Pedro Pardo/AFP
Pedro Pardo/AFP

Favorito no México prega austeridade e fim da corrupção

Estratégia de López Obrador é cortar altos salários e benefícios para usar verba em programas sociais e ser exemplo de honestidade

Joshua Partlow / Washington Post , O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

Se Andrés Manuel López Obrador conseguir o que quer, a vida política mexicana logo ficará bem mais sovina. O atual favorito para ser o próximo presidente do México diz que não morará em Los Pinos, o exuberante cenário presidencial, e transformará a área em um parque público.

Ele diz que não vai colocar os pés no avião presidencial que custou US$ 218 milhões - chamando-o de um ofensivo "palácio dos céus" -, mas venderá toda a frota de aviões e helicópteros do governo.

Seu salário será menos da metade do que recebe o atual presidente Enrique Peña Nieto. E as “suntuosas” aposentadorias dos ex-presidentes e de suas equipes? López Obrador vai cortá-las.“Nem mesmo Obama recebe esse tipo de pensão”, disse ele.

No México, país famoso pela corrupção, López Obrador está concorrendo como o Sr. Limpeza. Este ano, os astros políticos alinharam-se em seu benefício - ele tem uma liderança nas pesquisas antes da votação de 1º de julho - principalmente por causa da indignação com a corrupção.

López Obrador tem sido um modelo na esquerda mexicana há décadas principalmente por ser um provocador contra os partidos e elites dominantes, que temem seu programa econômico e sua tendência de mobilizar as massas para suas causas. López Obrador poliu sua reputação de austeridade em um período como prefeito da capital, há uma década, durante a qual morou em um modesto apartamento e dirigindo seu sedan da Nissan - um acentuado contraste com muitos dos principais políticos mexicanos que vivem em mansões. Sua estratégia para combater a corrupção agora, como era então, é basicamente liderar pelo exemplo.

Sua administração, diz ele, vai punir os fraudulentos, cortar os benefícios do poder e recuperar os US$ 25 bilhões em fundos do governo, que ele calcula serem roubados a cada ano, canalizando-os para projetos de desenvolvimento e programas sociais para os pobres.

Em um discurso no início deste ano, López Obrador disse que quer “moralizar a vida pública”. “Vamos nos livrar dos luxos do governo”, disse ele.

Essa abordagem, no entanto, é encarada como ingênua e equivocada por muitos especialistas em corrupção. Quando ele promete reduzir os salários dos altos funcionários, eles enxergam uma política que incentivará os burocratas a suplementar por meios ilícitos a renda perdida. Líderes da sociedade civil dizem que o México precisa de reformas estruturais para erradicar a corrupção, assim como da criação de um procurador-geral independente.

“López Obrador não fez nenhuma proposta séria sobre a corrupção”, disse María Amparo Casar, presidente-executiva do grupo sem fins lucrativos Mexicanos Contra a Corrupção e a Impunidade. “Pensar que um indivíduo no topo da pirâmide, o presidente, diz por decreto que isso vai desaparecer, quando se trata de um fenômeno que permeia toda a administração pública, é difícil acreditar.”

Pior ainda, alguns oponentes encaram o candidato como messiânico e um homem forte em formação, que usará a campanha anticorrupção para consolidar o poder ou processar os inimigos políticos.

Descontentamento

Mas Lopez Obrador está enfrentando uma onda de descontentamento. Antes da última eleição, muitos eleitores esperavam que, ao trazer de volta o Partido Revolucionário Institucional (PRI) - que havia governado o México de 1929 a 2000 - o governo restaurasse a ordem em meio a uma violenta guerra às drogas. Não só a violência piorou, como também houve um ressurgimento do tipo de apadrinhamento político e corrupção que definiu o partido antes da transição do México para a democracia.

A mulher de Peña Nieto comprou uma mansão multimilionária de um empreiteiro do governo. Emilio Lozoya, que ajudou a conduzir a campanha de Peña Nieto e depois liderou a Pemex, a empresa petrolífera estatal, enfrentou acusações de ter recebido milhões em suborno de uma gigante da construção civil brasileira. Vários ex-governadores do PRI enfrentam acusações de corrupção.

Tais escândalos prejudicaram as chances do candidato do PRI, José Antonio Meade, que está em terceiro lugar nas últimas pesquisas; Ricardo Anaya, que representa uma aliança entre direita e esquerda, vem em segundo.

Durante o mandato de Peña Nieto, o México perdeu 30 posições no ranking da corrupção mundial da Transparência Internacional, caindo abaixo de Serra Leoa, Burma e do Azerbaijão na obscura colocação entre os governos mais corruptos do mundo.

 

Relembre: Impasse nas eleições mexicanas de 2012

López Obrador insiste que ele é o homem para mudar isso. “Seu principal feito é que não existe ninguém que possa chamá-lo de corrupto”, disse Ricardo Monreal, um de seus principais assessores de campanha. "Eles podem chamá-lo de louco, um messias, mas ninguém pode dizer que ele é um ladrão.”

Quando jovem, López Obrador trabalhou como advogado para os indígenas em seu estado natal de Tabasco, ao longo da costa do Golfo do México. Ele morava em um barraco de chão batido em uma aldeia rural sem eletricidade e ajudava a fiscalizar obras públicas. Mais tarde trabalhou com uma agência federal de direitos do consumidor.

Entrou para o PRI, mas saiu para participar de um partido de esquerda nos anos 80. Ele conquistou a prefeitura da Cidade do México em 2000, sua única vitória eleitoral.

Este período como prefeito oferece uma amostra de como ele poderá colocar em prática sua oratória sobre o combate às “máfias do poder” no México.

