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Favorito, Tabaré deve apostar em tecnologia

Ex-presidente uruguaio quer triplicar gasto no setor; rival tem déficit fiscal como alvo

Rodrigo Cavalheiro ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2014 | 19h22

O médico oncologista Tabaré Vázquez, de 74 anos, pretende triplicar o investimento em tecnologia e ciência caso confirme as expectativas e vença a eleição de hoje no Uruguai. Analistas apontam esse como um dos pontos mais ambiciosos de seu programa de governo. 

“A meta dele é investir 1% do PIB no setor, apostando tanto em tecnologia e ciência quanto o Chile e Brasil”, afirma o analista político Daniel Buquet, da Universidade da República. O objetivo na realidade supera o Chile, que aplica 0,4% do PIB na área. O Brasil gasta 1,7%, mas EUA, China e Japão investem entre 3 e 4%. 

O ponto chama a atenção no Uruguai porque a estrutura econômica do país ainda tem base na agropecuária, mas o tema não é novo para Vázquez. Seu primeiro governo ficou marcado pelo Plano Seibal, no qual todos estudantes do país tiveram acesso a um computador. 

Seu sucessor, José Mujica, foi criticado durante a campanha pelos resultados na educação, principalmente no Ensino Médio – segundo levantamento financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, divulgado no ano passado, o país apresenta a menor taxa de conclusão do ensino médio na América Latina – 20,8% chegam ao final entre os mais pobres e 60,2% entre os mais ricos – ante 28,7% e 85% do Brasil, por exemplo. “Acredito que será inevitável para o próximo presidente fazer uma reforma no sistema educativo”, afirma Buquet. Vázquez propõe também maior descentralização, com transferência de “poder e de recursos” para os municípios, e controle da inflação, estimada em 8,8% pelo FMI, que prevê crescimento de 2,8% para este ano.

Azarão. A prioridade do programa do candidato conservador, Luis Alberto Lacalle Pou, de 41 anos, do Partido Nacional, tradicionalmente conhecido como “blancos”, é combater o déficit fiscal, que chegou a 3,2% do PIB nos últimos 12 meses. 

Ele também tem repetido que é preciso um Mercosul “mais aberto ao mundo”, com a possibilidade de assinatura de acordos comerciais com outros países e blocos. “Nos negamos a ficar presos a uma alternativa, Mercosul sim ou não”, disse ao jornal La Nación, de Buenos Aires. Na área social, seu projeto mais ousado é terminar com as habitações irregulares.

“O candidato conservador explora outro ponto em que Mujica não avançou, as moradias populares. Diria que esse e o projeto de cuidado para idosos foram os que menos avançaram com Mujica”, diz a socióloga Verónica Filardo, da Universidade da República. 

Pesquisas. No primeiro turno, os levantamentos de intenção de votos subestimaram o desempenho de Vázquez. Apontaram que ele teria cerca de 42%, mas ultrapassou os 47% e obteve a maioria absoluta no Parlamento. A coalizão de esquerda terá nos próximos cinco anos 50 dos 99 deputados e 15 dos 30 senadores. Caso Vázquez ganhe, o vice assume a cadeira que garante a maioria no Senado. Seria o único grupo político a manter a maioria absoluta no Congresso pela terceira vez consecutiva nos últimos 60 anos. 

Se a vantagem apontada pelas pesquisas se confirmar – Vázquez aparece na frente com 13 pontos em média em três institutos – a própria regra para a realização do segundo turno deve ser revista. Para terminar uma eleição na primeira votação, exige-se que o vencedor tenha a maioria absoluta dos votos totais, e não dos votos válidos, como no Brasil.

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