'Fazer a guerra dá mais popularidade do que fazer a paz'

Após o processo de paz, em 20 anos a Colômbia será capaz de igualar a renda per capita da Espanha, diz Santos

Entrevista com

JULIANE VON MITERLSTAEDT, HELENE ZUBER, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2014 | 02h06

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de 62 anos, é economista e jornalista. Antes de assumir o cargo, trabalhou no jornal El Tiempo, de sua família, em Bogotá, e ocupou vários cargos em governos, incluindo o de ministro da Defesa do ex-presidente Álvaro Uribe. Os dois se distanciaram depois que Santos foi eleito em 2010 e anunciou que negociaria com as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (Farc). Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Presidente, é possível que o sr. esteja prestes a encerrar o mais longo conflito do mundo?

Hoje, estou mais otimista do que um ano atrás - e, um ano atrás, eu estava mais confiante do que no ano anterior. Realizamos avanços sem precedentes. Mas tratando-se de um conflito tão complexo quanto este não é fácil encontrar uma solução. Esperamos encerrar as negociações ainda este ano.

O sr. disse anteriormente que um acordo talvez fosse possível até o final de 2013. Por que está levando tanto tempo?

Tomei o cuidado de não estabelecer prazos definidos. Esperava encerrar as negociações antes do início do período eleitoral, mas estava sendo excessivamente otimista. Não se pode pôr fim a um conflito que dura 50 anos, em 52 semanas.

O sr. está negociando sem um acordo duradouro de cessar-fogo. Teme que um pequeno incidente interrompa o processo?

Decidi não aceitar um cessar-fogo antes de assinar um pacto de paz. Se concordássemos com um cessar-fogo, as Farc teriam um motivo para prolongarem as negociações eternamente. Se por acaso estas conversações fracassarem, não quero ser visto pela história como mais um presidente ingênuo e pouco inteligente, a dar aos guerrilheiros todas as oportunidades para ganharem força e continuarem combatendo. Sei que muitas pessoas não compreendem como podemos conversar em Havana enquanto continuamos combatendo na Colômbia. Lembro a esse respeito as palavras do ex-primeiro-ministro israelense, Yitzak Rabin: "Eu combato o terrorismo como se não houvesse um processo de paz, e negocio o processo de paz como se não houvesse terrorismo".

Como ministro da Defesa no governo de Álvaro Uribe, o sr.nfligiu graves perdas aos guerrilheiros...

...e mais ainda nos quatro anos como presidente. Mas há um tempo para fazer a guerra e um tempo para fazer a paz.

Não foi possível derrotar as Farc e o ELN apenas por meios militares?

Não, não é possível exterminá-los. Se este processo fracassar, teremos mais 20, 30 ou 40 anos de guerra.

O que aconteceria neste caso? Tomei o cuidado para não enfraquecer as forças armadas. Continuaríamos lutando como fizemos até agora. Mas devo dizer que, desta vez, tenho a impressão de que os líderes guerrilheiros estão realmente dispostos a chegar a um acordo. Se isso não estivesse claro, não continuaria negociando.

O sr. acredita que as Farc desistiriam de um negócio tão lucrativo como o narcotráfico?

Eles terão de fazer isso. Nós temos condições de monitorar suas culturas e suas linhas de transporte. Sim, acredito que eles possam se comprometer a cortar todos os vínculos com o narcotráfico.

O que acontecerá se algumas forças das Farc não se desmobilizarem e continuarem com o narcotráfico e com as extorsões?

Evidentemente, alguns dos seus poderão continuar o negócio por conta própria, porque, enquanto existir pessoas em Nova York, Berlim e Madri que cheiram cocaína, o narcotráfico seguirá sendo um negócio atraente. Estudamos a eficiência do controle das Farc sobre os comandos, e descobrimos que vem sendo mantido num grau muito elevado. Se seus líderes se comprometeram a abandonar o negócio dos narcóticos.

O sr. acha que 100% dos guerrilheiros obedeceriam?

Não gosto de fazer previsões a esse respeito. Em todo processo desse tipo, algumas pessoas ficam para trás. Mas esses não passariam de criminosos, rebeldes sem motivação política.

Muitos guerrilheiros não receberam educação formal e vivem na selva desde crianças. Como poderiam integrar-se na sociedade civil e encontrar empregos?

