Fazendas substituem florestas no Paraguai

Intensificação do desmatamento no Chaco revolta indígenas nativos da região

SIMON ROMERO , THE NEW YORK TIMES , FILADÉLFIA, PARAGUAI, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h06

A floresta de arbustos do Chaco, com temperaturas de 48 graus, é tão inóspita que os paraguaios a chamam de "inferno verde". A área é do tamanho da Polônia. Povos coletores e caçadores ainda vivem em seus vastos labirintos de quebrachos.

No entanto, apesar de o Chaco ter permanecido hostil à maioria dos empenhos humanos durante séculos, e onças, lobos-guarás e enxames de insetos vorazes ainda habitarem suas matas, o desafio pode estar chegando ao fim.

Enormes extensões do Chaco estão sendo desflorestadas a toque de caixa em um dos cantos mais remotos da América do Sul por criadores de gado do Brasil e por comunidades menonitas de fala alemã, descendentes de colonos que chegaram à região há um século e trabalham como agricultores e pecuaristas.

"O desmatamento e a queima de árvores é tão grande que o céu, às vezes, escurece durante o dia", disse Lucas Bessire, antropólogo americano. "A gente acorda com gosto de cinza e uma fina película branca na língua."

Pelo menos 500 mil hectares do Chaco já foram desmatados nos dois últimos anos, segundo análises de satélite da Guyra, organização ambientalista com sede em Assunção, capital do país. Isso se reflete no aumento das exportações de carne bovina.

"O Paraguai já tem a triste fama de ser um campeão em desmatamento", disse José Luis Casaccia, procurador e ex-ministro do Meio Ambiente, referindo-se ao desflorestamento da Mata Atlântica no leste do Paraguai - restam pouco mais de 10% dessas florestas originais.

"Se continuarmos com essa insanidade, quase todas as florestas do Chaco estarão destruídas em 30 anos", disse Casaccia. A corrida já está transformando os pequenos assentamentos menonitas na fronteira do Chaco em cidades em rápida expansão.

Os menonitas, cuja fé anabatista protestante prosperou na Europa do século 16, fundaram colônias na região nos anos 20. Cidadezinhas com nomes como Neuland, Friedensfeld e Neu-Halbstadt pontilham o mapa.

Selva. Impelidas pela recém-descoberta prosperidade, as comunidades menonitas diferem daquelas de outras partes da América Latina, como na Bolívia, onde muitos ainda guiam charretes puxadas por cavalo e vestem trajes tradicionais.

Em Filadélfia, adolescentes menonitas guiam picapes Nissan novas. Bancos anunciam empréstimos a comerciantes de gado. Postos de gasolina vendem fumo de mascar e cervejas Coors Light. Um rodeio anual atrai visitantes de todo o Paraguai.

Patrick Friesen, gerente de comunicações de uma cooperativa menonita em Filadélfia, disse que os preços das propriedades aumentaram cinco vezes nos últimos anos. "Um lote de terra na cidade custa mais do que no centro de Assunção", disse Friesen, atribuindo o boom, em parte, ao crescimento da demanda global por carne bovina. "Oitenta e cinco por cento de nossa carne bovina é exportada para África do Sul, Rússia e Gabão."

Citando preocupações em alguns países com a doença da vaca louca, que o Paraguai detectou em seu rebanho bovino em 2011, ele diz que a produção local está concentrada em "mercados menos exigentes".

As florestas do Chaco ficam na planície do Gran Chaco, que se estende por vários países. Cientistas temem que a expansão da criação de gado acabe com o que é uma atraente fronteira para a descoberta de novas espécies.

O Chaco ainda é pouco explorado. Os maiores espécimes conhecidos são os queixadas, mamíferos da família dos porcos, descobertos nos anos 70. Em algumas áreas, biólogos vislumbraram recentemente guanacos, da família da lhama.

O mais alarmante é que a corrida pela terra está intensificando a sublevação de povos indígenas do Chaco, que se contam em milhares e há décadas sofrem com incursões de missionários estrangeiros, com a influência dos menonitas e com as lutas internas entre tribos diferentes.

