Farc declaram cessar-fogo unilateral

Governo da Colômbia diz que não deixará armas durante negociação em Havana

HAVANA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h04

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) decretaram ontem um cessar-fogo unilateral, que deve entrar em vigor à zero hora de hoje. O anúncio foi feito pelo negociador-chefe da guerrilha colombiana, Iván Márquez, em Havana, e marcou o primeiro dia da retomada das conversas de paz entre o governo de Bogotá e os insurgentes para pôr fim a quase 50 anos de conflito.

"O secretariado (das Farc) ordena às unidades guerrilheiras em toda a geografia nacional o cessar de todo o tipo de operações militares ofensivas contra a força pública e os atos de sabotagem contra a infraestrutura pública e privada", afirmou Márquez, o segundo no comando insurgente, pouco antes do primeiro encontro oficial entre os representantes do governo colombiano e da guerrilha em Havana.

O cessar-fogo deverá durar até 20 de janeiro, de acordo com as Farc. A delegação de negociadores de Bogotá não comentou a trégua, mas o presidente do país latino-americano, Juan Manuel Santos, tem afirmado que seu governo não cessará as atividades de combate à guerrilha durante as negociações em Cuba. O ministro da Defesa colombiano, Juan Carlos Pinzón confirmou ontem essa posição, afirmando que combater as Farc é um "dever constitucional".

"Essa decisão política das Farc é uma contribuição para fortalecer o clima de entendimento necessário para que as partes que iniciam o diálogo alcancem o propósito desejado por todos os colombianos", disse Márquez, que se recusou a responder às perguntas dos jornalistas que aguardavam os negociadores no Palácio de Convenções de Havana.

Não foi permitida a presença da imprensa na reunião entre os representantes da guerrilha e do governo de Bogotá. De la Calle não deu declarações em sua chegada ao local da negociação.

"Esse é um processo que tem de ser sério, digno para as partes, mas eficaz, realista. É fundamental a discrição", disse o ex-vice-presidente no domingo, após aterrissar na capital cubana. Pouco antes, ainda na Colômbia, o negociador-chefe do governo colombiano havia afirmado que "não haverá concessões de caráter militar (por parte de Bogotá), nem cessar-fogo, nem zonas desmilitarizadas", pois tréguas anteriores significaram "vantagens para a guerrilha que não podem se repetir".

Com o objetivo de retomar o diálogo com os insurgentes, as autoridades colombianas suspenderam o efeito de várias ordens de prisão contra os delegados das Farc, consideradas uma organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

Os negociadores preveem que o primeiro ciclo das novas conversações de paz deverá durar dez dias, durante os quais os representantes discutirão a questão agrária da Colômbia, um dos motivos fundamentais da insurgência no país latino-americano. Está previsto que, durante as manhãs, as equipes trabalhem conjuntamente e, de tarde, se reúnam separadamente.

Também participam das negociações representantes dos países que facilitaram a retomada do diálogo, Cuba e Noruega - onde as conversas de paz foram anunciadas, há pouco mais de um mês -, e das nações "acompanhantes", Venezuela e Chile.

Repercussão. A ex-congressista colombiana Piedad Córdoba, que negociou a libertação de diversos reféns das Farc, qualificou como uma "demonstração de boa vontade" o cessar-fogo unilateral da guerrilha, postando no Twitter que está "muito satisfeita e feliz" em razão dessa trégua.

O escritor peruano e Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa disse esperar que a nova negociação traga a "paz definitiva". / AFP, REUTERS e EFE

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