Favoritismo da esquerda na França resiste à acusação contra Strauss-Kahn

Prisão em Nova York do nome mais forte do Partido Socialista para eleição presidencial não tira legenda da dianteira da disputa, apontam sondagens; substituto de 'DSK' teria 29% das intenções de voto, contra 19% de Sarkozy e 17% da extrema direita

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

A sequência de números 2806 tornou-se cabalística na França. Até ser preso, acusado de tentativa de estupro no quarto 2806 do Hotel Sofitel, em Nova York, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, era o favorito às eleições presidenciais de 2012 e seria aclamado em 28 de junho nas prévias do Partido Socialista (PS).

O escândalo jogou a sucessão no escuro. Ainda assim, pesquisas de opinião feitas após o ocorrido indicam que os socialistas ainda não estão mortos e a prisão de Strauss-Kahn não favoreceu imediatamente seus rivais.

Segundo levantamento feito pelo instituto Ipsos, o líder agora é o ex-secretário-geral do PS François Hollande, com 29% da preferência, seguido do presidente Nicolas Sarkozy, com 19%, da líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, com 17%, e do ambientalista Nicolas Hulot, com 11%.

A sondagem traz duas constatações mais claras: a primeira é de que os socialistas não estão mortos. "O PS perdeu o candidato preferido, mas o processo de substituição começa a se confirmar, com a transferência de votos para Hollande ou Aubry", explicou ao Estado o diretor de Estudos do Ipsos, Federico Vacas.

Além disso, a diferença entre os candidatos do PS caiu em relação a Sarkozy e Marine Le Pen, mas nenhum deles cresceu, por ora, com a prisão de Strauss-Kahn. "A carreira política de Strauss-Kahn corre o risco de ter acabado. Mas eu creio que não haverá incidência no PS. Trata-se de um caso pessoal", estima o cientista político Gérard Grunberg, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS).

Efeito Sarkozy. Uma terceira constatação é mais arriscada, mas alguns cientistas políticos não deixam de mencioná-la. Nenhum candidato tem tanta reserva de votos quanto o atual presidente, embora ele tenha baixos índices de preferência nas pesquisas. Mesmo impopular, Sarkozy é capaz de captar eleitores da extrema direita e de centro em um eventual segundo turno. Assim, a prisão de Strauss-Kahn pode torná-lo o favorito.

Embora ainda não tenha confirmado sua candidatura, Sarkozy age como candidato. Multiplicou encontros com operários e agricultores no interior do país. Fortalecido pela queda de seu maior rival, o presidente conta ainda com um cabo eleitoral que não tinha em 2007: Carla Bruni-Sarkozy, cuja gravidez dará ao presidente um bebê às vésperas da eleição.

Na extrema direita, o fenômeno Marine Le Pen, herdeira da Frente Nacional (FN), não tem rivais. Entretanto, seu fôlego e talento para alargar o eleitorado do pai, o neofascista Jean-Marie Le Pen, parece estar se esgotando.

Fim da euforia. Até a eclosão do escândalo sexual, uma certa euforia começava a tomar o eleitorado de esquerda nas ruas da França. Trinta anos depois da vitória de François Mitterrand, o primeiro presidente oriundo do PS, Strauss-Kahn encarnava a esperança de uma nova vitória.

O presidente do FMI mantinha o suspense sobre sua candidatura, obedecendo ao código de conduta apartidária da entidade. Mas na última terça-feira esse silêncio, imaginava-se, seria quebrado. Strauss-Kahn tinha uma reunião marcada na sede do partido, Rue Solférino, em Paris, com a secretária-geral do PS, Martine Aubry.

No encontro, esperava-se, o diretor do FMI comunicaria sua decisão de se desligar do fundo e concorrer às prévias socialistas, para as quais era favorito, na frente do ex-secretário-geral François Hollande. Com a prisão, a reunião jamais aconteceu.

Desde então, o PS não sabe quem será o nome forte do partido. Hollande lidera as pesquisas de opinião, mas Aubry - ex-ministra do Trabalho responsável pela criação da fracassada semana de 35 horas - também tem força, segundo as primeiras pesquisas realizadas após a prisão. Candidata derrotada em 2007 por Sarkozy, a ex-deputada Ségolène Royal corre por fora.

CORRESPONDENTE / PARIS

A sequência de números 2806 tornou-se cabalística na França. Até ser preso, acusado de tentativa de estupro no quarto 2806 do Hotel Sofitel, em Nova York, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, era o favorito às eleições presidenciais de 2012 e seria aclamado em 28 de junho nas prévias do Partido Socialista (PS).

