Ivan Blanco
Ivan Blanco

‘Farc viram que já não têm chance de vitória’

Para o senador, ex-integrante do M-19, mudança de visão da guerrilha é essencial para acordos de paz na Colômbia

Entrevista com

Antonio Navarro Wolf

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2016 | 05h00

A assinatura de um acordo de paz entre governo colombiano e Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) será possível em razão da atuação da administração de Juan Manuel Santos ao decidir negociar com grupos guerrilheiros, mas também por consequência da mudança de visão das Farc, afirma o senador Antonio Navarro Wolf. “As Farc se deram conta que o conflito armado não tem possibilidade de vitória. É um caminho fechado. Isso é o mais importante”, explicou em entrevista ao Estado

Hoje senador pelo partido Alianza Verde, Navarro foi integrante da extinta guerrilha M-19 e participou do primeiro processo de paz colombiano, em 1990, do lado guerrilheiro. “Fomos precursores do tema da paz porque assinamos o acordo quando ninguém acreditava que isso era possível na Colômbia, nem na América Latina, o que resultou em uma onda de otimismo muito grande”, afirmou Navarro, ressaltando que a posição das Farc foi essencial para que o atual processo de paz não fracassasse. A seguir, trechos da conversa:

Por que um acordo de paz é mais provável agora do que nas tentativas anteriores? 

As Farc se deram conta que o conflito armado não tem possibilidade de vitória. É um caminho fechado. Isso é o mais importante. Mas, de outro lado, o governo decidiu que era melhor evitar mais dez anos de conflito e encerrá-lo agora. Essa é a diferença para os últimos anos: o reconhecimento pelas Farc da ineficiência e falta de efetividade da iniciativa armada e um governo que tomou a decisão de evitar 10, 15 anos mais de conflito negociando agora.

Por que o sr. pensa que é preciso manter as Farc unidas e não desmembradas após a assinatura do acordo final?

É preciso mantê-las unidas, desarmadas claro, mas unidas, porque são 7,5 mil homens e mulheres que sabem usar armas e têm experiência em combate. Se não mantivermos essas pessoas unidas pode haver um recrutamento deles por parte de grupos criminosos, que enxergam essas pessoas que conhecem a arte do combate. Temos que manter as Farc unidas e o caminho para isso é a participação política dos chefes (guerrilheiros).

Qual é a importância do trabalho junto à comunidade no tema das zonas de concentração das Farc?

Em geral, em todas as zonas onde hoje as Farc ocupam o território haverá um vazio no futuro. E esse vazio tem que ser preenchido pelo Estado, com o que estamos chamando de Presença Integral do Estado no Território, porque se não for o Estado serão outros grupos armados, criminosos, talvez gente do ELN (Exército de Libertação Nacional). Isso porque há estímulos para a presença de grupos armados ilegais, essencialmente para o cultivo de coca e a mineração de ouro ilegal. É essencial ter nesses locais o desenvolvimento econômico, agropecuário, uma política de substituição de cultivos ilícitos por uma economia legal, a construção de infraestrutura, o investimento social, a presença da Justiça e a presença da segurança pública.

Então evitar a volta da violência é o principal desafio da Colômbia pós-assinatura com as Farc?

Sim, sem dúvida nenhuma. Analisamos tudo que podia dar errado porque se errarmos, se substitui uma violência pela outra. Esse é o principal problema que ainda não está resolvido. O governo gastou muito mais tempo com as negociações de paz do que com a preparação do que deve ser feito depois que as Farc deixarem as armas. 

Qual foi a participação do sr. nesse processo de paz?

Não foi muito próxima porque não tenho uma boa relação com as Farc. Em certos momentos, o governo pensou que eu poderia ter um papel mais importante, mas tenho seguido o processo e um estudo de profundidade sobre o pós-conflito, ou seja, sobre o que precisará ser feito desde o primeiro dia depois de assinado o acordo de paz.

No dia 9 de março se completaram 26 anos desde a assinatura do acordo de paz com o M-19, que permitiu a incorporação à vida política de seus integrantes. Como o sr. se lembra daquele momento?

Aquela foi a primeira paz da América Latina. Fomos precursores do tema da paz porque assinamos o acordo quando ninguém acreditava que isso era possível na Colômbia, nem na América Latina. O acordo resultou em uma onda de otimismo muito grande, ajudou a formar na Colômbia uma Assembleia Constituinte e como resultado conseguimos (guerrilha) alcançar 1/3 dos espaços com votos populares. Foi uma decisão totalmente acertada, mesmo com riscos altos para a gente. Nosso chefe foi assassinado 45 dias depois da assinatura dos acordos e nós decidimos continuar cumprindo a palavra que havíamos dado, de modo que foi um período de altos e baixos. A polarização, o papel que o cartel de Medellín ganhou nesse tempo, nos custou a vida do principal membro do M-19, mas obtivemos a paz. Depois disso, vimos os resultados dos acordos com o M-19: três grupos guerrilheiros assinaram, um ano depois, acordos de paz, um deles o Exército de Libertação Popular (EPL), e foi feita uma Assembleia Constituinte. E o mais importante de tudo: desde 1990 até hoje, não apareceu nenhum grupo guerrilheiro novo, pelo contrário, muitos desapareceram. 

O sr. acredita que a população aprova o acordo de paz em uma futura consulta? 

Se houver o plebiscito que está sendo proposto – não sabemos ainda porque esse tema está sendo estudado pela Corte Constitucional – as pesquisas mostram que ganha o ‘sim’. Se as pesquisas são bem feitas, o que eu acredito que são, ganhará o ‘sim’.

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