Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times

The Economist: Farc ainda são problema na Colômbia, 5 anos depois de acordo de paz

Baderna governamental e caos político encorajam a ilegalidade de dissidentes em outras milícias

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2021 | 05h00

Há duas maneiras de ganhar a vida dignamente no Bajo Cauca, a região mais pobre do Departamento de Antioquia, no noroeste da Colômbia. Ambas são criminosas. A primeira, a mineração ilegal, ocorre à vista de todos no Rio Nechí, no extremo leste da região. Incontáveis embarcações precárias dragam o leito do rio em busca de ouro e despejam montanhas de sedimento em suas margens. 

A segunda maneira, plantar coca, a folha usada para a fabricação da cocaína, não é tão visível. Os arbustos de coca são cultivados a alguns quilômetros do Rio Nechí, próximo a trechos de floresta que sobreviveram ao desmatamento. O Bajo Cauca tem mais de 9 mil hectares cobertos por campos de coca, que ajudam o Departamento de Antioquia a ser o quarto maior produtor de cocaína na Colômbia. Nacionalmente, a Colômbia produz dois terços da cocaína consumida no mundo. 

Ambas as economias ilegais foram levadas à região por grupos que, por fim, formaram as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), uma aliança de grupos paramilitares de direita fundada no início dos anos 1980 por pecuaristas, chefões da droga e outros membros da elite regional.

Eles combatiam as guerrilhas marxistas, mais notavelmente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), frequentemente com o apoio implícito de comandantes militares locais. Eles também plantavam vastos campos de coca e montavam seus próprios empreendimentos de mineração. (Traficar cocaína era uma atividade lucrativa também para as Farc). 

As AUC se desmantelaram oficialmente nos anos 2000. As Farc, por sua parte, assinaram um acordo de paz com o governo em 2016. Mesmo assim, muitas regiões da Colômbia ainda são atormentadas pelo conflito, fomentado pelas pessoas que assumiram os antigos grupos armados e por novos movimentos.

Cerca de 14% dos combatentes desmobilizados das AUC - cerca de 5 mil pessoas - juntaram-se a mais de uma dezena de grupos “neoparamilitares”. Outros 5,2 mil combatentes juntaram-se aos “dissidentes”, os grupos armados fundados por ex-integrantes das Farc que rejeitaram o acordo de paz. Nenhum desses grupos sucessores promove alguma ideologia. 

A jornada da Colômbia para se tornar um país pacífico não poderia ser fácil. A guerra envolvendo o governo, grupos paramilitares e as Farc foi o mais duradouro conflito da história do Hemisfério Ocidental. Ao longo de 52 anos, mais de 200 mil pessoas foram mortas, em sua grande maioria, civis. Cerca de 7 milhões de habitantes do país sofreram deslocamentos forçados. O pacto firmado pelo governo colombiano e as Farc, em 24 de novembro de 2016, foi a quarta tentativa de alcançar a paz e exigiu quatro anos de árdua negociação. 

O acordo também foi incrivelmente ambicioso. Incluiu projetos de desenvolvimento rural em larga escala e um programa para compensar agricultores de coca que substituíssem sua produção. Um diplomata comparou o acordo a um Plano Marshall colombiano, mas nem de perto com o mesmo montante por trás. 

Muito progresso foi alcançado. O índice de violência no país é hoje mais baixo do que no auge do conflito. Muitos ex-membros das Farc ainda vivem em acampamentos da guerrilha ou suas proximidades, regiões onde funcionam programas de reintegração à vida civil com variados graus de sucesso.

Em janeiro deste ano, o tribunal do Juizado Especial para a Paz (JEP), estabelecido quatro anos antes, tomou sua primeira decisão, indiciando oito ex-líderes das Farc por crimes de guerra e crimes contra a humanidade - entre eles, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, o mais graduado comandante do grupo guerrilheiro vivo. (Eles não serão levados diante da corte porque deram confissões detalhadas e reconheceram sua responsabilidade, como parte do sistema “transicional” de Justiça sob as determinações do acordo de paz, e atualmente aguardam a sentença do JEP). 

Processo de paz na Colômbia empacou

Mas em outros aspectos o progresso parece ter empacado. Em 2020, 76 “massacres” ocorreram na Colômbia, de acordo com o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o maior número desde 2014. (Um massacre é definido pelo assassinato de pelo menos 3 civis na mesma ocorrência). Desde 2016, cerca de 1,2 mil ativistas defensores de variadas causas foram mortos no país. O número de deslocamentos em massa também está elevado, ao nível mais alto desde que o acordo de paz foi assinado.

E apesar de o acordo de paz ter objetivo de coibir a produção de coca, a Colômbia está produzindo mais cocaína hoje do que no auge do poder de Pablo Escobar, nos anos 1990. Talvez seja pouco surpreendente que a maioria dos colombianos considera que o acordo de paz está fora de rumo. 

No Bajo Cauca, dois novos grupos paramilitares estão lutando entre si pelo controle do comércio de drogas na região: as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC) e uma dissidência desse grupo, Os Caparros. Eles ameaçam e matam ativistas, jornalistas e políticos de esquerda. Moradores locais reclamam que os grupos extorquem todos os comerciantes da região, mesmo os mais modestos.

