Damon Winter/The New York Times
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Fatos alternativos

Trump age como apresentador de reality show e mente para assegurar a popularidade

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2017 | 05h00

Fato alternativo. Como definiu a assessora de Donald Trump, Kellyanne Conway, é uma afirmação que contraria evidências, não se pode provar e continua sendo repetida oficialmente, como a oferecida por seu colega Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, sobre a cerimônia de posse de Trump. Ou a justificativa do presidente para a derrota no voto popular, a preferência de “milhões de imigrantes ilegais” por Hillary Clinton, embora eles não possam votar e nenhum indício de que o fizeram tenha sido apresentado às autoridades, que tampouco encontraram irregularidades.

A verdade. Trump perdeu as eleições no voto popular, chegou à Casa Branca com menor aprovação da História moderna, não atraiu o maior público das cerimônias de posse como disse seu porta-voz – e, é claro, nada disso importa agora. Trump é o presidente dos EUA. E entrar em um embate público motivado por seu ego ferido só demonstra despreparo para o posto. Trump age como o apresentador de reality show; não quer ser um bom presidente, mas ter audiência. Mente aos eleitores para assegurar popularidade, e tenta desmoralizar a imprensa, porque a verdade não lhe é favorável.

O problema de agir como um apresentador de reality show movido pela audiência é que no mundo real suas canetadas afetam a vida de bilhões de pessoas.

Fato alternativo. O muro na fronteira com o México e outras medidas agressivas anti-imigração protegeriam os americanos de “criminosos, traficantes e gangues”, disse Trump diante de pessoas que perderam parentes em crimes envolvendo ilegais, pessoas convidadas pelo presidente para servir de plateia à assinatura do decreto, e submetidas ao constrangimento de relatar sua dor publicamente, como nos piores programas de auditório.

A verdade. A fronteira dos EUA com México já é uma das mais patrulhadas do mundo entre dois países em paz. A entrada de mexicanos ilegais nos EUA está em queda desde 2009, enquanto aumentou o número de asiáticos, centro-americanos e africanos, segundo o Pew Research Center. Mas a experiência sugere que o controle maior pode ter efeito contrário: até os anos 90, mexicanos iam e voltavam no ritmo da demanda por trabalhadores braçais.

Com maior controle, passaram a fazer a travessia (mais cara e arriscada) uma só vez, com a família e para se estabelecer. Porque são ilegais, trabalham majoritariamente em funções que os americanos desprezam, na lavoura e na construção civil, como temporários. Não tomam, portanto, empregos formais. Nenhum dos muitos estudos ao longo de décadas de imigração para os EUA, comprovou a relação de Trump entre imigração e criminalidade.

Fato alternativo. Bloquear a entrada de refugiados sírios e suspender a imigração do Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen, países muçulmanos, é medida de segurança nacional.

A verdade. Nenhum dos responsáveis por ataques terroristas nos EUA, nos últimos 15 anos, veio dos países que integram essa lista ou descendem de imigrantes ou refugiados desses países. Eles abrigam, sim, grupos terroristas e têm governos que patrocinam o terrorismo, mas é precisamente disso que milhões de civis buscam refúgio.

Um terrorista pode se infiltrar entre eles? Sim. Mas os fatos até agora mostram o contrário: 250 americanos deixaram os EUA para se unir ao Estado Islâmico, segundo o governo. Sua volta e cidadãos inspirados à distância para atentados em seus países representam mais riscos do que um ilegal, que estaria na mira das autoridades.

Fato alternativo. A imprensa faz reportagens “deliberadamente falsas”, como acusou o porta-voz Sean Spicer, e uma cobertura “negativa e desmoralizante” sobre Trump.

Verdade. Trump mente deliberadamente e submete funcionários ao constrangimento de fazer o mesmo. Isso é desmoralizante. A imprensa livre comete muitos e graves erros e vive uma crise, mas busca a verdade e o julgamento de leitores, com acesso a fontes diversas e confiáveis de informação, ainda é a melhor forma de manter os jornalistas fiéis a essa busca.

É essa relação que Trump quer enfraquecer ao mentir, suprimir informações relevantes de sites da Casa Branca, proibir o contato direto de setores do governo com jornalistas e tentar emplacar uma versão alternativa – e falsa – da realidade.

Fatos alternativos não são fatos.

 

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