Farc assombram eleições colombianas

Governo e ONGs alertam sobre possível atentado; ações recentes indicariam que a guerrilha quer mostrar que ainda é atuante

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 00h00

A campanha presidencial que termina nesta semana na Colômbia é a primeira em décadas na qual a guerra contra grupos armados ilegais não é a prioridade dos eleitores na hora de votar. Mas a ameaça de que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) resolvam atrapalhar a votação preocupa - e muito - as autoridades do país.

O problema, explicam analistas, é que apesar de estarem debilitadas, as Farc têm tentado desesperadamente mostrar que ainda têm dentes. "A execução do governador de Caquetá (Luis Francisco Cuéllar), em dezembro, e o carro-bomba (que deixou nove mortos em Buenaventura, em março) são parte desse esforço", diz o cientista político Gabriel Murillo, da Universidade dos Andes.

Nas últimas semanas, foram feitas ameaças de morte pela internet e por uma rádio contra o candidato Antanas Mockus, do Partido Verde, que disputa voto a voto a presidência com o governista Juan Manuel Santos. Na quinta-feira, o diretor da Polícia Nacional, general Oscar Naranjo, denunciou que as Farc teriam um plano de ataque que incluiria a infiltração nas Forças Armadas. E o presidente Álvaro Uribe ofereceu US$ 90 mil para quem desse informações sobre supostos atentados. "O plano seria parecido ao usado para matar Cuéllar", disse Naranjo.

Nas campanhas colombianas sempre houve certa divergência sobre como lidar com as Farc e outros grupos armados. Dessa vez, há consenso: tanto Mockus como Santos são contra a negociação com as Farc e prometem manter a política linha dura de Uribe. "Concessões à guerrilha poderiam anular os ganhos dos últimos anos", disse Mockus, em entrevista recente ao Estado. "Esse consenso, obviamente, não agrada as Farc e o risco de um ataque não pode ser descartado, ainda que os recursos do grupo sejam bem menores hoje", afirma Murillo.

Há três dias, o jornal Washington Post revelou que, segundo o juiz espanhol Eloy Velasco, as Farc pediram ajuda ao grupo basco ETA para tentar matar líderes colombianos durante sua passagem por Madri, entre eles Mockus (que já foi duas vezes prefeito de Bogotá) e Uribe.

Em abril, até a Cruz Vermelha chamou a atenção para a recuperação da guerrilha. "Vemos, entre o fim de 2009 e o início de 2010, que as Farc se adaptam de forma dinâmica e têm de novo capacidade para continuar a ser um ator importante do conflito", disse Christophe Beney, da Cruz Vermelha colombiana.

É claro que a ameaça hoje é muito menor do que quando a guerrilha controlava 30% dos municípios colombianos. No dia em que Uribe tomou posse, em agosto de 2002, um ataque com mísseis caseiros nas imediações do Congresso, local da cerimônia, matou 19 pessoas.

A história colombiana é marcada por atentados contra aspirantes à presidência. O Bogotazo, onda de violência que tomou a capital colombiana em 1948, começou com o assassinato do líder liberal Jorge Eliecer Gaitán. Em 1989, quando o país ameaçava se transformar em narcoestado, Luis Carlos Galán foi morto em um comício por enfrentar os cartéis. Um ano depois, Carlos Pizarro, do M-19, foi executado em um avião comercial.

Recentemente, a ex-candidata Ingrid Betancourt foi mantida como refém pelas Farc por seis anos, até 2007. E Uribe foi alvo da guerrilha na campanha de 2002, quando um explosivo foi atirado contra sua caravana em Barranquilla, deixando três mortos e dez feridos.

Esses eram tempos em que a Colômbia registrava 2 mil sequestros ao ano e suas estradas eram terra de ninguém. O país mudou - não há dúvida. Os alertas e a apreensão com a votação só são um lembrete de que, provavelmente, os guerrilheiros não mudaram.

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