AFP / GUILLERMO LEGARIA
AFP / GUILLERMO LEGARIA

Farc resistem a discutir alterações no texto do acordo de paz com governo

Após rejeição em plebiscito, Santos e opositor Álvaro Uribe aceitam dialogar sobre mudanças no documento, mas guerrilha diz que votação não teve caráter vinculante e rejeita renegociar

Fernanda Simas, Enviada Especial / Bogotá, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2016 | 05h00

Enquanto o governo de Juan Manuel Santos inicia discussões com partidários do “não” ao acordo de paz, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) resistem em renegociar os pontos que foram acertados com Bogotá nos quatro anos de conversas em Havana, Cuba. 

“As Farc permanecerão fiéis ao que foi pactuado”, declarou nesta quarta-feira o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido como Timochenko, após a reunião entre o presidente Santos e o ex-presidente Álvaro Uribe, contrário ao atual acordo de paz assinado em Cartagena de Índias.

Desde que o presidente anunciou que receberia os “promotores do não”, após ser derrotado no plebiscito de domingo, as Farc começaram a fazer comunicados nas redes sociais afirmando que não há o que renegociar e o resultado da consulta não é vinculante. “O acordo final foi assinado como acordo especial e depositado ante o conselho da Confederação Suíça em Berna, que lhe confere inegável e irrevogável efeito jurídico”, afirmou Timochenko.

As declarações ampliam a situação de incerteza no país no momento em que lados opostos da política sentam para discutir o que precisa ser reformulado no atual acordo de paz. Nesta quinta-feira, comissões do governo e do Centro Democrático – partido que liderou a campanha do “não” – começam a negociar os pontos apresentados por Uribe na reunião com Santos.

“Identificamos que muitas preocupações (dos partidários do “não”) estão em pontos que requerem apenas esclarecimentos. Hoje, começaremos a trabalhar para resolver esses pontos e acalmar suas inquietudes”, disse Santos nesta quarta-feira, após o primeiro encontro em cinco anos com seu ex-padrinho político.

Santos voltou a falar que o país está “perto de obter a paz” e tudo o que for conversado com a oposição será discutido com as delegações das Farc. Nesta quinta-feira, o negociador do governo Frank Pearl e o ministro da Defesa, Luis Carlos Villegas, iniciam os debates com o representante do “não” Camilo Gómez, ex-comissário para a paz.

Uribe agradeceu o convite de Santos e voltou a afirmar que o resultado do plebiscito precisa ser escutado e respeitado. “É melhor a paz para todos os colombianos do que um acordo deficiente para a metade dos cidadãos.” O ex-presidente pediu o “ajuste” de alguns pontos do atual acordo, entre eles o da questão da elegibilidade política para comandantes das Farc.

“Reiteramos preocupações por impunidade total, elegibilidade política de pessoas responsáveis por crimes de lesa-humanidade”, afirmou.

O cientista político e professor da Universidade de Externado, Frédéric Massé, explicou que Santos não tinha a obrigação de convocar um plebiscito, mas após a convocação a Corte colombiana decidiu que a decisão das urnas seria vinculante. “Ter um acordo válido estabelecido na Suíça é muito frágil. Não podemos esquecer que mais de 50% dos que votaram não aceitaram o acordo”, afirma. 

Para Massé, é a incerteza política que torna essencial a renegociação do acordo. “É difícil, mas não é impossível tecnicamente ou politicamente. Creio que o tema mais complicado seja a justiça transicional, mas aí acredito que as Farc terão de ceder um pouco e os negociadores não poderão exigir 20 anos de prisão (para os rebeldes).”

Outra questão que deixou as Farc surpresas foi o anúncio de Santos de que o cessar-fogo bilateral durará até o dia 31. Timochenko afirmou que as frentes das Farc “permanecerão em cessar-fogo em respeito às vítimas do conflito e ao acordo com o governo”. Mas integrantes da guerrilha manifestam preocupação. Pelo Twitter, Pastor Alape pediu aos guerrilheiros que fossem para “regiões seguras para evitar provocações de quem é contra o acordo de paz”.

“As Farc foram bastante surpreendidas e mesmo que seja prorrogável, o cessar-fogo hoje é muito frágil, pois qualquer provocação pode levar à guerra. Não descarto a possibilidade de que alguns integrantes das Farc se cansem e decidam voltar a pegar em armas”, afirma Massé.

A guerrilha pede ainda que a população saia às ruas para manifestar apoio ao acordo existente. “Chamamos os movimentos sociais e políticos a respaldar, mediante a mobilização e outras formas pacificas, o acordo final”, disse o líder das Farc. Pelas redes sociais da guerrilha, há uma campanha por uma vígilia em todos os acampamentos no dia 31, quando acabaria o cessar-fogo.

Processo. Antes de se reunir com Uribe, Santos esteve com o também ex-presidente e partidário do  'não', Andrés Pastrana. Ele disse, após o encontro, que “99% do país está convencido e estamos ao lado da paz. Nunca um presidente colombiano recebeu tanto respaldo. Existe um documento-base que é o de Havana, no qual existem coisas boas que precisam ser resgatadas e coisas que precisam mudar”.

Pastrana pediu ainda que a etapa de desmobilização das Farc comece de acordo com o cronograma e os guerrilheiros sejam levados para as zonas veredais para iniciar o processo de concentração, mesmo que o desarmamento não seja imediato.

Manifestação. Ainda nesta quarta-feira, estudantes de universidades de Bogotá se reuniram para uma manifestação pela paz. Centenas de pessoas vestindo branco caminharam até a Praça Bolívar com bandeiras da Colômbia e cantaram o hino nacional. A ideia é mostrar que a busca pela paz não pode parar. Outras manifestações estão previstas para esta quinta-feira e sexta-feira não apenas na capital colombiana.

 

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