O escândalo jogou a sucessão no escuro. Ainda assim, pesquisas de opinião feitas após o ocorrido indicam que os socialistas ainda não estão mortos e a prisão de Strauss-Kahn não favoreceu imediatamente seus rivais.

Segundo levantamento feito pelo instituto Ipsos, o líder agora é o ex-secretário-geral do PS François Hollande, com 29% da preferência, seguido do presidente Nicolas Sarkozy, com 19%, da líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, com 17%, e do ambientalista Nicolas Hulot, com 11%.

A sondagem traz duas constatações mais claras: a primeira é de que os socialistas não estão mortos. "O PS perdeu o candidato preferido, mas o processo de substituição começa a se confirmar, com a transferência de votos para Hollande ou Aubry", explicou ao Estado o diretor de Estudos do Ipsos, Federico Vacas.

Além disso, a diferença entre os candidatos do PS caiu em relação a Sarkozy e Marine Le Pen, mas nenhum deles cresceu, por ora, com a prisão de Strauss-Kahn. "A carreira política de Strauss-Kahn corre o risco de ter acabado. Mas eu creio que não haverá incidência no PS. Trata-se de um caso pessoal", estima o cientista político Gérard Grunberg, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS).

Efeito Sarkozy. Uma terceira constatação é mais arriscada, mas alguns cientistas políticos não deixam de mencioná-la. Nenhum candidato tem tanta reserva de votos quanto o atual presidente, embora ele tenha baixos índices de preferência nas pesquisas. Mesmo impopular, Sarkozy é capaz de captar eleitores da extrema direita e de centro em um eventual segundo turno. Assim, a prisão de Strauss-Kahn pode torná-lo o favorito.

Embora ainda não tenha confirmado sua candidatura, Sarkozy age como candidato. Multiplicou encontros com operários e agricultores no interior do país. Fortalecido pela queda de seu maior rival, o presidente conta ainda com um cabo eleitoral que não tinha em 2007: Carla Bruni-Sarkozy, cuja gravidez dará ao presidente um bebê às vésperas da eleição.

Na extrema direita, o fenômeno Marine Le Pen, herdeira da Frente Nacional (FN), não tem rivais. Entretanto, seu fôlego e talento para alargar o eleitorado do pai, o neofascista Jean-Marie Le Pen, parece estar se esgotando.

Fim da euforia. Até a eclosão do escândalo sexual, uma certa euforia começava a tomar o eleitorado de esquerda nas ruas da França. Trinta anos depois da vitória de François Mitterrand, o primeiro presidente oriundo do PS, Strauss-Kahn encarnava a esperança de uma nova vitória.

O presidente do FMI mantinha o suspense sobre sua candidatura, obedecendo ao código de conduta apartidária da entidade. Mas na última terça-feira esse silêncio, imaginava-se, seria quebrado. Strauss-Kahn tinha uma reunião marcada na sede do partido, Rue Solférino, em Paris, com a secretária-geral do PS, Martine Aubry.

No encontro, esperava-se, o diretor do FMI comunicaria sua decisão de se desligar do fundo e concorrer às prévias socialistas, para as quais era favorito, na frente do ex-secretário-geral François Hollande. Com a prisão, a reunião jamais aconteceu.

Desde então, o PS não sabe quem será o nome forte do partido. Hollande lidera as pesquisas de opinião, mas Aubry - ex-ministra do Trabalho responsável pela criação da fracassada semana de 35 horas - também tem força, segundo as primeiras pesquisas realizadas após a prisão. Candidata derrotada em 2007 por Sarkozy, a ex-deputada Ségolène Royal corre por fora.

PARA ENTENDER

A ausência de Dominique Strauss-Kahn na próxima eleição realimenta as esperanças do centro. O Partido Socialista não tem mais candidatos que seduzam com a mesma eficiência com o eleitorado centrista. Reforçam-se as hipóteses de candidaturas do ex-ministro do Meio Ambiente Jean-Louis Borloo, do Partido Radical (PR), de François Bayrou, do Movimento Democrático (MoDem), e do ex-ministro da Defesa, Hervé Morin, do Novo Centro. Nas últimas pesquisas, Borloo - ex-aliado de Sarkozy - é o mais bem posicionado, com 9% da preferência. Mas Bayrou, fenômeno da campanha de 2007, não pode ser excluído. "Boa parte do eleitorado de Bayrou em 2007 corresponde aos que se preparavam para apoiar Strauss-Kahn", explicou ao jornal Le Monde Frédéric Dabi, diretor do instituto de pesquisas Ifop.

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