William Fernando Martinez/AP
William Fernando Martinez/AP

Farc e governo da Colômbia retomam em Oslo negociação de paz após 10 anos

Conversas estão suspensas desde 2002, quando fracassou iniciativa do ex-presidente Andrés Pastrana de criar zona desmilitarizada

Guilherme Russo,

17 de outubro de 2012 | 23h30

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo de Bogotá retomaram nesta quarta-feira, 17, em Oslo negociações para pôr fim ao conflito mais antigo da América Latina, que em quase 50 anos deixou cerca de 60 mil mortos. As conversas de paz estão suspensas desde 2002, quando fracassou a iniciativa do ex-presidente Andrés Pastrana de criar uma zona desmilitarizada que serviria para um possível acordo.

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Representantes das Farc - que, se estima atualmente, são compostas por entre 8 e 9 mil integrantes - e do governo do presidente Juan Manuel Santos oficializaram o recomeço do diálogo na capital norueguesa para "expressar a vontade política mútua de formar uma mesa de negociação que finalmente solucione o conflito na Colômbia", disse ao Estado o cientista político Carlos Medina Gallego.

O diálogo de paz será composto por uma agenda de seis pontos, que incluem reforma agrária - uma das reivindicações históricas da milícia socialista -, integração dos guerrilheiros à vida política da Colômbia e às forças de segurança do país, um cessar-fogo "bilateral e definitivo", a responsabilização, de revolucionários e autoridades, por crimes de guerra e contra a humanidade ocorridos durante o conflito e um "programa de substituição de cultivos de uso ilícito".

"O conflito vai continuar durante a negociação. A prioridade será estabelecer uma trégua o quanto antes", disse Medina, afirmando que em Havana "o processo de paz começará para valer".

Analistas afirmam que um possível entrave para o fim do conflito colombiano seria a possibilidade de o Exército de Libertação Nacional (ELN), milícia que tem cerca de 2 mil guerrilheiros, não participar da negociações. Medina afirmou que o grupo foi chamado para comparecer ao encontro em Oslo, mas, nas últimas semanas, não confirmou se mandaria representantes à capital norueguesa.

"Isso não deverá produzir nenhum agravamento. O ELN já foi explícito ao afirmar que também pretende para trabalhar pela paz na Colômbia", disse o analista. No último editorial da Revista Insurreição, porém, que a milícia publica em seu site os rebeldes afirmam que "caminhar na direção do fim do conflito não é assunto de meses, como tem apregoado em reiteradas oportunidades o presidente Santos".

Medina afirmou que a comunidade acadêmica da Colômbia pediu que o governo estabeleça uma mesa de negociação paralela com o ELN.

"Esse encontro será protocolar, não deverá abordar a agenda de negociação. As partes pretendem agradecer o governo norueguês pelo papel que ele teve como facilitador dessa conversa, mediando e acompanhando o processo nos últimos meses", afirmou o analista, que qualificou a atuação de Oslo na aproximação entre Bogotá e as Farc como "muito importante".

Além de Noruega, Venezuela Chile e Cuba - onde as negociações continuarão após a reunião no país europeu - participaram do processo de aproximação entre a guerrilha e Bogotá.

Preso

Outro possível entrave à negociação entre as Farc e o governo colombiano é a exigência feita pela milícia de que o insurgente Juvenal Ovidio Ricardo Palmera, cujo nome de guerra é Simón Trinidad, seja um dos representantes plenipotenciários durante as conversas de paz. Capturado em 2004 no Equador, o guerrilheiro foi extraditado pela Colômbia para os EUA, que o condenou a 60 anos de cadeia pelos sequestros de três americanos. Segundo Medina, um acordo para que o miliciano participe das mesas de negociação por teleconferência teria sido firmado entre. No dia 10, a ministra da Justiça colombiana, Ruth Stella Correa, afirmou que a presença virtual de Trinidad no processo de paz é "juridicamente possível".

O analista político americano Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, afirmou, porém, que "apesar de os EUA apoiarem muito as negociações, permitir que Trinidad participe, mesmo que virtualmente, está além" da ajuda que Washington pretende dar ao processo.

"Isso causaria um problema político que o presidente Barack Obama deve evitar antes das eleições (americanas, no dia 6). Mas mesmo se ele for reeleito, não deverá permitir que isso ocorra", disse, afirmando que a medida poderia provocar problemas entre o Executivo e o Judiciário americanos, além de abrir um precedente que poderia causar "descontrole" na Justiça dos EUA, já que outros detentos considerados presos políticos poderiam tentar se valer de manobras similares.

A presença virtual de Trinidad não foi confirmada ou desmentida até ontem, quando a porta-voz do Departamento de Estado Americano, Victoria Nuland, afirmou que os EUA, as Farc e Bogotá "têm todo apoio (de seu país) no esforço para alcançar a paz que merecem". Ela disse ainda que as autoridades americanas não estão envolvidas diretamente no diálogo, mas recebem informações dos colombianos "regularmente" sobre o processo.

Suspense

Os representantes dos guerrilheiros e do governo de Bogotá prometem conceder uma entrevista coletiva na quinta-feira a respeito do que foi discutido na Noruega. Ambas as comitivas chegaram nesta quarta-feira a Oslo. Passaram rapidamente pela área VIP do aeroporto da capital norueguesa por volta do meio-dia e se encaminharam para se reunir em um local secreto. A presença da imprensa não foi permitida.

Na Colômbia, a expectativa é grande sobre o resultado do primeiro encontro no novo processo de paz entre as Farc e Bogotá. Todos os principais jornais do país traziam o anúncio da partida dos negociadores em direção a Oslo em suas manchetes.

Com Reuters 

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