Krista Schlueter/NYT
Fãs americanos de k-pop reunidos em Newark, New Jersey Krista Schlueter/NYT

Fãs de k-pop renovam táticas contra Trump

Jovens com grande capacidade de mobilização vêm sabotando eventos de campanha do presidente e da extrema direita nos EUA

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 04h00

O k-pop – música pop coreana – é um fenômeno que ultrapassa fronteiras e atrai jovens do mundo inteiro em comunidades leais. Devotos, eles dominam o Twitter, mas se organizam também pelo TikTok, Facebook, Instagram e outras redes sociais. Recentemente, esse exército de fãs decidiu entra na campanha eleitoral dos EUA, tirando o sono do presidente Donald Trump. 

Em junho, Amanda Method, de 34 anos, foi uma das centenas de fãs de k-pop que reservaram ingressos para o comício de Trump em Tulsa, sem ter a menor intenção de usá-los. Impedida de participar de protestos, por ser PcD (pessoa com deficiência), a jovem viu na “pegadinha” online uma forma de se somar a outras vozes. “Aderi assim que fiquei sabendo”, conta. “Reservei uma entrada para cada membro da minha família.”

O movimento, puxado por contas do TikTok e do Twitter, ganhou os holofotes após o esvaziamento do comício – contrariando as expectativas republicanas, só 6,2 mil pessoas compareceram. Há meses, fãs do k-pop se unem nas redes para sabotar hashtags da extrema direita, arrecadar fundos para movimentos sociais e driblar os aplicativos de vigilância para proteger a identidade de manifestantes.

Amanda participou de algumas dessas ações. “Estou farta dos constantes maus tratos às minorias de todo o tipo neste país, e queria falar em nome delas”, conta. “Grandes bases de fãs, como as do k-pop, podem ser uma ferramenta útil. Já temos uma organização para espalhar mensagens de forma rápida e clara, e levar a informação certa aos lugares certos é o recurso mais valioso neste momento.” 

A demonstração de força no comício de Trump colocou os fãs de k-pop e os usuários do TikTok no centro do debate eleitoral. Apartidários ou pluripartidários, politicamente conscientes, eles têm em mãos o engajamento orgânico, tão desejado por campanhas políticas, e, a julgar por recentes 'chamados às armas' em redes sociais, continuam dispostos a usar sua força para atrair atenção para as causas em que acreditam. 

“Sabotamos o comício de Trump porque ele pretendia fazê-lo no dia do Juneteenth, que marca a libertação dos escravos nos EUA”, diz uma adolescente, que preferiu se identificar apenas como Jennah. “Ele também pretendia fazê-lo em Tulsa, onde um massacre racial aconteceu. Sabotamos porque achamos que seria uma injustiça alguém como Trump fazer esse comício em uma época tão sensível.”

Jennah afirma que os fãs do gênero tendem a ser progressistas, por serem pessoas de diferentes países, raças, religiões, classes, orientações sexuais e identidades de gênero. “A força motriz de qualquer movimento ou organização é a diversidade e a paixão, e temos essas duas coisas. Assim, quando convocados para uma boa causa, temos a capacidade de aparecer em números que podem ser ótimos para criar mudanças.”

Diversidade

Acusados por políticos e influenciadores republicanos de serem parte de um esquema de “interferência estrangeira”, os fãs de k-pop são também americanos. De acordo com a Blip, empresa privada de pesquisas, o país foi o quarto maior consumidor de conteúdo de k-pop no Youtube no ano passado. Em 2020, segundo o Spotify, os EUA foram o país que mais escutaram o gênero musical. E, embora seja difícil traçar um perfil dos fãs de k-pop – a maioria das estatísticas é incompleta –, é inegável que essa base vem mudando ao longo dos anos. 

“Se você voltar 15 anos, a maioria desses fãs seriam asiáticos-americanos, ou pessoas asiáticas morando temporariamente nos EUA”, afirma a professora de Línguas e Culturas do Leste Asiático da Universidade De Indiana, CedarBough Saeji. “Mas, durante a última década, principalmente negros fizeram muito para apoiar e espalhar o k-pop, assim como muitos latinos que moram nos EUA.” 

Frequentemente estereotipado e associado a meninas adolescentes, o k-pop ultrapassa fronteiras, afirma a professora. Seus fãs têm se sido atuantes no mundo todo. “Vimos isso no passado. Na Indonésia, fãs do gênero participaram de mobilizações políticas. Na Índia, eles se manifestaram contra o nacionalismo hindu de Narendra Modi”, afirma Saeji. “Parte da atração pelo k-pop vem junto com essa visão idealista por um mundo melhor.” 

