento. Segundo o presidente da CIDH, Francisco Eguiguren, em média 4,5 milhões de venezuelanos estariam se alimentando uma vez ao dia ou a cada dois dias.

Entidades como a Caritas, Oxfam e outras organizações de cunho humanitário também destacam a realidade da fome no país.


 

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