"Fatwa" de líder muçulmano provoca polêmica no Marrocos

Uma "fatwa" (determinação a ser seguida na religião Islâmica) do líder espiritual do canal de televisão Al Jazira, Youssef Qaradawi, gerou uma grande polêmica no Marrocos, qualificando o país como "terra de guerra" (terra não-muçulmana). Os comentários de Qaradawi geraram reações oficiais e, também, do partido socialista marroquino, que propôs um pacto nacional contra o terrorismo e o totalitarismo.Qaradawi, ideólogo da Al Jazira, tinha pronunciado uma "fatwa" que autorizava os marroquinos a contrair empréstimos bancários para a compra de casas, já que eles "são obrigados a aceitar esse crédito com juros, como ocorre com os emigrantes muçulmanos nos países europeus". Segundo a sharia (lei islâmica), os juros bancários são ilegais.Comparar o Marrocos aos países europeus não-muçulmanos significa, na tradição islâmica, dizer que o país é uma "terra de guerra", e não uma "terra do Islã".Devido a essa alusão, um oficial do Alto Conselho dos Ulemás (teólogos) do Marrocos divulgou um comunicado no qual ele qualifica de inoportuna a "fatwa" de Qaradawi, além de considerar que o líder espiritual "não pode pronunciar ´fatwas´ que tratem de outros países, pois ele nem vive ali, nem conhece sua realidade".O jornal Attajdid, ligado ao Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita) e que tinha publicado a "fatwa" de Qaradawi, viu-se obrigado a ceder diante da pressão política e publicou um artigo de um ulemá (teólogo) marroquino, Mohammed Ruki, que critica Qaradawi. Ruki considera que o Marrocos é uma "terra do Islã" e que "é o único país árabe muçulmano que dispõe de uma autoridade religiosa personificada no monarca".Comendador dos fiéisNo Marrocos, o rei também é "comendador dos fiéis", autoridade religiosa que foi criada na época medieval para que o país não ficasse sob a autoridade religiosa dos califados do Oriente Médio (Iraque e Egito) e da Turquia (otomanos).Além do papel religioso, o título de "comendador dos fiéis" serve para legitimar a autoridade política do monarca, que é considerado, segundo a Constituição, uma "pessoa sagrada".A autoridade religiosa do rei marroquino, ao mesmo tempo que oferece à monarquia um poder absoluto, protege o país contra "as correntes fundamentalistas" que, para muitos marroquinos, querem "restabelecer o califado islâmico" em todo o mundo árabe-muçulmano e não reconhecem os atuais Estados nacionais.A possibilidade de um "califado islâmico" foi imaginada sobre a crença de que todos os países que não aplicam a sharia são "terra de guerra", onde a "aplicação dos mandamentos de Deus" justificaria a luta por qualquer meio, inclusive pela violência.A alusão a essa possibilidade provocou a reação não só do Alto Conselho dos Ulemás, mas também da União Socialista de Forças Populares, cujo primeiro-secretário, Mohamed El Yazghi, propôs no último dia 30 de setembro um pacto nacional contra o terrorismo e o totalitarismo no Marrocos.Pacto contra terrorismo e totalitarismoYazghi, que também é ministro de Urbanismo no Governo de coalizão de Driss Jettou, considera que, além de respeitar a lei, os partidos políticos no Marrocos devem respeitar um pacto nacional contra o terrorismo e o totalitarismo.O primeiro-secretário lembrou que seu partido tinha denunciado o que considerou "responsabilidade moral" dos grupos islamitas nos atentados terroristas de Casablanca do dia 16 de maio de 2003, nos quais 45 pessoas morreram."Hoje, com a detenção de membros de novos grupos terroristas e de outros grupos que pedem o restabelecimento do califado islâmico no Marrocos, é necessário lembrar que essa responsabilidade moral deve ser assumida por aqueles que se escondem atrás de ´fatwas´ de xeques do Golfo", disse o líder socialista.No dia 28 de setembro, um grupo de 13 pessoas foi detido nas cidades marroquinas de Casablanca, Tetouan e Meknes acusados de formar um partido fundamentalista ilegal que reivindica o "restabelecimento" do califado islâmico no Marrocos.Várias organizações fundamentalistas não reconhecem o papel religioso do rei marroquino, como a associação Adl Wal-Ihassan (Justiça e Caridade), cujo líder, Abdel Salam Yassin, pede também o restabelecimento do califado islâmico no Marrocos.O AKP considerou em artigo publicado esta semana no jornal Attajdid que "o pacto proposto por Yazghi é dirigido contra a "ação política" do partido.

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