Ela afirma não ter ficado surpresa com a mobilização. “Só porque alguém é fã de k-pop não significa que não haja outras coisas na sua cabeça. Sim, os fãs amam k-pop, mas, ao mesmo tempo, estão preocupados com o país e com o racismo sistêmico”, diz. “Então, não fico surpresa que eles tenham feito esse tipo de ação, e acho possível que isso aconteça de novo.” 

Mobilização

Apesar da diversidade, os fãs de k-pop têm algo em comum: o fervor por seus ídolos. De todas as partes do mundo, eles se juntam para organizar votações, pedir músicas em rádios e colocar as bandas nas diferentes paradas musicais. Suk-Young Kim, professora de Estudos Críticos e diretora do Centro de Estudos de Performance da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e autora do livro K-pop Live: Fans, Idols, and Multimedia Performance, explica que a relação dos fãs com a internet é peculiar. 

“A indústria do k-pop é desenhada de um jeito que os ídolos não conseguem ter sucesso, nem crescer, sem a participação dos fãs”, diz. “Suas carreiras dependem disso, principalmente da participação nas mídias sociais.”

Quando os grupos lançam novos álbuns ou clipes, fãs se mobilizam para gerar conteúdo e impulsionar os números do streaming. “É quase como uma organização política ou religiosa para apoiar seus ídolos”, conta Kim. “É uma cultura muito participativa, e eles sabem que têm poder.” 

Ainsley, uma jovem americana de 14 anos, conta que foi esta “máquina” que entrou em funcionamento. “Os fãs de k-pop provaram ser capazes  de criar hashtags que alcançam os trending topics facilmente, e criar ‘festas de votação’ em massa para ajudar nossos ídolos a ganhar prêmios”, diz. “Então, se pararmos de nos concentrar nisso por um tempo e começarmos a votar em massa nas petições e espalhar a hashtag #BLM (#BlackLivesMatter), podemos ajudar a alimentar movimentos positivos.” 

A adolescente conta que os fãs coordenaram ações e “ataques” nas últimas semanas. “A informação é espalhada no Twitter e, em seguida, se espalha para o aplicativo de vídeo TikTok. Quando chega ao TikTok, a maioria dos fãs do k-pop já está ciente. Mas ainda mais pessoas que não fazem parte de fãs-clubes do k-pop passam a participar.” 

Com quase 5 mil seguidores no Instagram, Ainsley também participa de outras formas de mobilização, como a divulgação de petições e arrecadação de dinheiro. 

Os ídolos, por outro lado, costumam ser reticentes em relação à política – embora também façam doações para causas sociais. “Eles são treinados para não se envolver”, afirma Suk-Young. “Da perspectiva das empresas que gerenciam suas carreiras, o objetivo é fazê-los populares para o público geral, e polarizar seus fãs em torno de questões políticas não serve a este propósito.” 

Eleições

Não há ainda um movimento organizado ou partidário formado por fãs de k-pop – embora a reportagem tenha encontrado uma iniciativa recém-criada que busca reunir fãs para ações anti-Trump, além de algumas postagens incentivando que eles se registrem para votar nas eleições de novembro.

Ari, 16, uma jovem que reservou ingressos para alguns comícios de Trump, ajudou a sabotar o aplicativo da polícia de Dallas e assinou petições, acredita que os fãs compartilham alguns valores.  "Eu acho que a maioria dos kpop stans têm a mesma visão. Parecemos ter ideias muito progressistas e mais radicais, provavelmente porque podemos ver o efeito de certas coisas em nossa sociedade do ponto de vista de outras sociedades", diz. 

Ela conta se identificar com o Partido Democrata, ainda que mais à esquerda, mas ainda não pode votar. “Como alguém que mora nos EUA e vê toda a injustiça nesse país, eu me empolguei quando percebi que tinha poder para fazer algo, já que não posso ir às urnas”, diz. “(Participar dessas ações) me fez sentir que eu podia mudar algo”.

Para Saeji, há esperança de que esses fãs se sintam mais politicamente empoderados após eventos como o comício de Tulsa. “Eles sentem que podem fazer a diferença se se juntarem, e voto é a mesma coisa: se nos juntarmos, podemos fazer a diferença”, diz. Mas, ressalta, isso não significa que eles possam ser ‘usados’. “Eu não acredito que um ‘outsider’ possa motivar esses fãs a fazerem algo. Você não pode controlá-los: a única coisa que se pode prever sobre eles é que eles vão apoiar seus ídolos”.

