Farc mudam de tática e ampliam ações na Colômbia

Descentralização da guerrilha após troca de comando faz número de ataques subir 10% em relação ao primeiro semestre de 2010

Renata Miranda, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Após quase dez anos de combate intenso às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a ofensiva do governo colombiano começa a mostrar seus primeiros sinais de desgaste. Dados divulgados por uma ONG de Bogotá mostram que o número de ataques perpetrados pelo grupo rebelde aumentou 10% no primeiro semestre do ano, indicando um possível fortalecimento da guerrilha, que decidiu descentralizar as ações.

De acordo com o documento A nova realidade das Farc, da Corporación Nuevo Arco Iris - organização que promove ações políticas para a paz e o desenvolvimento na Colômbia -, as Farc realizaram 1.115 ações armadas na primeira metade de 2011 e devem totalizar até o fim do ano cerca de 2.200 ataques.

Os números contradizem o governo que, em 2008, após a morte de uma série de líderes da guerrilha, chegou a dizer que as Farc estavam "perto do fim". Segundo a Corporación Nuevo Arco Iris, o aumento no número de ações das Farc é uma tendência observada ao longo dos últimos três anos e está relacionado diretamente com a mudança de comando na cúpula da guerrilha.

"Após as mortes de Raúl Reyes e Mono Jojoy, as Farc realmente estavam prestes a desaparecer", afirmou ao Estado, por telefone, Ariel Ávila, pesquisador da entidade e um dos responsáveis pelo relatório. "Só que após Alfonso Cano assumir o comando da guerrilha, o grupo deu início a uma nova estratégia e começou a se reagrupar."

A nova estratégia recebeu o nome de "Plano 2010" e começou a ser implementada em meados de 2008. Segundo Ávila, o plano de reestruturação tática e militar da guerrilha tem como base a descentralização. "Depois que o governo matou líderes centrais das Farc, o grupo decidiu criar mais unidades menores, com maior autonomia para planejar e realizar ataques."

O tipo de ações praticadas pelas Farc também mudou nos últimos anos. A guerrilha tinha entre suas principais atividades o sequestro. Agora, o grupo rebelde investe mais em carros-bomba, franco-atiradores e ataques menores.

"No auge do conflito armado, as Farc utilizavam até 200 guerrilheiros em um só ataque, hoje são usados entre 10 e 30 integrantes que se dispersam depressa depois de cada ação", explicou o cientista político Rodrigo Losada. "Assim, é mais difícil para as forças militares anteciparem um ataque porque grupos menores chamam menos atenção."

Um exemplo da nova estratégia das Farc ocorreu no Departamento (Estado) de Cauca, onde, em 9 de julho, foram registrados seis ataques simultâneos atribuídos à guerrilha. O pior deles foi na cidade de Toríbio, onde a ação de atiradores foi seguida pela explosão de um ônibus, deixando 8 mortos, mais de 100 feridos e destruindo cerca de 500 casas. Os ataques na região têm sido tão recorrentes que a cidade ganhou o apelido de "Toribistão", em referência ao sangrento conflito que tropas internacionais travam com o Taleban no Afeganistão.

Expansão. A mudança de estratégia das Farc também fez com que o número de guerrilheiros aumentasse, afirmam especialistas. Enquanto o governo estima em 7 mil o número de combatentes das Farc, cientistas políticos e pesquisadores relacionados ao conflito armado colombiano acreditam que a guerrilha conte hoje com aproximadamente 10 mil homens armados. "Esse número, no entanto, sobe para 30 mil quando contamos os integrantes das milícias que apoiam os grupos armados das Farc", disse Jeremy McDermott, codiretor da InSight, consultoria que monitora o crime organizado na América Latina.

A ampliação da atuação da guerrilha, porém, não pode ser relacionada à mudança de governo na Colômbia que, após oito anos sob o comando de Álvaro Uribe, elegeu Juan Manuel Santos para a presidência em junho do ano passado. Uma pesquisa divulgada no mês passado deu a Santos 76% de aprovação. No entanto, de acordo com o mesmo levantamento, 62% dos colombianos desaprovam a política de segurança do presidente.

"O plano de reestruturação começou a ser implementado durante o governo de Uribe", disse o especialista em conflito armado Carlos Medina. "O que estamos vendo hoje é apenas resultado de uma estratégia que foi adotada há três anos."

Para o cientista político Alfredo Rangel, o problema principal do governo é continuar utilizando o mesmo plano de ação contra a guerrilha. "Não houve mudanças na política de combate às Farc desde que Uribe era presidente", afirmou Rangel. O especialista acredita que o modelo de ação do governo já não é suficiente. "A ofensiva do governo contra as Farc já atingiu seu ponto máximo e agora é preciso fazer mudanças."

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