Farc libertam jornalista francês 'capturado' há 33 dias

Roméo Langlois estava em poder de grupo rebelde colombiano desde 28 de abril.

Leandra Felipe, BBC

30 Maio 2012 | 16h09

O correspondente do canal France 24 Roméo Langlois, 35 anos, foi libertado pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nesta quarta-feira, no Departamento de Caquetá (sudoeste do país). A captura pôs à prova não só a promessa da guerrilha de abandonar o sequestro civil, como também as práticas adotadas na cobertura jornalística do conflito colombiano.

Logo após ser libertado, Langlois disse à imprensa na cidade de San Isidro que nunca foi acorrentado ou mal tratado pela guerrilha. O jornalista, no entanto, acusou as Farc e o governo de tentarem usar o incidente politicamente. O repórter também falou que é preciso continuar cobrindo o conflito.

A missão humanitária de resgate foi comandada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), e teve a participação de um representante do governo francês, Jean-Baptiste Chavin, e da ex-senadora colombiana Piedad Córdoba, diretora da ONG Colombianos e Colombianas por la Paz.

O jornalista foi entregue pela guerrilha à missão no início da tarde. As operações militares na região foram suspensas por 36 horas para facilitar o resgate.

Captura

Langlois havia sido capturado pela guerrilha no dia 28 de abril, durante enfrentamento entre o Exército e as Farc.

O francês acompanhava a operação na região, porque estava fazendo um documentário sobre o narcotráfico. No confronto quatro militares morreram e oito ficaram feridos.

Dois dias antes da liberação, as Farc divulgaram pela rede de televisão Venezuela Telesur um vídeo como prova de vida de Langlois.

No vídeo, o jornalista aparentava bom estado de saúde, apesar de ferimento no braço esquerdo. O correspondente respondeu às perguntas de uma guerrilheira e reconheceu os riscos ao quais se expôs para realizar seu trabalho.

"Na verdade, eu não pensava que ia acontecer isso. Só pensei que íamos fazer algumas imagens, em um laboratório (de cocaína)", disse o jornalista, que cobre o conflito colombiano há dez anos.

Sequestro ou não?

No mesmo vídeo, um guerrilheiro identificado como "Colacho Mendonza" afirmou que Langlois usava um jaleco e um capacete do Exército, e que o correspondente se entregou levantando os braços no meio do conflito.

"Ele já estava ferido e se entregou para salvar sua vida", afirmou Colacho, ressaltando também que um enfermeiro das Farc lhe prestou os primeiros socorros.

A retenção do jornalista levantou dúvidas na opinião pública e no governo colombiano quanto ao cumprimento da promessa feita em fevereiro pelas Farc de abolir o sequestro de civis.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil consideram que, na realidade, não era intenção das Farc sequestrar o jornalista.

"Houve certa confusão pelo fato de Langlois estar com alguns trajes do Exército. Pelo Direito Internacional Humanitário, o uso de uniformes é restrito aos atores do conflito. Se um civil usa um uniforme, ele perde o status da proteção civil", avalia a jornalista Maria Victoria Duque, diretora do Instituto de Análise Razão Pública.

Do mesmo modo, o cientista político Victor de Currea-Lugo, da Pontificia Universidade Javeriana, acredita que não foi um sequestro "premeditado", porque a captura aconteceu no contexto do conflito.

"As Farc não foram atrás do jornalista, mas se a guerrilha tivesse demorado mais tempo para liberá-lo, aí sim, poderíamos tratar a captura como sequestro e colocar em dúvida a decisão do grupo", afirmou Currea-Lugo.

Por sua vez, o governo também não aceitou o argumento das Farc de que Langlois poderia ser um prisioneiro de guerra.

O ministro da Defesa colombiano, Juan Carlos Pinzón, admitiu que o jornalista usava jaleco e capacete militares, mas ressaltou que ainda assim, o correspondente não poderia ser capturado como prisioneiro.

"O Exército tinha o dever de oferecer-lhe mecanismos de proteção e por isso lhes demos o jaleco e o capacete das Forças Militares", explicou Pinzón.

Sequestros na mídia

Em abril as Farc libertaram seus últimos 10 reféns policiais e militares, tratados como "prisioneiros de guerra". A operação teve a participação do Exército brasileiro, que forneceu os helicópteros e pilotos para a missão.

As liberações desses reféns são sempre acompanhadas de perto pela mídia internacional, algumas vezes pela representatividade, como a ex-senadora Íngrid Betancourt, capturada em 2002 e liberada em 2008.

Apesar de ter se comprometido a abandonar a prática de sequestros extorsivos, a guerrilha ainda tem em seu poder alguns sequestrados civis, cujo número é desconhecido. Segundo a ONG País Libre, 405 civis podem estar em poder Farc, mas atualmente o governo colombiano fala em cerca de 100 pessoas.

A libertação de todos os sequestrados civis ou informações sobre o paradeiro destas pessoas é uma das exigências do presidente Juan Manuel Santos para avançar em um processo de negociação de paz com as Farc, já que ambas as partes tem se mostrado "abertas" a iniciar conversações. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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