Para conhecer: as 5 músicas de k-pop mais escutadas no Spotify

1. Boy With Luv - BTS feat Halsey

2. Fake Love - BTS

3. Kill This Love - BLACKPINK

4. DNA - BTS

5. DDU-DU DDU-DU - BLACKPINK

 

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'Cultura do k-pop é muito participativa e fãs sabem que têm poder', diz pesquisadora

Para a diretora do Centro de Estudos de Performance da UCLA, Suk-Young Kim, comunidade corporifica uma grande dimensão de ativismo social

Entrevista com

Suk-Young Kim

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 04h30

O envolvimento de fãs de k-pop em recentes eventos políticos nos EUA não deveria ser uma surpresa – é o que acredita a professora de Estudos Críticos e Diretora do Centro de Estudos de Performance da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), Suk-Young Kim. Em entrevista ao Estadão, a autora do livro K-pop Live: Fans, Idols, and Multimedia Performance (K-pop Ao Vivo: Fãs, Ídolos e Performance Multimídia, Stanford University Press, sem tradução no Brasil) afirmou que a comunidade reunida em torno do gênero musical é consciente e se preocupa em gerar impacto social. “Há uma grande dimensão de ativismo corporificada na base de fãs do k-pop”, disse. 

Embora muitos fãs estejam orgulhosos de ações como o esvaziamento do comício de Trump, a sabotagem de hashtags de extrema-direita e a derrubada de um aplicativo de vigilância da polícia de Dallas, Suk-Young afirma que há uma espécie de sentimentos mistos em relação ao envolvimento político. “Alguns estão preocupados porque não querem ser relacionados à política americana e sofrer algum tipo de represália, até por toda essa ameaça de banimentos de aplicativos como o TikTok que Trump anda fazendo”, explica. 

Confira a entrevista completa: 

O que se sabe sobre os fãs de k-pop, na Internet e fora dela, em termos demográficos?

É um pouco difícil de saber, mas existem algumas formas de se ter uma ideia. Se você analisar visualizações do YouTube, é possível saber onde estão os espectadores. Antes do BTS, a grande maioria deles estava localizada na Ásia, especialmente no Japão e no sudeste asiático, e a atividade online ainda era restrita na China, mas fãs chineses existiam. Com a ascensão de grupos como o BTS, os padrões se tornaram mais diversos ao redor do mundo. De repente, havia muitos fãs na América do Sul, no México, na África, na Austrália, na América do Norte...em resumo, hoje o k-pop está realmente em todos os lugares, ele é global.

É possível determinar o momento em que o k-pop ‘dominou’ a internet e as mídias sociais no Ocidente?

Se olharmos apenas para a internet, eu acredito que isso tenha acontecido entre os anos de 2011 e 2012. Em 2012, houve uma grande expansão de visualizações no YouTube, principalmente por causa de Gangnam Style, do Psy, que alcançou uma popularidade global (o vídeo se tornou o primeiro a ultrapassar 1 bilhão de visualizações no Youtube) – embora eu não concorde que Psy é k-pop, o que ele faz naquele vídeo é uma paródia do k-pop. Por causa do interesse nele, as pessoas estavam olhando mais para a música coreana, então eu acredito que foi nesse momento que ela se tornou global. Em termos de shows ao vivo, isso aconteceu mais ou menos na mesma época. Em 2011, a Super Junior fez sua primeira tour mundial, com ingressos esgotados, e acho que foi a primeira vez que uma banda de k-pop se apresentou fora da Ásia.

A forma como os fãs de k-pop consomem conteúdo na internet é muito diferente se comparada a outros grupos de fãs?

Sim. Muito. Os fãs de k-pop, mesmo antes de bagunçar com o comício do Trump em Tulsa, reservando tickets e não aparecendo, já usavam as mídias sociais para participar e moldar as carreiras dos seus ídolos, comprando, dando streamings...porque a indústria do k-pop é desenhada de um modo que os ídolos não podem fazer sucesso, nem crescer, se não houver participação dos fãs. Quando  os grupos lançam novos álbuns, os fãs se mobilizam para gerar os conteúdos mais retuítados, e quando os músicos lançam um novo clipe, os fãs estão constantemente dando streamings. Eles assistem sem parar para inflar as estatísticas, de modo que as músicas consigam entrar nas paradas musicais. Então é como se fosse uma organização política ou religiosa em que eles estão completamente mobilizados para dar apoio aos seus ídolos. Eles realmente enxergam isso como uma cultura participativa e sabem que têm poder, então é bem diferente de, por exemplo, fãs de Taylor Swift usando as mídias sociais. Porque os fãs de k-pop sabem que o destino dos seus ídolos literalmente depende deles.

Então essa mobilização online não te surpreendeu?