Um homem que vende café das ruas de El Bagre, cidade que beira o Rio Nechí, paga 10 mil pesos (US$ 2,53) para as AGC mensalmente. Agricultores de coca que recebem pagamentos do governo para ajudá-los a substituir a droga por cultivos legalizados também param taxas de extorsão.

Parte do problema é que o governo de Iván Duque - que se opôs ao acordo com as Farc - está sendo vagaroso na implementação de partes do acordo e tem cortado financiamentos de programas associados. Alguns críticos argumentam que a pandemia deu ao governo uma desculpa para paralisar a iniciativa. 

A covid-19 deu aos grupos armados novas maneiras de pressionar a população. Alguns deles forçaram lockdowns durante a primeira onda da pandemia, ameaçando matar qualquer pessoa que saísse de casa após o toque de recolher.

De acordo com Daniel Rico, que estuda criminalidade, este ano, em certas regiões, grupos armados só permitiam que as pessoas circulassem se lhes pagassem pedágio, citando a pandemia como razão.

Por ficarem presos em casa em vez de ir para a escola, adolescentes viraram alvos fáceis para o recrutamento de grupos paramilitares - que lhes incumbem de tarefas de nível subalterno em troca de tênis Nike falsificados, telefones celulares, motocicletas e dinheiro, afirma um professor da cidade de Caucásia.

Manifestações pela paz

Grandes protestos varreram o país em abril deste ano, ocasionados por uma reforma tributária proposta por Duque e também encorajados por grupos armados ilegais, que reforçaram seu controle sobre algumas regiões colombianas enquanto as Forças Armadas do país estavam ocupadas em controlar o caos que se instalou em cidades como Cali. Os manifestantes levantaram barricadas em estradas durante semanas, dificultando o Exército circular pelo país para combater o tráfico de drogas. 

Um problema ainda maior é que o governo da Colômbia se recusa a reconhecer as AGC e outros grupos neoparamilitares como descendentes das AUC. Esses grupos controlam grandes fatias de territórios e as pessoas que vivem nesses locais. Mas o governo os trata como se fossem meras quadrilhas de tráfico de drogas.

Admitir que esses grupos são “paramilitares” pode sugerir que eles agem em conivência com o Estado, observa María Teresa Ronderos, autora de um livro a respeito desses grupos, e por isso o governo evita essa qualificação. (Na Colômbia, o governo favoreceu apenas indiretamente grupos paramilitares em seu apogeu, principalmente aprovando leis que autorizavam pessoas comuns a se armar, enquanto na Argentina e no Chile grupos paramilitares integraram forças de segurança dos regimes militares dos países).

Duque parece pensar que a principal maneira de derrotar esses grupos é eliminar seus líderes. No mês passado, as Forças Armadas colombianas capturaram Otoniel, o líder das AGC. Duque declarou que sua prisão foi o “golpe mais forte no narcotráfico na Colômbia deste século”, comparável ao momento em que Pablo Escobar foi morto, em 1993.

Mas eliminar chefões não está funcionando, afirma Eduardo Álvarez, analista especializado em conflitos. Não faltam criminosos dispostos a tomar o lugar de um chefão deposto. Quando um líder não é substituído facilmente, seus subordinados se fragmentam, ocasionando uma guerra por sucessão. 

O pior de tudo, afirma Álvarez, é o fracasso do governo em responsabilizar políticos, militares, policiais e promotores de Justiça que mantêm laços com paramilitares desde a época em que as AUC foram fundadas. Apesar de o governo ter criado programas para reduzir a pobreza e fomentar oportunidades também nas regiões em que paramilitares prosperam, os resultados têm sido opacos.

A violência na Colômbia poderá piorar no futuro próximo. Os “dissidentes” retomaram a prática de sequestros, um método que aprenderam com as Farc. Nicolás Maduro, o ditador da Venezuela, lhes garante abrigo seguro, protegendo-os das Forças Armadas colombianas. Enquanto isso, grupos armados estão se fortalecendo à medida que o valor do ouro aumenta e suas exportações de cocaína batem recordes.

Muitos líderes das AUC presos nos EUA cumpriram suas sentenças e estão voltando para casa. Alguns grupos estão convocando ex-subordinados de volta ao serviço. Na realidade, a ameaça de extradição já não tem tanto poder, afirmou Rico. Promotores de Justiça dos EUA reduziram as penas dos líderes que foram extraditados; eles estão mais preocupados com os chefões da droga mexicanos. 

O mandato de Duque se encerrará no próximo ano, o que não lhe dá muito tempo para lidar com esses grupos. Ele deveria aumentar o investimento em programas de desenvolvimento para enfraquecer as economias ilegais, afirma Álvarez. O que é improvável. O ministro da Defesa de Duque e todos os mais graduados comandantes militares colombianos apoiam uma posição mais dura, mesmo que sua abordagem venha tendo resultados indevidos. A Colômbia não está mais em guerra, mas ainda não alcançou a paz. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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