Favorito à reeleição, Evo busca ampliar seu poder no Legislativo

Boliviano quer aumentar para 74% a votação em seu partido na disputa pelo Congresso, o que lhe daria legitimidade política para aprofundar reformas inspiradas nas teses de Hugo Chávez

Murillo Ferrari, enviado especial / La Paz, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 17h46

LA PAZ - Se as pesquisas para a presidência da Bolívia forem confirmadas neste domingo, quando os mais de 6 milhões de bolivianos habilitados pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) – incluindo 272.058 fora do país – forem às urnas, Evo Morales, do partido Movimento ao Socialismo (MAS), obterá um terceiro mandato à frente do país.

Desde o meio de setembro, quando as sondagens passaram a ser divulgadas com mais frequência, o ex-líder cocaleiro sempre manteve uma confortável margem de aproximadamente 40 pontos porcentuais para seu principal adversário, o empresário Samuel Doria Medina, da Unidade Democrática.

Confirmando a vitória, Evo ficará na presidência até 2020, totalizando 14 anos no poder – 2 a mais do que Víctor Paz Estenssoro, que cumpriu, no entanto, mandatos não consecutivos, mas tomou medidas parecidas com as de Evo, como nacionalização de empresas estrangeiras e reforma da Constituição. A receita é parecida com as ditadas por um dos principais mentores ideológicos de Evo, o presidente venezuelano morto em 2013, Hugo Chávez.

Nesse caso, restariam apenas duas dúvidas que as urnas precisarão responder: primeiro, se Evo conseguirá conquistar 74% ou mais dos eleitores, como ele disse mais de uma vez ser sua intenção. Essa meta, aliás, não foi traçada pelo presidente por acaso. Representa um avanço de 10% em relação a sua votação em 2009 e 20% de sua primeira vitória, em 2005.

A segunda dúvida, essa mais importante do ponto de vista da gestão do país, é se a popularidade de Evo será suficiente para que os candidatos de seu partido conquistem mais de dois terços do Congresso, o que facilitaria a aprovação dos projetos do MAS na próxima administração – incluindo reformas na Constituição aprovada em 2009.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, ao ser questionado sobre sua saída da presidência em 2020, Evo respondeu mais de uma vez que “cumprirá a Constituição”. O alerta de analistas ouvidos pelo Estado é de que entre as reformas na Constituição boliviana – para reformular o sistema judicial, por exemplo –, uma maioria no Congresso permitira que o artigo que trata do limite de reeleições também fosse alterado.

“Nenhuma pesquisa, nenhuma análise desde o começo da campanha deu tantos votos a Evo. Ele sempre teve uma margem muito grande para os adversários, mas é provavelmente o único que acredita que o MAS pode crescer tão acentuadamente nestas eleições”, disse o pesquisador social e professor universitário Gustavo Pedraza.

Tensão étnica. A conquista de Evo da presidência, em 2005, aliada ao discurso de confronto de seu partido na época, acirrou as diferenças entre os “cambas” – brancos que são maioria no leste do país, principalmente no Departamento de Santa Cruz – e os “collas”, os nativos indígenas de áreas como La Paz e El Alto, por exemplo.

“Por muito tempo, houve desrespeito de ambos os lados. No meu caso, que sou de La Paz e tenho origem indígena, era tratado com preconceito quando tinha contato com eles”, disse o despachante aposentado Juan Cabrera, de 72 anos.

Pedraza, porém, acredita que a suavização do discurso e das atitudes de Evo, principalmente depois da reeleição em 2009, reduziram a tensão e, consequentemente, a importância da divisão na sociedade boliviana.

“Para o presidente ter chances de vencer em Santa Cruz neste ano – o que teria uma importância simbólica muito grande –, Evo trocou o confronto pela inclusão e fez concessões em várias áreas. Isso tem um impacto direto na ordem social e étnica da Bolívia”, explicou. “Esses fatores, aliados a uma mescla populacional que houve em Santa Cruz nos últimos anos, levaram as forças intolerantes e racistas a um papel mínimo.”

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