Raul Arboleda / AFP
Raul Arboleda / AFP

Farc busca consolidar nova identidade

Desafio do recém-formado partido político colombiano é manter o apoio de sua base quando guerrilha e conquistar novos seguidores

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

O principal desafio da Farc, agora Força Alternativa Revolucionária do Comum, partido que surgiu da desmobilização da maior guerrilha colombiana, será transformar a pequena vantagem que tem em relação aos partidos tradicionais em capital político e conquista de votos. Segundo pesquisa do instituto Gallup, a ex-guerrilha tem uma imagem favorável de 12%, 2 pontos a mais que os partidos colombianos e, embora sua imagem negativa esteja em 84%, a dos partidos chega a 87%.

“Há um sentimento de desconfiança generalizada pelo sistema político formal do qual as Farc começam a fazer parte. Além disso, o comportamento deles depois da assinatura do acordo de paz se caracterizou pela vontade de cumprir as partes acertadas.

Ao contrário, o governo não pode cumprir alguns itens dentro do prazo estabelecido”, explica o professor de estudos políticos da Universidade de la Sabana, Juan David Cárdenas Ruiz, sobre o resultado da pesquisa. Mas ele faz uma ressalva: aprovação da imagem não implica em intenção de voto. “No curto prazo, não acredito que a primeira vá impulsionar a segunda.”

Para Frédéric Massé, diretor do Centro de Investigações e Projetos Especiais da Universidade Externado da Colômbia, a nova Farc não pode “trair seu passado”, mas precisa ampliar seu capital político e, para isso, precisa “mostrar que tem credibilidade para governar e fazer isso de maneira democrática, sem voltar às armas ou cair em práticas criticadas em partidos políticos tradicionais”, afirma, referindo-se às acusações de corrupção. 

Um dos aspectos que divide analistas é o fato de o ex-grupo guerrilheiro ter optado por manter a sigla Farc. “Com certeza, os partidos tradicionais vão explorar negativamente a legitimidade do processo de paz e os acontecimentos violentos do passado”, afirma Cárdenas. 

No entanto, segundo Sergio Guarín, diretor da Fundación Ideas para la Paz, manter a sigla e o mecanismo decisório – a direção será integrada por 111 pessoas – é uma forma de assegurar suas bases. “Isso mostra que a decisão imediata é assentar suas bases na esquerda e na esquerda radical, porque ali há um eleitorado que pode ser fiel. A preocupação imediata não é construir um consenso ao redor de seu nome. O partido vai se apresentar com uma agenda progressista de direitos”, explica.

Para obter votos, o novo partido Farc determinou em seu congresso da semana passada que para as eleições de 2018 – na qual terão direito a cinco assentos no Senado e cinco na Câmara, como diz o acordo de paz – vai priorizar a formação de uma “grande coalizão democrática” com o objetivo de “ser o governo ou parte dele”, explicou Luciano Marín Arango, conhecido como Iván Márquez.

Para Guarín, ao afirmar que pretende integrar uma coalizão, a nova Farc reforça a necessidade de garantir que o acordo de paz seja cumprido e reconhece suas limitações na hora de aspirar à presidência. “A coalizão significa a possibilidade de fazer alianças com outros partidos, mas eles sabem que uma aliança é difícil para o outro partido também, afinal vão se associar a uma ex-guerrilha.” 

Os próximos três anos serão fundamentais para definir o futuro da nova Farc, segundo Cárdenas. “O desafio maior está em governar em nível local. Aí, veremos como eles se comportam para conseguir votos. Se vão intimidar ou se farão a coisa da forma correta, sem ameaças.”

 

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