Quando houver paz, evidentemente, precisaremos de muita ajuda internacional. O período pós-conflito será tão complicado quanto as negociações em si. Além disso, agora a economia colombiana está muito forte. Temos uma das maiores taxas de crescimento da América Latina. Haverá empregos.

Outra questão complexa é como tratar os crimes cometidos pelas Farc. As vítimas insistem que os perpetradores devem ser submetidos a processo, mas isso levaria décadas e faria com que os rebeldes não depusessem as armas. Como o sr. pretende implantar a justiça na Colômbia?

A Colômbia é provavelmente o primeiro país a dar início à reparação dos danos provocados às vítimas antes do fim de um conflito. Devolvemos a terra aos camponeses que foram obrigados a abandoná-la pela violência ou os indenizamos - mais de 360 mil já receberam essa reparação. Além disso, o direito internacional usa o termo "justiça transitória"...

...o que significa que a reconciliação e as investigações começam enquanto a máquina da Justiça se concentra nos crimes mais graves.

Sim, é necessário, porque não podemos levar perante os tribunais todos os crimes. A questão fundamental é: onde traçar a linha de separação entre paz e justiça? Se perguntarmos às vítimas, elas responderão que querem mais justiça; se perguntarmos às vítimas potenciais, elas pedirão mais paz.

Mas o maior medo de muitas pessoas é que não haja punição. O partido do ex-presidente Uribe alega que vocês concederão impunidade aos rebeldes.

Eu jamais aceitaria a impunidade geral para os guerrilheiros.

Infelizmente, meus rivais espalham todo tipo de desconfiança por motivos políticos que não correspondem à verdade. O que eles querem é que o povo tenha medo da paz. Mas espero que o povo compreenda que a melhor coisa que pode acontecer para nós depois de três gerações de sofrimento é a paz. Não vivi um único dia de paz neste país e 90% das pessoas afirmam o mesmo. Nós nos acostumamos a viver numa guerra.

Por que são tão poucos os colombianos envolvidos emocionalmente nas conversações de paz? Meus adversários foram extremamente eficientes em lançar as sementes do ceticismo em relação ao processo de paz. Combater uma guerra é muito mais popular do que negociar, porque neste caso é preciso aceitar o compromisso. Eu sabia que o meu capital político sofreria durante o processo de paz. Se perguntarem às pessoas se elas querem as Farc no Parlamento, elas dirão que não. É a mesma coisa que conceder-lhes benefícios legais nos tribunais. Mas se vocês lhes mostrar o pacote completo, elas responderão sim.

O sr. prometeu um referendo sobre o acordo. O que acontecerá se a maioria rejeitar o tratado?

Mais de 70% dos colombianos querem a paz. Os outros estão assustados com o preço a pagar. Mas até mesmo eles se darão conta de que seus maiores temores não se concretizarão. Estou bastante otimista: os colombianos apoiarão um acordo com as Farc.

Nos anos 80, vários rebeldes se desmobilizaram e fundaram a União Patriótica, mas nos meses seguintes, 3 mil deles foram mortos. Como o sr. pretende impedir um acontecimento como esse?

Naquela época, os paramilitares e os narcotraficantes dominavam a Colômbia. A Colômbia, hoje, é um país diferente. Agora, o Estado está presente em cada esquina, os chefões da droga estão na cadeia ou mortos. Por isso, dispomos dos meios para garantir a segurança dos políticos das Farc.

As Farc foram fundadas há 50 anos como movimento social porque a distribuição da riqueza era muito desigual. O que o sr. está fazendo para acabar com as raízes da guerra civil?

Era vergonhoso que, depois do Haiti, a Colômbia fosse o segundo país mais desigual na América Latina. Mas nós conseguimos alcançar alguma meta; a desigualdade está reduzindo rapidamente. O crescimento da economia nos proporcionou os recursos para financiar uma política social muito progressista, que reduziu a pobreza extrema. Temos a inflação mais baixa de todos os países da América Latina, e a maior taxa de crescimento.

Mas, se a violência voltar a crescer, os investidores poderão dar rapidamente as costas à Colômbia.

O conflito nem acabou e os investidores já estão chegando em massa. Os economistas calculam que o nosso atual crescimento de 4,5% poderia aumentar em média 2% com o fim do conflito. Os projetos de construção contribuiriam com mais 1,5% para o crescimento. Até as estimativas conservadoras preveem que, em 20 anos, poderemos chegar à mesma renda per capita da Espanha. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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