Justin Lane/EFE/EPA
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Fartos de notícias políticas, americanos evitam audiências de impeachment

Exatamente quando a informação é mais necessária, ela parece mais ilusória para muitos americanos

Sabrina Tavernise e Aidan Gardiner / The New York Times , O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 07h00

WASHINGTON - No norte de Nova York, Travis Trudell recebeu um alerta em seu telefone na manhã de quarta-feira, dizendo que as audiências de impeachment haviam começado. Mas ligou na Disney Plus. Em Wisconsin, Jerre Corrigan nem pensou em assistir. Passou o dia dando aulas de matemática para alunos da terceira série. Em Idaho, Russell Memory teve um dia atarefado como programador de computador e imaginou que se informaria melhor em algumas semanas, quando as audiências

terminassem.

Os democratas trouxeram a público seu caso contra o presidente Donald Trump na semana passada. Mas, após horas de testemunhos, milhares de reportagens e dias de manchetes, uma coisa ficou clara: muitos americanos não estavam ouvindo nada.

“Agora é mais difícil, eles querem agarrar você com essas manchetes”, disse Corrigan na noite de quarta-feira em sua casa em Stevens Point, Wisconsin. “Trump fez isso, Trump fez aquilo. Você tem que entrar e realmente pesquisar. E acho que muitas pessoas não fazem isso”. Ela acrescentou: “Simplesmente não sei o que pensar. Você precisaria conhecer os fatos, e agora não sei se a mídia está mostrando os fatos”.

Neste momento político volátil, a informação, ao que parece, nunca foi tão crucial. O país está em processo de impeachment contra um presidente pela terceira vez na história moderna. Uma eleição de alto risco vai acontecer em menos de um ano.

Mas, exatamente quando a informação é mais necessária, ela parece mais ilusória para muitos americanos. A ascensão das mídias sociais, a proliferação de informações on-line (incluindo notícias destinadas a enganar) e uma enxurrada de notícias tendenciosas estão levando a uma exaustão geral com a própria ideia de informação.

Acrescente a isso um presidente cujo registro documentado prova que faz declarações falsas regularmente. O resultado é uma nova e estranha normalidade: muitas pessoas estão entorpecidas e desorientadas, tentando discernir o que é real nesse mar de distorções, falsidades e fatos.

Uma pesquisa divulgada na semana passada descobriu que 47% dos americanos acreditam que é difícil saber se as informações são verdadeiras. Apenas 31% acham fácil. Cerca de 60% dos americanos dizem que veem com frequência reportagens conflitantes sobre o mesmo conjunto de fatos em fontes diferentes, de acordo com a pesquisa, realizada pela Centro de Pesquisa para Assuntos Públicos Associated Press-NORC e pela USAFacts.

“Agora, mais do que nunca, as linhas entre reportagem baseada em fatos e comentários opinativos parecem confusas para as pessoas”, disse Evette Alexander, diretora de pesquisa da Knight Foundation, que financia jornalismo e pesquisa. "Isso significa que elas confiam menos no que estão vendo. Estão se sentindo menos informadas."

As pessoas também estão se desligando. Trudell, eleitor sem filiação partidária, parou de prestar atenção às notícias nacionais cerca de um ano atrás. Começou a achar que o noticiário estava tóxico e mentalmente desgastante e que gerava discussões que não tinham fim. Ele decidiu se concentrar na política local e estadual. Como gerente de segurança de um shopping, ele

precisa se preocupar com ladrões de lojas, então era mais útil acompanhar as reformas da justiça criminal do Estado.

A política nacional, disse ele, começou a lembrar os testemunhos oculares. “As pessoas veem coisas totalmente diferentes, mesmo quando muito próximas umas das outras”.

Então, quando teve o dia de folga na quarta-feira, que por coincidência era seu aniversário de 39 anos, ele decidiu tirar um cochilo e ver uns episódios antigos dos Simpsons depois que os filhos saíram para a escola. “Sim, existem tons de cinza, mas e o preto e branco?”, disse ele. “Nós partimos do pressuposto que tudo é tom de cinza agora."

Há boas razões para esse ceticismo. Das novas e poderosas forças digitais que atacam os eleitores americanos, talvez as mais perniciosas sejam as informações projetadas para enganar.

Matt Stanley, administrador de escola e democrata registrado em Crum, Virgínia Ocidental, viu seu candidato ao Congresso, Richard Ojeda, perder feio nas eleições do meio do ano passado. Stanley acredita que o resultado teve a ver, pelo menos em parte, com um fluxo de anúncios negativos no Facebook que apresentavam fotografias falsas com o objetivo de desacreditar Ojeda, entre elas uma que o mostrava de maquiagem e boina rosa.

