REUTERS/Marcos Brindicci
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Favorito na Argentina precisa evitar ‘fogo amigo’ para vencer no 1º turno

Para ser eleito no dia 25, o governista Daniel Scioli depende de um bom desempenho de Aníbal Fernandez, impopular chefe de gabinete de Cristina, candidato a governador da Província de Buenos Aires, que se tornou um peso na campanha presidencial

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 05h00

Para o candidato governista à presidência da Argentina, Daniel Scioli, representar o kirchnerismo serviu como motor no início da campanha, mas a uma semana da eleição é um peso. Ele atraiu os defensores mais radicais da presidente Cristina Kirchner, mas pena para superar uma das condições para vencer no primeiro turno, ter 40% dos votos. Um entrave é o sistema eleitoral, que o liga na própria cédula a aliados incômodos.

Os eleitores de Scioli são os mais fiéis – 91,4% dos que o escolheram na primária de 9 de agosto repetirão o voto, segundo a consultoria M&F, que ontem divulgou dados que reforçam a dificuldade do governista alcançar os poucos votos de que precisa, buscados entre moderados. 

No levantamento, Scioli tem 38,6% das intenções de voto. Seus rivais, o conservador Mauricio Macri e o ex-kirchnerista Sergio Massa, alcançam respectivamente 29,2% e 21%. O outro grande instituto de pesquisas argentino, o Poliarquía, situa o trio com 37,1%, 26,2% e 20,1%. A segunda condição para vencer no domingo é abrir 10 pontos sobre o segundo colocado.

Uma dor de cabeça para Scioli, apontam analistas, está na região que governa, a Província de Buenos Aires, que por ter 37% dos eleitores do país costuma decidir a eleição. O candidato kirchnerista a substituí-lo é Aníbal Fernandez, o chefe de gabinete de Cristina, porta-voz e número 2 do partido no país. Envolvido em denúncias não comprovadas de narcotráfico e desvio de fundos da saúde, Fernández é extremamente impopular entre quem não é kirchnerista, o voto que Scioli busca. 

No Brasil, o sciolista optaria por um rival de Fernández apertando um botão. Na Argentina, isso não é tão simples. O voto é em papel e as cédulas são espécies de santinhos que reúnem lado a lado todos os candidatos de uma coalizão. 

Em 2012, quando Scioli revelou o desejo de disputar a presidência, Fernández considerou o ato “obsceno”. Hoje, Fernández tem mais chance de ser eleito governador pela companhia na cédula que por sua própria popularidade. De acordo com o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier, Fernández aparece com pequena vantagem sobre María Eugenia Vidal, a candidata da coalizão de Macri no maior centro eleitoral do país. “Se Fernández ganhar, será pela dobradinha com Scioli”, reforçou ao Estado Eduardo Fidanza, diretor do Poliarquía.

Convém a Scioli que os que querem votar nele e rejeitam Fernández usem uma tesoura e recortem a cédula. É única forma de desvincular o voto presidencial do regional. “Alguns setores de classe média podem cortar a cédula, mas não é um costume”, diz o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires (UBA). Na região com mais eleitores e governada por ele, estar ao lado de um candidato kirchnerista radical puxa Scioli para baixo.

Paradoxalmente, Scioli deveria esquecer as diferenças com Fernández e torcer por ele por duas razões. Primeiro, porque ajudaria a evitar um segundo turno. “Se María Eugenia ganhar na província, a chance de um segundo turno equilibrado para presidente é grande, pela tendência de voto ligado”, avalia De Angelis. Segundo, por precedentes. “Quando, em 1987, Raúl Alfonsín perdeu a Província de Buenos Aires, seu governo enfraqueceu tanto que ele caiu em seis meses”, lembra o professor da UBA.

Outro freio para Scioli é ter de fazer campanha com integrantes do La Cámpora, grupo radical jovem que se tornou base da militância kirchnerista quando Cristina rompeu com os principais sindicatos, em 2011. Seus líderes o consideram um peronista conservador. 

Cristina aceitou que Scioli fosse o candidato único da Frente para a Vitória porque ninguém tinha maior chance de vencer. Satisfeita com o ideólogo kirchnerista Carlos Zannini como vice, a presidente abençoou a chapa e impediu uma briga interna na primária de agosto. Na reta final, as fotos de Scioli com La Cámpora, que não o queria na disputa, afastam o eleitor avesso ao kirchnerismo.

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