Fatah pedirá reconhecimento de Estado palestino à ONU apesar de Obama

Assessor de Abbas critica declaração de premiê de Israel sobre plano com bases em fronteiras de 1967 ser 'ilusão'

Guila Flint, BBC

21 de maio de 2011 | 07h36

Um dos principais assessores do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse neste sábado que os palestinos vão seguir adiante com o plano de pedir à ONU em setembro o reconhecimento de um Estado de acordo com as fronteiras de 1967.

Nabil Shaat afirmou que a medida será tomada apesar da oposição do presidente dos EUA, Barack Obama.

Em discurso sobre a política americana em relação ao Oriente Médio, pronunciado na quinta-feira, Obama afirmou que "ações simbolicas para isolar Israel na votação da ONU em setembro não vão criar um Estado independente".

Um dos principais líderes do Fatah - partido do presidente Abbas -, Shaat também reagiu ao pronunciamento do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, feito durante encontro com Obama na sexta feira.

Netanyahu rejeitou o chamado de Obama por um acordo de paz com os palestinos baseado nas fronteiras pré-1967, afirmando que Israel está pronto para fazer concessões, mas que não poderia haver paz "baseada em ilusões".

Hamas

Obama defende que as fronteiras anteriores à guerra de 1967, quando Israel ocupou Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, seriam a base para as negociações de paz.

"Não penso que podemos falar sobre um processo de paz com um homem que afirma que as fronteiras de 1967 são uma ilusão, que Jerusalem é indivisível e que não quer o retorno de um refugiado palestino sequer", disse Shaat.

O premiê de Israel argumentou que as fronteiras de 1967 são "indefensáveis" e reiterou reinvindicações de manter os grandes blocos de assentamentos israelenses na Cisjordânia e o controle militar sobre a fronteira leste da região, ao longo do Rio Jordão.

O porta-voz de Abbas, Nabil Abu Rodeina, disse que os palestinos pedirão a Obama que pressione Israel a aceitar as fronteiras de 1967. Rodeina também disse que a posição de Netanyahu significa "uma rejeição oficial" à iniciativa do presidente americano.

O grupo Hamas, que controla a Faixa de Gaza, declarou que o discurso de Netanyahu em Washington "demonstra que as negociações com Israel seriam inúteis".

Segundo o porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, o pronunciamento de Netanyahu prova que "é um erro acreditar que algum acordo seria possivel".

"O Hamas não vai reconhecer a ocupação israelense em qualquer parte da Palestina", disse Abu Zuhri.

O presidente americano, Barack Obama, e o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disseram nesta sexta-feira que têm "diferenças" a respeito do processo de paz entre israelenses e palestinos.

"Obviamente há algumas diferenças entre nós sobre a linguagem e formulação precisas (nas negociações de paz), e isso vai ocorrer entre amigos", disse Obama, em um pronunciamento conjunto dos dois líderes à imprensa após reunião na Casa Branca.

A visita de Netanyahu a Washington já estava agendada, mas ganhou uma dose a mais de tensão após Obama ter dito, em discurso na quinta-feira, que um futuro Estado palestino deve ser baseado nas fronteiras existentes antes do conflito de 1967 - reivindicação feita pelos palestinos e rejeitada por Israel.

Ao falar depois de Obama, o premiê israelense também mencionou as diferenças.

"Eu acho que nós podemos ter diferenças aqui e ali, mas eu acho que no geral nós desejamos trabalhar juntos para buscar uma paz real e genuína entre Israel e seus vizinhos palestinos, uma paz que seja defensável", disse Netanyahu.

'Ilusões'

O premiê israelense voltou a rejeitar a ideia apresentada por Obama em seu discurso e a dizer que as fronteiras de 1967 são "indefensáveis".

"Ao mesmo tempo que Israel está preparado para um generoso compromisso pela paz, não pode voltar ao traçado de 1967, porque esse traçado é indefensável", disse o premiê israelense.

"Ele não leva em conta certas mudanças demográficas em solo que ocorreram nos últimos 44 anos", afirmou.

Segundo Netanyahu, esse traçado iria isolar assentamentos de Israel na Cisjordânia. Calcula-se que cerca de 500 mil israelenses vivam nesses assentamentos - que são considerados ilegais pela lei internacional, avaliação rejeitada por Israel.

As fronteiras de 1967 referem-se ao traçado existente antes da Guerra dos Seis Dias, na qual Israel anexou ao seu território a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, que pertenciam à Jordânia, além da Faixa de Gaza e da Península do Sinai (sob controle do Egito) e das Colinas de Golã (da Síria).

Netanyahu disse ainda que a paz no Oriente Médio não pode ser "baseada em ilusões".

"Israel quer a paz. Eu quero a paz. O que todos nós queremos é uma paz que seja genuína, que permaneça, que dure", disse Netanyahu.

"Acho que nós dois concordamos que uma paz baseada em ilusões vai acabar se esfacelando nas pedras da realidade do Oriente Médio."

'Ilusões'

Segundo Obama, na reunião na Casa Branca os dois líderes discutiram a recente onda de revoltas populares pró-democracia em vários países árabes e muçulmanos do Oriente Médio e do norte da África e concordaram que essas manifestações representam uma "oportunidade", mas também "riscos".

As declarações de Obama sobre as fronteiras de um futuro Estado palestino foram feitas no meio de um discurso amplo sobre o Oriente Médio que, segundo o próprio presidente americano, marcou o início de "um novo capítulo" na diplomacia americana para a região.

A manifestação do presidente americano desagradou aos israelenses, mas ganhou declarações de apoio por parte de vários líderes mundiais.

Os integrantes do "Quarteto" - grupo de mediadores para a paz no Oriente Médio formado por Estados Unidos, Rússia, União Europeia, Nações Unidas para negociar - divulgaram um comunicado no qual manifestam "forte apoio" à "visão" apresentada por Obama.

O grupo Hamas, porém, que controla a Faixa de Gaza, criticou a proposta de Obama.

Impasse

No início do mês, o Hamas e o Fatah, que controla a Cisjordânia, anunciaram um acordo que abriria caminho para um governo conjunto e a realização eleições no próximo ano.

A medida agravou o impasse nas negociações de paz, já que Israel e os Estados Unidos consideram o Hamas um grupo terrorista.

Nesta sexta-feira, Netanyahu voltou a dizer que Israel não vai negociar com um governo palestino apoiado pelo Hamas, e descreveu o grupo como "uma versão palestina da Al-Qaeda".

A última rodada de negociações foi interrompida no ano passado, em meio a um impasse entre os dois lados sobre a construção de novas casas em assentamentos israelenses no território palestino da Cisjordânia.

Os palestinos querem que Israel interrompa as novas construções, exigência recusada pelo governo israelense.

Na semana passada, o enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, George Mitchell, anunciou sua renúncia, depois de dois anos no cargo sem conseguir fazer avançar o processo de paz.

Netanyahu fica em Washington até a semana que vem.

A agenda do premiê isralense inclui ainda um discurso ao Congresso dos Estados Unidos e à conferência anual da Aipac, organização do lobby americano pró-Israel.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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