Um grupo de coletores e de caçadores, os ayoreos, está particularmente pressionado pelas mudanças. Em 2004, 17 falantes de ayoreo fizeram o primeiro contato com forasteiros. Em Chaidi, aldeia próxima de Filadélfia, eles descreveram ser perseguidos durante anos por tratores que invadem suas terras.

"Eles estavam destruindo nossas florestas, causando problemas para nós", disse Esoi Chiquenoi. Por consequência, ele e outros de seu grupo, que em fotos tiradas em 2004 usavam tangas, abandonaram abruptamente seu meio de vida.

Gado. Chiquenoi e outros em Chaidi falaram de parentes que permanecem na floresta e continuam a viver de maneira tradicional, o que faz deles, possivelmente, a última tribo não contactada da América do Sul fora da Amazônia. Seu número é estimado em 20. Alguns pesquisadores especulam se eles de fato não foram contactados ou se estão apenas escondidos, já que vivem entre as vastas fazendas de gado que surgiram ao seu redor.

Um relatório de março do Instituto Indígena Paraguaio confirmou sua existência em terras controladas pela River Plate, empresa de criação de gado brasileira, citando evidências de pegadas e buracos cavados para capturar tartarugas para comer.

No momento em que as comunidades menonitas estão sob observação em razão do desflorestamento, elas reconhecem que grandes trechos da floresta estão sendo removidos, mas negam que a culpa seja delas, dizendo que obedecem as leis paraguaias, segundo as quais os donos de terras precisam preservar um quarto das florestas em suas propriedades.

"O que os brasileiros fazem ao adquirirem terra com sua moeda forte e seus bolsos recheados é outra coisa", disse Franklin Klassen, membro da Câmara de Vereadores de Loma Plata. Por todo o Paraguai, a influência econômica do Brasil é impossível de ignorar: são 300 mil brasiguaios, que jogaram um papel na expansão da agroindústria e da criação de gado no país.

E já surgem tensões. Tranquilo Favero, plantador de soja e criador de gado brasileiro, é um dos homens mais ricos do Paraguai e enfureceu muita gente quando disse, em fevereiro, que os camponeses sem terra deviam ser tratados "como mulher de malandro, que só obedece quando é surrada com vara".

Casaccia, o procurador, disse que Favero controla, sozinho, 60 mil hectares no Chaco, além de enormes extensões de terra no leste do Paraguai. Nem Favero nem diretores de sua empresa em Assunção responderam aos pedidos para que comentassem o assunto. Outros criadores de gado brasileiros confirmaram, porém, que expandiram agressivamente suas propriedades no Chaco, contribuindo para o desflorestamento.

Nelson Cintra, criador de gado do Mato Grosso do Sul, disse que ele e seu irmão estavam entre os primeiros brasileiros que apostaram no Chaco, adquirindo cerca de 34 mil hectares em Alto Paraguay, perto da fronteira brasileira, em 1997.

"Os ambientalistas reclamam do desflorestamento, mas o mundo tem bilhões de bocas para alimentar", disse Cintra, que é prefeito de Porto Murtinho (MS). "Existem hoje 1 milhão de cabeças de gado em Alto Paraguay, enquanto 15 anos atrás eram apenas 50 mil", disse.

Nos arredores de Filadélfia, a transformação do Chaco em bastião da criação de gado parece irreversível. Cerca de 80 ayoreos vivem na miséria em um terreno ao lado da rodovia, dormindo embaixo de sacos de plásticos amarrados em árvores.

Às vezes, criadores de gado em picapes param para contratar ayoreos como trabalhadores braçais, pagando-lhes cerca de US$ 10 por dia. Esses trabalhos, porém, são esporádicos. Na maior parte do tempo, os ayoreos ficam encostados numa cerca, sorvendo um chá de erva-mate, observando caminhões que carregam gado que pastava onde um dia os queixadas circulavam.

"Jamais viveremos novamente na floresta", disse Arturo Chiquenoi, ayoreo que trabalha ocasionalmente como peão em fazendas de gado. "Essa vida terminou." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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