O governo municipal que herdou estava permeado pela corrupção, segundo vários ex-membros de seu governo, que colocavam a culpa em anos de domínio do PRI. Um dos seus principais assessores, José Agustin Ortiz Pinchetti, lembra-se de ter visitado vastos armazéns cheios de cadeiras compradas pelo governo, aparentemente adquiridas apenas para fornecer propinas. Ele disse que burocratas nos escritórios de coleta de impostos rotineiramente desviam dinheiro. "Vi coisas inacreditáveis", lembrou Ortiz Pinchetti.

Se eram acordos de bastidores com os governadores ou pagamentos aos patrões da União, a corrupção incorporada tinha sido a forma como o PRI governou o México durante décadas, um sistema que tinha como meta cooptar segmentos da sociedade com os benefícios e perpetuar a classe dominante. Há muito tempo a mensagem de López Obrador se concentra em romper com esse sistema.

Durante seu mandato de cinco anos como prefeito, López Obrador eliminou centenas de empregos da burocracia. Ele cortou os salários de seus principais assessores e aumentou o pagamento de funcionários de baixo escalão.

Como parte de seu esforço de austeridade, os assessores da cidade perderam guarda-costas, secretários pessoais e celulares pagos pelo governo. As viagens internacionais e as refeições foram cortadas da conta de despesas, disseram ex-funcionários.

“Eu tinha 65 assessores e os reduzi a cinco”, disse Ortiz Pinchetti, que serviu como ministro de Assuntos Governamentais durante três anos.

'José Mujica'

Assessores descreveram tais medidas como uma forma de liberar dinheiro para programas sociais, mas também para apresentar aos pobres da classe trabalhadora - a espinha dorsal de seu apoio político - uma imagem de economia. Aqueles que trabalharam ao lado de López Obrador comparam-no a José Mujica, o ex-presidente uruguaio, que morava em uma fazenda em ruínas e doava a maior parte de seu salário para caridade.

López Obrador agora mora em um bairro de classe média na Cidade do México, ao lado de um consultório médico. Em campanha, ele voa em aviões de carreira.

“Ele é muito frugal”, disse Marcelo Ebrard, que serviu como chefe de polícia de Lopez Obrador e mais tarde se tornou prefeito da Cidade do México. “Ele não liga para carros, relógios.”

Mas o esforço de López Obrador para limpar o governo também se voltou para estabelecer o comando, disse Ignacio Marvan, um assessor durante seu mandato de prefeito.

“Não se trata apenas de moralidade. Não se consegue manter um governo eficiente e respeitável com tais níveis de corrupção", disse Marvan, hoje professor da CIDE, uma universidade de pesquisa na Cidade do México. “Você perde a autoridade.”

A administração municipal de López Obrador talvez tenha ficado mais conhecida pelos programas sociais populares, incluindo benefícios para mães solteiras, idosos e deficientes. Isso aumentou a dívida do governo, como os críticos costumam apontar. Mas quando ele deixou o cargo, o orçamento estava equilibrado.

Os críticos de López Obrador o enxergam como um autoritário que não tolera críticas dos meios de comunicação ou de grupos cívicos. Ele disse que quer um plebiscito sobre seu governo no meio do mandato; os críticos observam como tais votos foram usados em outros lugares da América Latina para abolir os limites dos mandatos e minar as instituições democráticas.

Rigor

As propostas anticorrupção de López Obrador incluem o estabelecimento de penalidades mais rígidas para conflitos de interesse e corrupção, além de fornecer maior transparência nas contratações e nas finanças do governo. Mas em sua campanha, ele se concentra principalmente no combate à corrupção pelo exemplo.

Para José Octavio López, que está no comitê de cidadãos que fiscalizam o Sistema Anticorrupção Nacional do governo mexicano, a ideia de que Lopez Obrador é seja um “homem limpo e automaticamente as coisas vão mudar” é "uma bobagem total”.

O que é importante, ele disse, são mudanças estruturais - como a criação de um escritório do procurador-geral fora do poder executivo. “O que precisamos são instituições que sejam realmente independentes”, disse ele.

Como prefeito, López Obrador não conseguiu erradicar a corrupção no governo da cidade. No início de 2004, seu secretário de finanças, Gustavo Ponce, foi acusado de envolvimento no sumiço de US$ 3 milhões em fundos do governo. López Obrador demitiu Ponce, que mais tarde foi condenado a 8 anos de prisão, mas foi solto logo depois que um juiz determinou que faltavam provas.

Em outro caso, René Bejarano, membro da assembleia legislativa da cidade e ex-secretário pessoal de López Obrador, foi flagrado em vídeo, recebendo US$ 45 mil de um empresário que havia conquistado contratos de construção na cidade. López Obrador foi criticado por culpar rivais políticos de armarem uma conspiração pelo escândalo. 

Bejarano passou oito meses na prisão antes que um juiz descartasse as acusações de corrupção contra ele. Embora López Obrador não estivesse implicado em delitos, os escândalos mancharam a imagem de seu governo. “Ele tem a reputação de ser um homem honesto, mas sua administração foi marcada por escândalos de corrupção”, disse Casar.

Durante a campanha, López Obrador foi criticado por nomear pessoas perseguidas por escândalos de corrupção para sua equipe, incluindo um ex-líder sindical de mineração acusado de peculato. O candidato respondeu que busca a reconciliação e unidade nacional.

Muitos partidários de López Obrador reconhecem que será quase impossível para ele erradicar a corrupção no México. Mas eles esperam que ele marque o início de uma verdadeira mudança.

“Quanto tempo vai demorar? Muitos anos. Uma ou duas gerações”, disse Marcos Fastlitch, um destacado empresário que apoia López Obrador. "Mas quanto mais esperarmos para começar, mais tempo levará para limpar." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO




 

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