Enrique Marcarian/REUTERS
Enrique Marcarian/REUTERS

Favorito na Argentina escolhe técnica para Economia e difere de estilo kirchnerista

Daniel Scioli, candidato apoiado pela presidente Cristina, anunciou sua escolha em um programa de TV

Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2015 | 17h35

BUENOS AIRES - Uma militante peronista de perfil técnico e ligada à ecologia, sem histórico em disputas por cargos políticos no currículo, comandará a economia argentina se o governista Daniel Scioli ganhar a eleição do dia 25. Silvina Batakis ocupa desde 2011 posto equivalente no governo da Província de Buenos Aires, que Scioli administra há oito anos. Economista de carreira, é descrita por colegas como alguém simples e fácil de se trabalhar. A escolha marca um contraste com o estilo combativo adotado pelo atual titular da pasta, Axel Kicillof. 

O anúncio feito por Scioli, um peronista moderado, na manhã desta quinta-feira, 15, em um programa de TV afasta do cargo o economista Miguel Bein, que analistas apontavam como favorito, por comandar seu programa econômico de sua campanha. Algumas meios especializados em economia discutiam após o anúncio se ela terá poder real ou será uma executora das políticas de Bein. Silvina foi enviada por Scioli à reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) no Peru, na semana passada, com a missão de fazer contatos para investimentos e reabertura de créditos para o país.

Na véspera do anúncio, Scioli dissera num programa de TV que o comandante da Economia não precisaria ser um "ministro superdotado, mas um bom administrador, que gradualmente aborde os temais de interesse geral". Silvina seria a segunda mulher a ocupar a função, depois de Felisa Miceli.

Segundo integrantes da campanha de Scioli, Silvina cultiva um perfil discreto. Mesmo no governo, só se tornou mais conhecida nos últimos três meses, por sua participação na campanha. Ela é descrita como uma "peronista em geral e sciolista em particular", o que a distancia do modelo kirchnerista de liderança. "Para ela importa mais o pragmatismo que a ideologia", diz um dos integrantes da campanha sciolista. O kirchnerismo mantém os traços históricos peronistas de estímulo à proteção estatal e de presença política territorial em cada bairro, mas agrega como estratégia o combate aberto a um inimigo de turno. 

Na economia, os antagonistas mais recentes do kirchnerismo são os chamados fundos abutres, credores que não aceitaram a renegociação da dívida argentina (7% do total), exigiram o valor integral de seus bônus e conseguiram uma decisão na Justiça americana favorável em julho de 2014. Isso colocou o país em calote parcial, com a cobrança de US$ 1,6 bilhão.

Os termos da negociação com esses fundos, chamados pelo governo de "abutres" por se especializarem em comprar títulos abaixo de seu valor nominal para logo exigir o valor total, permearam a campanha. Nos últimos dias, aliados de Scioli revoltaram o ministro Kicillof ao dizerem que é preciso chegar a um acordo rápido com os fundos. "Chama atenção quando alguns dizem que é preciso resolver isso de qualquer maneira", reagiu Kicillof, referindo-se a declarações do governador de Salta, o sciolista Juan Manuel Urtubey. O próprio Scioli interveio, dizendo que a negociação deve ser feita em termos justos. "Até Kicillof já disse que é preciso regularizar a situação", afirmou Scioli na quarta-feira.

O principal candidato opositor, o conservador Mauricio Macri chegou a defender o pagamento imediato aos fundos, para a Argentina voltar ao mercado de crédito externo. O terceiro colocado nas pesquisas, o ex-kirchnerista Sergio Massa, defende uma negociação que não afete a soberania argentina. Ele anunciou que seu ministro da Economia seria Roberto Lavagna, que ganhou popularidade no país na transição da crise de 2001 e 2002, e por isso é exibido como um trunfo eleitoral.

Outra questão que o futuro ministro da Economia terá de enfrentar é o câmbio, pressionado pela desvalorização do real, pela baixa no preço das commodities e o volume de reservas, abaixo dos US$ 30 bilhões. Há três semanas, na Fundação Pro Tejer, ligada à indústria têxtil, Silvina recusou-se a dizer qual deveria ser a cotação ideal do dólar. "Não faço futurologia", disse, acrescentando que a cotação "não pode ser a única variável de competitividade". Desde 2011, o governo controla a compra e venda de dólares, o que criou um mercado paralelo. No oficial, a moeda americana custa 9,4 pesos, enquanto nas ruas é vendida por 15,60 pesos. Quanto ao volume de dólares do país, no mesmo encontro da Pro Tejer, disse: "Nenhum país rifa suas reservas. Sei que é relevante o valor porque é importante para a importação e a exportação. Primeiro precisamos de estabilidade para atrair investidores".

O ex-ministro da Economia argentino Aldo Ferrer, disse ao Estado que um dos desafios do próximo titular da pasta será combater o déficit. "O país tem problemas, mas muito diferentes de 2001. É preciso fortalecer o setor fiscal, manter os gastos essenciais e melhorar os investimentos, diminuindo subsídios em energia por exemplo. Isso reduziria a demanda do Tesouro sobre o Banco Central", disse.

Formada na Universidade Federal de La Plata, Silvina se especializou em finanças públicas provinciais na mesma instituição e em economia ambiental na Universidade de York, na Inglaterra. Sua experiência seria usada para cumprir uma das promessas de Scioli, de descentralizar dos recursos entre as províncias e estimular as economias regionais. A única área em que o perfil de Silvina parece destoar do equilíbrio é o futebol. Colegas a descrevem como torcedora incondicional do Boca Juniors, frequentadora assídua do estádio. Em sua conta no Twitter, ela se define como "fanática e sócia"

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