Rina CastelNuovo/The New York Times
Rina CastelNuovo/The New York Times

Fatah e Hamas anunciam acordo de reconciliação, sob críticas de Israel

Facções rivais selam pacto preliminar que encerraria quatro anos de divisão entre Cisjordânia e Gaza, com a formação de governo provisório e eleições gerais; governo israelense acusa Autoridade Palestina de ter adotado uma posição radical

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

TEL-AVIV

Após quatro anos de divisão, as facções palestinas Hamas e Fatah anunciaram ontem um acordo preliminar de reconciliação. Negociado em reuniões secretas no Cairo, o pacto prevê a formação de um governo interino, a fixação de uma data para as eleições e a libertação de presos políticos. No entanto, restam em aberto várias questões-chave - como, por exemplo, a unificação das forças dos dois lados.

Israel imediatamente condenou a decisão do Fatah, que controla a Autoridade Palestina (AP). "A AP deve decidir entre a paz com Israel e a paz com o Hamas, que quer nos destruir", disse o primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu.

O Hamas venceu as eleições de 2006 e formou uma coalizão com o histórico rival Fatah. No entanto, o grupo islâmico tomou o poder violentamente na Faixa de Gaza, em 2007, expulsando as forças leais ao presidente Mahmoud Abbas, líder moderado do Fatah.

Desde então, o Hamas controla a Faixa de Gaza e o Fatah, a Cisjordânia. Segundo Netanyahu, a reconciliação expõe a fraqueza da AP e levanta a possibilidade de o Hamas tomar o poder também na Cisjordânia.

"Temos agora um acordo completo, concordamos em todos os assuntos", disse Azzam al-Ahmed, negociador do Fatah. Por duas vezes, Hamas e Fatah anunciaram ter entrado em acordo - dissolvido logo em seguida. Ontem, porém, as duas facções disseram que Abbas e o chefe político do Hamas, Khaled Meshal, assinarão o pacto no Cairo, dia 5.

Apesar de ter pego de surpresa muitos países, incluindo Israel, o anúncio não surpreendeu o especialista palestino Khalil Shaheen. "O momento é propício para ambas as facções, que querem atender as vozes do povo que pedem união. A crise na Síria, tradicional parceiro do Hamas, e a formação do novo regime egípcio também foram fatores determinantes", analisa.

Para Shaheen, o acordo foi concluído graças à pressão do Cairo. "Agora, o Egito está mais próximo do Hamas. O grupo islâmico, por sua vez, tem interesse em ter boas relações com o país para aproximar-se da Irmandade Muçulmana e conseguir a reabertura da passagem fronteiriça de Rafah, que liga o território palestino ao Egito."

O analista avalia que, para Abbas, a principal vantagem do acordo é a "legitimidade" que a união dá a seu governo diante da insatisfação palestina com o estagnado processo de paz.

O especialista israelense Gershon Baskin diz que "ainda é cedo" para comemorar. "Não existe a possibilidade de o Hamas aceitar as condições impostas pelo Quarteto para o Oriente Médio, que incluem o reconhecimento do Estado de Israel, o cumprimento de acordos anteriores e a renúncia à violência."

EUA

O porta-voz do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, Tommy Vietor, disse ontem que a Casa Branca está à espera de "mais informações" antes de se pronunciar sobre o pacto palestino

RIXA ANTIGA

Janeiro de 2006 - Pela 1ª vez, Hamas consegue mais cadeiras no Parlamento que Fatah. Partido se recusa a reconhecer Israel e a respeitar acordos de paz firmados

Fevereiro de 2006 - Hamas aceita formar uma coalizão liderada pelo Fatah

2007 - Forças do grupo islâmico expulsam o rival Fatah de Gaza e passam a controlar o território. Cisjordânia fica com a facção de Mahmoud Abbas

2008/2009 - Israel lança ofensiva em Gaza para cessar disparos de foguetes do Hamas. Mais de mil palestinos morrem

2011 - Hamas e Fatah anunciam acordo de união nacional

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