REUTERS/Benoit Tessier
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Fator terrorismo

Candidatos creem que eleição será afetada, mas só Macron e Fillon reagiram com sensatez

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2017 | 05h00

Sabemos que os terroristas do Estado Islâmico acompanham de perto os meandros da política francesa. E confirmaram: três dias antes do primeiro turno da eleição presidencial, amanhã, elementos seguidores do EI entraram em ação: na noite clara desta primavera parisiense, a Avenida Champs-Elysées foi atacada e um policial foi morto.

O grupo radical rapidamente reivindicou a autoria do crime. Na verdade, ninguém duvidava disso. O alvo dos assassinos já era uma confissão (ou uma reivindicação): a morte de um policial, ou seja, um destes heroicos funcionários que expõem sua vida para proteger a população.

O local era emblemático. A Avenida Champs-Elysées em Paris é uma das mais ilustres do planeta, o que garantiria o máximo de repercussão. E a data simbólica: algumas horas antes de uma eleição presidencial.

Temos observado com frequência que o Estado Islâmico, que já teve metade de seus membros expulsos de seus redutos na Síria e Iraque, há alguns meses vem sendo obrigado a “franquear” seus atentados. 

Os ideólogos do crime apenas dão seu aval aos ataques executados por lobos solitários, jovens radicalizados que vivem na Europa e se arranjam sozinhos para matar usando variados meios rudimentares: um caminhão contra uma multidão ou, como na quinta-feira, abater um homem (um policial de preferência) com uma arma automática.

A eleição de domingo será afetada por esse horror?

Os candidatos acreditam que sim. Já na noite de quinta-feira todos procuraram uma emissora de rádio ou um canal de TV para se manifestarem. Philippe Poutou, candidato trotskista, repetiu novamente que a polícia não deve andar armada. Pobre Poutou! É tão ingênuo que chega a ser indecente.

E Marine Le Pen, candidata da extrema direita fascista, aproveitando-se da situação para se beneficiar, saltou sobre o primeiro microfone para clamar seu ódio aos imigrantes e ao islamismo. Explicou que, se eleita, não haverá mais atentados por uma razão simples: os assassinos “não poderão mais entrar no nosso país”, afirmou.

As reações dos outros candidatos foram mais inteligentes. Mesmo Jean-Luc Mélenchon esqueceu um instante a sua “vulgata” esquerdista, afirmando que “é preciso mostrar que os violentos não terão a última palavra contra os republicanos”.

Medidas sérias. Mas foram dois candidatos, Emmanuel Macron, de centro, e François Fillon, da direita tradicional, que se mostraram mais sensatamente determinados e reclamaram medidas sérias a respeito.

Macron sugeriu a criação de uma força-tarefa contra o Estado Islâmico que atuaria por tempo ininterrupto ao lado do presidente da república, encarregada de coordenar os serviços de inteligência. Fillon, ex-primeiro ministro de Nicolas Sarkozy de 2007 a 2012, também falou da necessidade de se adotar medidas mais severas. Mas, sobretudo, chamou a atenção para sua experiência política de 30 anos. E sem dúvida tem razão: diante de sacripantas como os elementos do Estado Islâmico é útil ter experiência e uma aparência não tão juvenil.

Este é um argumento um pouco curioso, mas que se sustenta. Quando observamos o perfil elegante e desenvolto de Macron, o belo rosto dos seus 38 anos, perguntamos se ele terá a envergadura, o sangue frio e o poder de se opor às forças satânicas do Estado Islâmico. Por outro lado, a figura mais aguerrida de François Fillon, austera e quase rebarbativa, seus ombros sólidos, suas espessas sobrancelhas, tudo isso inspira confiança.

Estamos longe de uma análise política séria, mas os elementos irracionais também têm seu papel em circunstâncias extremas. Se um dos candidatos deve se beneficiar do medo que se abateu sobre Paris e a França, parece-me que será o duro e triste Fillon. Ele poderá recuperar ligeiramente (muito ligeiramente) a defasagem com relação ao afável, sorridente e juvenil Macron.

A questão é que Napoleão Bonaparte, quando cobriu a França de glória e a Europa de estupor, durante a campanha da Itália (Arcole, Catiglione, Rivoli, etc, em 1796), tinha pouco mais de 20 anos.

Mas era Napoleão Bonaparte. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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