Hasan Jamali / AP
Hasan Jamali / AP

Fareed Zakaria: O que o assassinato de Khashoggi nos diz sobre os EUA

A política dos EUA para o Oriente Médio deve ter por base seus interesses e valores na região

O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2018 | 06h00

O assassinato de Jamal Khashoggi nos diz algo importante sobre a Arábia Saudita – e também sobre os EUA. No caso dos sauditas, Khashoggi fazia parte do establishment. Embora não fosse membro da Casa de Saud, era um indivíduo bem-nascido e bem relacionado. Ele editou um importante jornal do país e trabalhou para a cúpula da realeza. 

Meu primeiro contato com Jamal foi há 14 anos, e ele foi uma das pessoas que me acompanharam quando passei uma semana em Riad e Jedá. Khashoggi trabalhava para o príncipe Turki al-Faisal, chefe da inteligência saudita, que na época era embaixador do país na Grã-Bretanha e posteriormente ocupou o cargo de embaixador nos EUA. Turki é um dos filhos do rei Faissal. Em outras palavras, um membro da alta cúpula real, além de monarca.

Khashoggi era um liberal e reformista, mas manteve sempre um enfoque moderado no sentido de mudanças paulatinas. Ele se preocupava que reformas excessivas prejudicariam o país. 

“Gostaria de ver meu governo adotando medidas mais drásticas contra os extremistas”, ele me disse em 2005 no meu programa Foreign Exchange, na PBS. Mas, ao mesmo tempo, alertava para a excessiva rapidez das mudanças. “Não queremos fraturar a sociedade.” 

Observando a abordagem adotada pelo atual príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, uma combinação de autoritarismo e reformas autênticas, Khashoggi se tornou mais crítico, mas nunca um radical. Então, por que era considerado tão ameaçador? Talvez por ser respeitado no seio do establishment saudita. Tarek Masoud, de Harvard, sugere que a morte de Khashoggi sinaliza que existe uma dissensão dentro do governo saudita mais séria do que imaginamos. 

Se for verdade, isto é algo significativo. Quando o estudioso Samuel Huntington analisou a ruína dos regimes autoritários, nas décadas de 70 e 80, observou que um cisma dentro da elite dirigente é quase sempre o precursor de um colapso num sentido mais amplo do regime.

Historicamente, a Arábia Saudita manteve-se estável porque era um Estado clientelista, e não um Estado policial. O reino normalmente resolvia o problema com seus críticos e dissidentes comprando seu silêncio, especialmente no caso dos clérigos radicais. E usou essa estratégia novamente após a Primavera Árabe, quando aumentou maciçamente os subsídios para as pessoas e as bonificações para os funcionários do governo. 

Funcionou. Na verdade, uma lição da Primavera Árabe foi a de que a repressão não dá tão certo quanto o suborno, como se verificou com Hosni Mubarak, no Egito, e Bashar Assad, na Síria.

No entanto, MBS, como é chamado o príncipe, parece estar mudando esse modelo clientelista, aproximando-se mais de um Estado policial. Combinou reformas econômicas, sociais e religiosas com um férreo controle do poder, extorquindo empresários, prendendo ativistas, atacando novas plataformas e, agora, executando um jornalista.

Deixando de lado sua imoralidade, ações brutais como essas tendem a criar instabilidade no longo prazo. Ironicamente, para uma pessoa tão ferozmente anti-Irã, MBS se assemelha muito ao antigo xá iraniano, que foi um reformador e um déspota amado pelas elites ocidentais.

MBS é uma figura complicada. Ele avançou em algumas áreas, mas aumentou a repressão em outras. O maior problema é que a política externa dos EUA não deveria se basear em personalidades. A visão de mundo de Donald Trump está enraizada na sua simpatia ou antipatia por outros líderes, de Kim Jong-un a Angela Merkel. 

No Oriente Médio, isto tem levado à cegueira da política externa americana com relação à Arábia Saudita. Washington acompanhou e endossou medidas tomadas pelos sauditas, que intensificaram sua guerra no Iêmen, lideraram um bloqueio ao Catar, entraram em disputa com a Turquia e sequestraram o primeiro-ministro do Líbano. Todas essas ações foram um fracasso.

A política dos EUA para o Oriente Médio deveria ter por base seus interesses e valores na região e estes jamais se alinharão perfeitamente com qualquer país. Historicamente, ser um mediador honesto e respeitado tem significado. Foi o que permitiu a Henry Kissinger tirar o Egito do campo soviético e o que ajudou Jimmy Carter a forjar os acordos de Camp David. 

É por isto que, de Bill Clinton a George Bush e Barack Obama, os EUA têm insistido para seus aliados árabes realizarem reformas sérias. Tudo isto requer sutileza, sofisticação e diplomacia de qualidade. Este é o preço de ser líder do mundo livre, cargo que nos últimos tempos parece estar vago. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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