Favorito espanhol teme efeitos da crise

Mariano Rajoy, líder conservador e favorito para vencer eleição, acredita que momentos mais tensos ainda estão por vir na Espanha

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h01

O discurso oficial é de confiança e de que a crise econômica pode ser superada "com força de vontade" na Espanha. Nos bastidores, entretanto, o grupo político que deve vencer as eleições de amanhã inquieta-se sobre o futuro do país e parece ciente de que os piores momentos ainda estão por vir.

Mariano Rajoy, líder do Partido Popular, provavelmente sairá como o grande vitorioso das eleições de amanhã. Mas seus aliados sabem: ele já está sob forte pressão dos mercados, dos sindicatos e mesmo dos demais líderes europeus. A Espanha deve cair em uma nova recessão em 2012 e Rajoy terá pouco tempo para convencer os mercados de que pode tirar o país de sua pior crise desde a redemocratização, nos anos 70. Mas essa situação sombria não constou nos discursos que Rajoy fez na reta final de campanha.

O Estado participou em Madri do último comício do candidato e acompanhou seu périplo pela capital. Embalado em samba, o maior comício de toda a campanha reuniu 20 mil partidários e transformou-se em uma festa antecipada. "A tormenta acabou. Hoje é dia de festa. Neste fim de semana Rajoy será presidente. Rubalcaba acabou", anunciava o mestre de cerimônia, enquanto um DJ colocava o axé Sou da Bahia para animar o público.

A produção do evento era impecável: grupos de música emocionavam a multidão, abrindo caminho para a entrada triunfal de veteranos do PP, como o ex-premiê José María Aznar. Bandeirinhas da Espanha faziam parte do cenário, assim como imigrantes, jovens e mesmo uma coordenação ensaiada a cada vez que alguém das arquibancadas gritava espontaneamente "Viva Espanha".

A mensagem do comício era a de que o PP pode mudar a Espanha, apesar da queda do PIB, do desemprego, do corte de renda e forte tensão social. "Chego para voltar a dar prosperidade aos espanhóis, depois de anos de irresponsabilidade", disse. "A Espanha precisa recuperar sua imagem de força e quando ninguém tinha de dizer o que temos de fazer", declarou.

Rajoy sabe que essa é sua melhor chance de chegar ao poder, depois de 30 anos de vida política. Para isso, está disposto a pagar um preço alto, por exemplo, ao não revelar quem será afetado pelo misterioso pacote de austeridade a ser anunciado.

Nascido há 56 anos na Galícia, ele ocupou um ministério pela primeira vez em 1996, no governo Aznar. Foi ainda peça-chave na polêmica participação da Espanha na invasão do Iraque ao lado do presidente George W. Bush. Ironicamente, foi o atentado cometido pela Al-Qaeda que impediu Rajoy de vencer as eleições de 2004. Ele tinha uma vantagem confortável, mas o atentado reverteu sua sorte. Seu partido inicialmente culpou a organização basca ETA pelo ataque.

Em 2008, Rajoy perdeu de novo e sua capacidade política passou a ser questionada dentro do PP. Ele mesmo admite que, entre os espanhóis, foi sempre tido como uma pessoa sem carisma. Rajoy visivelmente faz um esforço para mudar isso. Tenta falar mais alto e mostrar-se mais à vontade em meio ao povo.

Um de seus grandes trunfos é ter emergido como a voz moderada dentro do PP e da política espanhola. Ele elogiou a decisão da ETA de abandonar as armas e vai pedir uma revisão da lei que autoriza o aborto, sem que isso leve à proibição total do procedimento médico. Quer voltar a permitir que se fume em restaurantes, "mas sempre que não atrapalhe os demais". Posições mais moderadas acabaram atraindo mais votos. Mas ele segue inflexível em um ponto: sempre critica duramente os socialistas.

Dos dois lados do espectro político, há quem diga que não é Rajoy quem está ganhando, mas os socialistas que estão perdendo. Ele passou o dia ontem tentando mostrar que é a pessoa mais confiável para fazer as reformas. Mas os mercados não o veem dessa forma, principalmente diante de sua recusa em explicar como cortará o orçamento, sem dizer quem vai pagar por isso.

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