Não, de jeito nenhum. Honestamente, me deixou orgulhosa. Geralmente o k-pop é "varrido para lá" como esse tipo de música de entretenimento boba e adolescente. Norte-americanos realmente têm uma resistência em relação ao gênero. Eles acham que é um tipo de música fake, que são robôs dançando...mas na verdade há uma grande dimensão de ativismo social corporificada na base de fãs do k-pop. Geralmente, o que eles fazem é realmente pensar sobre o impacto social  que podem gerar. Quando os ídolos fazem shows em uma cidade, por exemplo, geralmente os fãs doam dinheiro para a caridade local. Eles são muito conscientes em relação a gerar bom impacto social, então isso não me surpreende de forma nenhuma. 

Essas mobilizações recentes, como o caso do comício de Trump e a sabotagem do aplicativo da polícia de Dallas, empoderaram politicamente a comunidade de fãs de k-pop?

É interessante. Eu acho que os fãs que participaram estão muito orgulhosos disso. Eu venho seguindo algumas contas no Twitter para ver o que eles realmente dizem sobre. Eu acho que eles estão muito orgulhosos disso porque se veem como parte do movimento Black Lives Matter. E uma coisa notável sobre fãs de k-pop, principalmente nos Estados Unidos, é que muitos são afro-americanos. Porque a influência do k-pop é forte em fãs que pertencem a minorias, em pessoas que sentem que não se encaixam na cultura de Hollywood, na cultura da Billboard, eles se veem como uma extensão do Black Lives Matter e se orgulham disso.

No entanto, alguns fãs de k-pop na Coreia estão preocupados, porque eles não querem ser relacionados à política americana e potencialmente sofrer algum tipo de represália, até por toda essa ameaça de banimentos que Trump anda fazendo, como no caso do TikTok. Então eles se preocupam com esse tipo de reação do governo dos EUA. Mas isso ainda não aconteceu, então...de certa forma, eu acho que há uma espécie de sentimentos mistos em relação a isso.

Qual é a posição dos ídolos e da indústria, nesse sentido?

É uma resposta clara: os ídolos não são encorajados a participar da arena política de forma nenhuma. Eles são treinados para não se envolver em política, porque, da perspectiva das empresas que gerenciam suas carreiras, o objetivo é que eles sejam populares de forma geral, para todos os grupos. Então eles realmente não são encorajados a se envolver ou a falar sobre. Quando eles fazem algo nesse sentido, há sempre alguma espécie de represália. Sim, algumas vezes ídolos voluntária ou involuntariamente acabaram se envolvendo, e o resultado foi uma péssima reação a isso.

Mas o BTS doou US$ 1 milhão para o movimento Black Lives Matter. Foi uma exceção, um caso isolado?

Não foi um caso isolado, mas apareceu na mídia porque eles são muito conhecidos e populares. Não é uma exceção porque outros ídolos doaram para outras causas sociais, como por exemplo quando o Japão sofreu aquele terremoto terrível em 2014. Mas o BTS é realmente um pouco diferente do resto porque eles tendem a ser um pouco mais abertos em relação a algumas visões políticas, como no caso do Black Lives Matter. No discurso que deram na ONU, como embaixadores para a campanha Love Myself (Amar a mim mesmo, em tradução livre), a base é que você devia amar a si mesmo independentemente da sua raça, gênero ou orientação sexual, então eles mencionaram a comunidade de fãs LGBT como parte do que eles apoiam e de quem eles amam. Então nesse sentido, eles caminham por terrenos mais delicados, mas eles fizeram isso de um jeito muito cuidadoso. Eles são tipo mestres em mandar mensagens positivas, em serem um pouco mais politicamente abertos do que outros grupos de k-pop.

Você acredita que essas recentes mobilizações possam de alguma forma afetar o cenário das eleições de novembro, ou as próximas, ou outros eventos políticos no mundo?

Eu acho que elas terão impacto nas eleições na extensão em que você está ‘pregando para o coro’, pregando para a sua base. A base de fãs de k-pop...a maioria dela é formada por minorias, afro-americanos, ao menos nos Estados Unidos. Mas também acho que isso pode alienar uma parte dos fãs porque...quando eu sigo grupos no Twitter e outros aplicativos, ocasionalmente há fãs de k-pop que são republicanos fervorosos e apoiadores de Trump. E eles sentem que o k-pop não deveria estar se envolvendo em política...mas eles são minoria. A maioria dos fãs de k-pop são geração Z, millennials, que estão muito descontentes com o governo atual, então acho que isso terá um impacto na medida em que solidifica uma espécie de base de fãs democratas. Eu não acho que isso vá criar um novo movimento, mas reafirmar e solidificar o que já vem acontecendo na base de fãs.

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