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Fase ruim para o Hezbollah

O Hezbollah vive um período de duros golpes, com sua estrutura militar e suas fontes de financiamento duramente atingidas. Há cerca de dez dias, a milícia xiita libanesa anunciou a morte do seu comandante militar, Mustafa Badreddine, em consequência de uma explosão numa base não muito longe do aeroporto de Damasco. 

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2016 | 05h00

Após curto período de hesitação, a milícia responsabilizou grupos rebeldes da Síria pela explosão, sem precisar, exatamente, se o que ocorreu foi um atentado a bomba ou disparos de artilharia. Assim, tratou-se de um desaparecimento cercado de denso mistério encerrando a intrépida carreira de um de seus líderes mais enigmáticos. 

Cunhado do célebre Imad Mughniyé, que também morreu em 2008 perto de Damasco na explosão de um carro-bomba, Badreddine o sucedeu no comando da milícia. Nessa data, já tinha construído uma carreira: preso e condenado à morte no Kuwait por atividades terroristas, apenas se salvou com a invasão do emirado pelos iraquianos, que libertaram todos os prisioneiros, em 1990 – no episódio que levou à eclosão da Guerra do Golfo.

Entretanto foi em 2011 que Mustafa Badreddine, cujo gosto pelo segredo o levava a ter um comportamento discreto, alcançou uma sinistra celebridade, ao ser designado pelo tribunal especial para o Líbano como o cérebro do atentado a bomba que, seis anos antes, custou a vida do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri e cerca de 20 membros da sua comitiva. Claro que o Hezbollah recusou-se a entregá-lo, e seus cúmplices, à Justiça libanesa.

Com Badreddine desaparece o único elo na cadeia de comando do Hezbollah que permitiria à Justiça internacional chegar até o líder máximo do grupo, o xeque Hassan Nasrallah, e assim incriminar o Hezbollah em vez dos quadros da milícia.

Seja como for, o tribunal especial anunciou que, no que se refere a ele, as ações contra Badreddine serão mantidas enquanto não for entregue, eventualmente por meio de análise do DNA, a prova formal da sua morte.

Entretanto, para o Hezbollah, tão grave quanto o desaparecimento brutal de Badreddine é também a determinação dos bancos libaneses de cumprir escrupulosamente o Hezbollah International Financing Prevention Act, votado no final de 2015 pelo Congresso americano. 

Esta lei prevê sanções contra toda instituição de crédito que realizar transações com a milícia ou lavar fundos em benefício da instituição.

Bloqueio financeiro. De acordo com fontes bancárias em Beirute, o objetivo principal dos Estados Unidos é impedir o fluxo de dinheiro, sobretudo iraniano, para o Hezbollah, agora que estão suspensas as sanções internacionais contra a república islâmica, tendo em vista a assinatura do acordo nuclear.

Em duas circulares expedidas no início de maio, o presidente do banco central libanês Riad Salamé sublinhou que, para preservar o sistema bancário e sua rede de correspondentes no estrangeiro, o Líbano não tem outra saída senão se conformar à lei americana.

Salamé, aliás, fixou as modalidades de aplicação dessa lei, esclarecendo especialmente que os salários dos ministros e deputados do Hezbollah continuarão a ser normalmente pagos pelo Estado, desde que tais fundos não sirvam para financiar atividade do partido pró-iraniano.

E advertiu os bancos contra qualquer medida excessiva que extrapole as exigências americanas, como o fechamento arbitrário de contas de clientes.

Apesar dessas garantias, o Hezbollah de início reagiu com veemência às decisões do presidente do banco central, acusando-o de ser instrumento, e até cúmplice, de um complô americano com o objetivo de eliminá-lo.

Estas acusações foram muito mal recebidas pela comunidade empresarial e a Associação de bancos do Líbano apoiou vigorosamente Riad Salamé; querendo ou não, o grupo teve de se resignar, pelo menos aparentemente.

Embora poderoso localmente, ele sabe muito bem que se empurrar para o suicídio o setor bancário, principal pilar de uma economia libanesa fortemente dolarizada, pode perder uma grande parte da sua popularidade, mesmo entre seus próprios seguidores.

As perdas sofridas pelo grupo na guerra da Síria (1.200 a 2.000 combatentes mortos, segundo estimativas sérias) já causaram tumultos no âmbito da população xiita. E este descontentamento se manifestou nas eleições municipais que resultaram, em mais de uma circunscrição, na vitória de candidatos xiitas independentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É COLUNISTA DO ‘ESTADO’ E JORNALISTA RADICADO EM BEIRUTE

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