REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Favela cubana espera manter segurança e ampliar liberdade

Cubanos desejam mais prosperidade, mas também exigem a manutenção da chamada “paz social”

Nick Miroff THE WASHINGTON POST / HAVANA, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 16h55

El Romerillo é o tipo de bairro que, em qualquer outro país, alguém pensaria duas vezes antes de entrar. Mas não em Cuba. Muitas casas são verdadeiros casebres e suas ruelas lembram as favelas de muitas cidades latino-americanas.

Mas a favela socialista da Cuba de Fidel Castro é um pouco diferente. Não há gangues, armas e drogas. Ninguém é desprovido de assistência médica, ensino e alimentação. Em geral, as famílias mantêm a porta da frente da casa aberta para arejar, que permite o ir e vir de crianças e vizinhos. “Você pode sair por aí à noite, sem medo”, disse Yosue Diaz, de 34 anos, que sempre viveu no bairro.

Os cubanos têm um termo especial para este tipo de existência: “tranquilidade social”, que significa “paz social”, mas também lei e ordem, algo raro numa região com algumas das mais altas taxas de crime no mundo.

A morte de Fidel Castro aos 90 anos vem obrigando os cubanos a se perguntar que tipo de futuro desejam para sua ilha e muitos fora do país também questionam se o arruinado modelo econômico e o sistema político autoritário impostos por Fidel seguirão sem ele.

El Romerillo é um lugar onde os cubanos são muito pobres e estão muito cansados disso. “Passamos anos fazendo a mesma coisa. Temos de ser mais como a China”, resmungou Diaz.

Na falta de eleições diretas, Fidel, e na última década seu irmão e sucessor Raúl, têm governado Cuba com base em uma espécie de contrato social imposto. Os cubanos não desfrutam das liberdades básicas, especialmente a política, mas desde que não contestem o governo podem ter proteção pública e segurança social, o que é raro na América Latina.

A expectativa de vida e o nível de alfabetização se equiparam ao observados nas nações desenvolvidas. O governo garante uma cesta básica mensal, incluindo leite para crianças de até 7 anos e proteína extra para doentes e idosos.

Esse manto de segurança custa caro. A polícia cubana - uniformizada e à paisana - está por toda a parte. O governo mantém inspetores por todo o país para vigiar a vizinhança e reportar atividades suspeitas. Um tipo de dissuasão muito eficiente, contra crimes e também a dissidência política.

O sistema paternalista construído por Fidel choca com a democracia liberal, mas o argumento é que o Estado é legítimo, pois cuida de seus cidadãos e garante a ordem. É o mínimo que os futuros líderes de Cuba terão de manter para o sistema continuar funcional. 

Mas talvez seja impossível, a menos que o país adote as reformas de mercado que propiciaram o crescimento em países como China e Vietnã, conservando ao mesmo tempo um governo de partido único. “Jamais é uma boa ideia dar liberdade em troca de segurança, porque no longo prazo você não tem nenhum nem outro”, disse Julio Cesar Guanche, historiador. Na sua opinião, Cuba precisará desenvolver uma cultura de “cidadania” para preservar as realizações do sistema socialista. “É melhor ter segurança em liberdade: a possibilidade de defender seus direitos, incluindo os direitos econômicos e os sociais”, afirmou.

Liberdade. Há uma profunda e crescente demanda por mais liberdade e prosperidade, mas muitos cubanos dizem que não desejam uma mudança que transforme Cuba em mais um país latino-americano desorganizado e violento.

Mesmo o tão elogiado sistema de saúde cubano está desmoronando. Muitos hospitais apresentam condições trágicas. Medicamentos e suprimentos médicos são roubados para serem revendidos no mercado negro. Os pacientes sabem que podem garantir uma consulta mais rápido se oferecerem presentes, como refrigerantes e doces.

O famoso sistema educacional também piorou. Muitos dos melhores professores deixaram a função para trabalhar como guias turísticos, garçons, garçonetes ou gerentes de hotel, porque ganham muito mais. A “paz social” de Cuba conseguiu sobreviver às desigualdades emergentes, mas muita gente se preocupa com o que o país perderá se as mudanças forem muito rápidas.

“A liberalização econômica criou desigualdades e continuará criando”, disse Guanche. “Para combater isto, a solução é direcionar mais recursos para sindicatos e outras organizações ou adotar políticas que promovam os pequenos empresários, e uma imprensa que preste atenção à crescente desigualdade. “Sem isto, teremos mais liberalização e muito menos paz social”, disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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