Fazenda cria tartarugas e sapos para a população comer

Local supostamente produz toneladas de suco e geleia de maçã, embora não haja nenhuma fruta nas árvores

LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADA ESPECIAL / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2012 | 03h02

O discurso está na ponta da língua: os camaradas Kim Jong-il e Kim Jong-un são responsáveis pela felicidade dos norte-coreanos. A transição de poder na Coreia do Norte será consumada amanhã com a nomeação de Kim Jong-un como comandante da Comissão Nacional de Defesa. Ontem, ele foi eleito secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, o único do país.

Apesar de os broches ostentarem apenas os rostos de seu pai, Kim Jon-il, e de seu avô, Kim Il-sung, o mais novo herdeiro da dinastia já é vendido como o dono das grandes ideias que levarão o país a um novo patamar econômico. "Camarada Kim Jong-un é o maior líder do mundo. Ninguém é maior em conhecimento militar e econômico. Eu não sei que outro alto oficial teria tanto interesse em melhorar o padrão de vida do nosso povo", diz a jovem Kim My-hye, de 21 anos, guia da plantação de maçãs Taedonggang, uma das obras atribuídas a Kim Jong-un - apesar de, na época de sua inauguração, em 2009, ele ainda não ter sido apontado como sucessor.

A eleição de Kim Jong-un para líder do partido marca o fim da transição de poder. Pouco conhecido até virar herdeiro, em 2010, o caçula de Kim Jong-il era tido como sucessor do pai pelo menos um ano antes.

Em meio a vários hectares de plantações de maçãs, Kim Pal-hwa, de 28 anos, repete a mesma cantilena. "Sou muito feliz por trabalhar aqui. Graças aos companheiros Kim Jong-il e Kim Jon-un temos tudo. Até mesmo as casas eles nos dão", disse.

De acordo com Hye, graças a Kim Jong-un a plantação usa fertilizantes. Foi ele quem determinou também que todos os norte-coreanos tivessem acesso às frutas e aos animais criados no local. "Nosso grande líder nos deu sua direta orientação para nossa fábrica. Ele nos disse para criarmos não apenas as tartarugas, mas também os sapos, para que nossa população possa prová-los, já que são uma comida rara", contou Pang Dok-son, gerente-geral da fábrica.

Enviados a dois restaurantes de Pyongyang, as tartarugas custam cerca de US$ 25 o prato - muito acima do que pode pagar a maioria das famílias norte-coreanas, cuja média salarial é de menos de US$ 70 por mês.

Pai e filho também deram todos os recursos para que fosse estabelecida a plantação Taedonggang, apresentada à imprensa estrangeira como um modelo de produção norte-coreano.

As linhas contínuas de macieiras se estendem por vários quilômetros. Muitas foram importadas dos Estados Unidos e ainda são muito jovens para uma grande produção, mas os números apresentados pelos dirigentes são de toneladas de frutas processadas e transformadas em toneladas de sucos e geleias.

Desenvolvimento. A fábrica, localizada poucos quilômetros além da plantação, foi construída com pisos de porcelanato e impecáveis paredes brancas. Computadores acompanham a linha de produção. De acordo com o engenheiro responsável, Bae Jong-il, a fábrica tem tecnologia italiana e chinesa e até mesmo um robô sueco.

O que se vê, no entanto, são algumas poucas caixas de geleias e de sucos sendo empurradas pelas linhas de produção por alguns poucos trabalhadores, em uma demonstração que parece ter sido montada para satisfazer a curiosidade estrangeira. Sem nenhuma fruta nas árvores, a fabricação de qualquer coisa nesse momento é claramente inexistente.

As modernas linhas de produção, no entanto, mostram como os norte-coreanos querem ver a si mesmos e o que gostariam de projetar para o futuro. "Este ano, nosso país coloca ênfase em se tornar uma nação economicamente poderosa. É difícil para os estrangeiros verem nosso crescimento. Espero que essa visita permita mostrar nosso desenvolvimento e sucesso", disse o engenheiro.

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