Mas a parte mais corrosiva veio depois, disse Stanley. O problema não é que as pessoas acreditem nas coisas erradas que viram online, mas que parem de acreditar nas coisas certas – ou em qualquer coisa que seja. Isso o deixou com medo do futuro. "Como ter uma sociedade sem pontos de referência compartilhados?", perguntou ele.

“A mídia social confunde muito as coisas”, disse Stanley, que tem 50 anos. “Há tanta informação tendenciosa que ninguém acredita em nada. Há muita coisa por aí e você não sabe em que acreditar, então é como se não houvesse nada."

As informações falsas são apenas uma parte do problema. Outro é o grande volume de notícias e a crescente proporção de opiniões. O cansaço atravessa linhas partidárias.

“Existem certos programas que, com seu desprezo por Trump, acabam se tornando uma espécie de Derruba-Trump Show”, disse Els Ruijter, de 55 anos, tradutora no subúrbio de Detroit e eleitora independente de esquerda. “É como comer batatas fritas. Tudo cai bem, mas depois me dá um pouco de indigestão."

Ela acrescentou: “Hoje em dia dá um trabalho assustador acompanhar as coisas”.

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Depois, há os próprios políticos, a começar por Trump, que ajudam a criar a confusão afirmando repetidas vezes coisas que vários verificadores de fatos dizem que não são verdadeiras.

“No espaço político, você não precisa mais ter fatos para respaldar suas opiniões”, disse Talia Stroud, diretora do Centro de Engajamento de Mídia da Universidade do Texas. “O resultado é uma população à beira do cinismo, onde as pessoas desconsideram tudo que seja contrário às suas ideias”.

O esfacelamento dos fatos compartilhados pode ser corrosivo para o discurso racional, como na Rússia, onde líderes políticos aprenderam a usar a explosão online muito antes dos Estados Unidos. 

“Eles espalham esse sentimento de que as pessoas vivem em um mundo de conspiração sem fim, de que a verdade é incognoscível e de que tudo o que resta neste mundo confuso é o líder”, disse Peter Pomerantsev, autor de This is Not Propaganda: Adventures in the War Against Reality (Isto não é propaganda: aventuras na guerra contra a realidade). Ele estava se referindo ao presidente russo, Vladimir Putin, e outros governantes autoritários. Trump, disse ele, também tem esse

estilo.

Sensação transgressora em ver líderes negando fatos

Pomerantsev, que trabalhou em uma emissora de televisão russa no início dos anos 2000, disse que há uma sensação transgressora em ver os líderes fortes negando os fatos.

“Vamos perder o jogo se não entendermos quanto prazer seus apoiadores sentem com isso”, disse ele. “Ele realmente disse isso? Você não consegue parar de olhar para ele. Tem a ver com o poder. Mas também tem algo de anárquico, tem uma estranha liberdade nisso. "

O grau de alienação também é novo. No final da década de 70, quase três quartos dos americanos confiavam em jornais, rádio e televisão. Walter Cronkite lia as notícias todas as noites, e a maioria dos americanos ia para a cama com o mesmo conjunto de fatos, mesmo que tivessem opiniões políticas diferentes. Nos dias de hoje, menos da metade dos americanos confia na mídia, de

acordo com o Gallup.

O declínio da confiança é particularmente pronunciado por partido. Hoje, cerca de 69% dos democratas têm muita confiança na mídia, em comparação com apenas 15% dos republicanos e 36% dos independentes, segundo o Gallup.

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Os democratas Bill Clinton, em 1998, e Andrew Johnson, em 1868 foram absolvidos pelo Senado; em 1974, Nixon renunciou antes da votação

Está sendo publicado um novo trabalho acadêmico que argumenta que a rejeição às notícias não tem a ver com esquerda ou direita. Benjamin J. Toff, professor assistente de jornalismo e comunicação de massa da Universidade de Minnesota, conduziu entrevistas detalhadas em Iowa neste verão e descobriu que aqueles que dizem que evitam as notícias tendem a ser mais jovens,

mulheres e mais pobres – pessoas já se desdobram entre o trabalho e a casa, o que torna as horasde avaliação de notícias “a última coisa que elas querem fazer no pouco tempo livre”, disse Toff.

“Elas têm a noção de que precisam ser céticas em relação a tudo o que está por aí, mas não têm tempo para entender o que isso significa”, disse ele. / TRADUÇÃO ROBERTO MAZZUCCO 

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