Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Farto de Trump, ex-republicano cria selo presidencial falso que vai parar no palco do presidente

O selo falso ficou na tela por ao menos 80 segundos, projetado em larga escala, mas totalmente ignorado pelo público

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2019 | 17h51

RICHMOND, EUA - Charles Leazott não pensava no selo havia meses. O design gráfico de 46 anos o fez nas eleições presidenciais de 2016 – era parte piada, parte protesto. Ele costumava ser um republicano orgulhoso. Votou em George W. Bush duas vezes. Mas o Partido Republicano de Donald Trump não era mais o seu partido. Então, ele criou um selo presidencial falso – com zombarias – para provar seu ponto. 

Ele substituiu as flechas nas garras da águia por um punhado de tacos de golfe – uma referência ao passatempo favorito do novo presidente.

Na outra garra, ele trocou o ramo de oliveira por um maço de dinheiro e substituiu o lema em latin dos EUA por um insulto em espanhol. 

Depois, vem seu golpe de misericórdia: um pássaro imperial de duas cabeças erguido diretamente do brasão russo, uma referência à conturbada história do presidente com o país de Vladimir Putin. “Essa é a menor peça de arte que eu já criei”, disse Leazott, em entrevista ao Washington Post

O selo não foi criado para um grande público. Mas aí, alguns anos mais tarde, ele acabaria estampado em uma grande tela atrás do próprio presidente Trump enquanto ele falava em uma conferência para centenas de apoiadores jovens. 

Isso aconteceu na terça-feira. Na quarta-feira, o Post foi o primeiro jornal a noticiar que o selo era falso – e nem a Casa Branca, nem  os organizadores do evento, o Turning Point USA, souberam explicar de onde ele havia saído. 

Repercussão

Leazott lia as notícias e tomava seu café na quinta-feira quando seu celular foi inundado de mensagens. “Tem sido um caos. Não era isso o que eu estava esperando quando eu acordei.” 

Ninguém esperava por aquilo, na verdade. Um porta-voz da Turning Point disse na quarta-feira que o grupo conservador não estava ciente do selo falso até o Post ligar. Ele passou a noite tentando rastrear o culpado e determinar se o ato tinha sido intencional por algum trapaceiro da equipe ou apenas um erro. 

O selo falso ficou na tela por ao menos 80 segundos, projetado em larga escala, mas totalmente ignorado pelas centenas de pessoas na sala de conferência do Washington Marriott Marquis, que voltavam sua atenção para Trump. 

Mas o símbolo modificado foi projetado no presidente, com a águia russa, uma alusão às acusações de um conluio dele como o Kremlin, e a inscrição em espanhol, uma referência às controvertidas políticas migratórias de Trump e seus ataques aos imigrantes latinos. 

Em vez de “E pluribus unum” (entre tantos, um), Leazott escreveu “45 es un títere” (45 é um mascote), em referência ao 45º presidente dos EUA. 

“Eu sou um designer gráfico, é apenas algo que eu fui juntando”, disse. “Isso foi apenas uma coisa boba que fiz para algumas pessoas que eu conhecia. Não tinha nenhuma ideia que acabaria assim.” 

Responsável

Na manhã de quinta-feira, o porta-voz do Turning Point disse que o grupo tinha identificado o funcionário responsável for transformar o selo falso de Leazott em um ‘trending topic’ na internet. Ele chamou o incidente de um erro cometido às pressas, o resultado de uma busca online para encontrar uma foto de alta resolução do selo para projetar no palco de Trump. Um erro inaceitável, concluiu. 

Mas Leazott não acredita nisso. Ele acha que quem quer que tenha sido responsável sabia exatamente o que ele estava procurando. Ele acredita que a pessoa usou o selo que ele criou intencionalmente. 

Depois que a matéria do Post foi publicada, os detetives da internet também começaram a procurar a imagem. Eles descobriram um mercado on-line que Leazott criou para vender camisas e adesivos com o selo, junto com outras roupas “de resistência”. E os internautas querem comprar suas coisas.

Leazott começou a ganhar dinheiro e a atender pedidos de entrevistas por todo país. As pessoas queriam apoiá-lo. Mas também vieram os trolls. “O pior tem sido o Facebook”, disse ele. “Caramba, com a quantidade de mensagens odiosas no Facebook, é aparentemente uma afronta pessoal para algumas pessoas.”

Mas Leazott disse que foi ele quem deu a última risada. Uma foto de Trump na frente de seu selo está agora no plano de fundo de seu computador. “A pessoa que usou o selo ou é descontroladamente incompetente ou é o melhor troll de todos os tempos. De qualquer forma, eu a amo”. / W. POST 

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